quinta-feira, 30 de junho de 2016

"Não basta fazer cartões bonitos"

Se lhe pedirem uma cópia do Cartão de Cidadão, não dê. Não só é ilegal como, de acordo com uma proposta de lei do Governo, essa exigência vai passar a dar multa. A Comissão Nacional de Protecção de Dados aplaude e diz que pode evitar situações de usurpação de identidade.
Este é o início de uma notícia de grande interesse que pode se lida aqui e da qual destaco o que foi salientado por Clara Guerra, porta-voz dessa Comissão:
As cópias por tudo e por nada acarretam o perigo de "usurpação de identidade" do titular. O Cartão de Cidadão tem, além do seu próprio número, os de contribuinte, de utente do SNS e de beneficiário da Segurança Social. Informação muito útil a alguém que se queira fazer passar por outrem. "Não basta fazer cartões bonitos; o mundo está diferente e nós temos de ter mecanismos de defesa consentâneos com isso".

MUSEU HERMÉTICO PORTUGUÊS


(clicar para ver melhor)

Quanta ciência existe na Biblioteca Pública Municipal do Porto?

Post recebido de Adriano Simões da Silva,  bibliotecário na Biblioteca Pública Municipal do Porto

Foi criada, em sessão de 4 de Dezembro de 2015, a Direção Municipal da Cultura e Ciência, cuja primeira diretora é a Drª Mónica Guerreiro. Surge a pergunta, quanta Ciência existe na Biblioteca Publica Municipal do Porto (BPMP)? Ou seja: quantos títulos de periódicos (revistas e jornais) de Ciência existem na BPMP?

A Ciência é tradicionalmente dividida em 2 grandes grupos: as Ciências Exatas e as Ciências Aplicadas:

As Ciências Exatas estão divididas em 8 assuntos na BPMP:

Ambiente -- Periódicos (SIPOR)
178
Biologia -- Periódicos (SIPOR)
81
Ciência -- [Periódicos] (SIPOR)
89
Engenharia - Periódicos (SIPOR)
155
Física -- [Periódicos] (SIPOR)
18
Geologia -- Periódicos (SIPOR)
50
Matemática -- Periódicos (SIPOR)
34
Meteorologia -- Periódicos (SIPOR)
56

Total: 661 títulos de revistas de Ciências Exatas.

As Ciências Aplicadas podem ser divididas em 3 grandes grupos: Ciências Médicas, Ciências Agrárias e Indústrias.

As Ciências Médicas, por serem pouco pedidas pelos leitores, são apenas divididas em 3 assuntos:

Deficientes – Periódicos (SIPOR)                          73
Psiquiatria – Periódicos (SIPOR)                         41
Saúde – Periódicos (SIPOR)                             1171

Total:  1.285 títulos de revistas de Ciências médicas.

As Ciências Agrárias estão divididas em 6 assuntos na BPMP:

Agricultura -- Periódicos (SIPOR/BN)
546
Cooperativas agrícolas -- Periódicos (SIPOR)
62
Pecuária -- Periódicos (SIPOR)
99
Silvicultura -- Periódicos (SIPOR)
41
Vinho do Porto -- Periódicos (SIPOR)
36
Vitivinicultura -- Periódicos (SIPOR)
118

Total: 902 títulos de revistas de Ciências Agrárias.

As Indústrias, por serem muito pedidas pelos leitores, estão divididas em 18 assuntos na BPMP:

Artes Gráficas -- Periódicos (SIPOR)
53
Bebidas -- Periódicos (SIPOR)
35
Construção civil -- Periódicos (SIPOR)
146
Energia -- Periódicos (SIPOR)
134
Indústria -- Periódicos (SIPOR)
373
Indústria alimentar -- Periódicos (SIPOR)
122
Indústria automóvel -- Periódicos (SIPOR)
277
Indústria cerâmica -- Periódicos (SIPOR)
51
Indústria da cortiça -- Periódicos (SIPOR)
13
Indústria da madeira -- Periódicos (SIPOR)
52
Indústria de combustíveis -- Periódicos (BN-P)
71
Indústria de conservas -- Periódicos (SIPOR)
15
Indústria de lacticínios -- Periódicos (SIPOR)
32
Indústria de panificação -- Periódicos (SIPOR)
35
Indústria do calçado -- Periódicos (SIPOR)
28
Indústria do papel -- Periódicos (BN)
62
Indústria electrotécnica -- Periódicos (SIPOR)
29
Indústria extrativa - Periódicos (BN-P)
59
Indústria farmacêutica -- Periódicos (SIPOR)
33
Indústria metalúrgica -- Periódicos (BN-P)
117
Indústria química -- Periódicos (SIPOR)
68
Indústria têxtil -- Periódicos (SIPOR)
156
Indústria vidreira -- Periódicos (SIPOR)
24
Informática -- Periódicos (SIPOR)
181
Óptica -- Periódicos (SIPOR)
17
Ourivesaria -- Periódicos (CLIPBA)
29
Pesca -- Periódicos (SIPOR)
85

Total: 2302 títulos de revistas de Indústria, incluindo relatórios e contas.

Temos assim a Ciência dividida no catalogo online da BPMP em 4 grandes grupos, num total de 35 assuntos e 5150 títulos de revistas!

Ora são 5150 títulos quando apenas estão “assuntados” ou indexados um total de 32.884 revistas e jornais!

Conclui-se assim que as Ciências representam 16% dos títulos na BPMP!

Tanta Ciência tem reflexos nos Autores na BPMP, onde existem mais de 100 registos de 8 cientistas: Aureliano da Fonseca (médico), Eurico da Fonseca (astronáutica), Clara Pinto Correia (bióloga), Daniel Sampaio (psiquiatra), Carlos Fiolhais (físico), Abílio Fernandes (biólogo), Mário F. Bento Ripado (engenheiro agrónomo) e Barahona Fernandes (psiquiatra).


quarta-feira, 29 de junho de 2016

Por que é que as más ideias se recusam a morrer?

Bom artigo no The Guardian, que mão amiga me fez chegar: aqui.

A FÍSICA DO FUTEBOL


Cristiaho Ronaldo falhou um penalti na selecção, mandando a bola ao poste, e pode-se perguntar por que se falham os penaltis.. A jornalista do Observador Marta Leite Ferreira publicou no observador um artigo sobre a física do futebol; aqui. Fez-me para isso algumas perguntas, às quais respondi como está em baixo. O futebol pode ser um bom meio para falarmos de física...

P- Do que depende a trajetória da bola? 

 R- A trajectória da bola só depende das: 1) condições iniciais (se a bola for considerada pontual, bastam a posição e a velocidade da bola, transmitidas pelo pontapé ou equivalente; mas como a bola não é um ponto têm de se acrescentar factores que descrevem a rotação da bola) e 2) das forças que actuam durante o movimento (peso e resistência do ar, podendo a resistência do ar ser dividida numa componente com a direcção do movimento, o "drag" e noutra com a direcção "perpendicular", o "lift") 

P - Que forças atuam na bola no momento do remate, quando ela viaja no ar e quando bate no poste? 

R- No momento do remate há uma força de contacto transmitida pela bota. Durante o movimento só actuam o peso, que é muito simples apontando sempre para baixo, e a resistência do ar, que pode ser muito complicada. Quando a bola bate no poste volta a aparecer uma força de contacto: o ressalto no poste não é muito diferente do que acontece quando uma bola de bilhar bate numa tabela (se a bola não tiver efeitos, valem as leis da reflexão). 

 P - Que leis têm de ser levadas em conta numa situação de remate à baliza? 

 R- Todo o movimento é governando pela chamada Segunda Lei de Newton da mecânica clássica, que apareceu no século XVII: a velocidade que a bola leva é modificada pela resultante das forças e, como a bola tem um certo tamanho, o momento angular da bola ("spin") é modificado pelo momento das forças (este momento é a medida da capacidade que uma força tem de mudar a rotação: por exemplo a força da nossa mão a abrir uma porta tem maior momento quando empurra a porta junto à maçaneta do que junto ao eixo da porta). O momento angular descreve a rotação da bola e o momento da força descreve a modificação dessa rotação. A física explica tudo o que se passa no jogo, embora os jogadores não saibam física: eles limitam-se a aplicar intuitivamente o que aprenderam ao longo de muitos anos. O Ronaldo não estudou física suficiente para saber a explicação científica daquilo que faz!

 P- Como é que a física explica o que acontece durante um pénalti? 

 R- Um penálti é como qualquer outro remate de bola parada. As condições iniciais neste caso são muito simples: posição de 11 metros da baliza e bola impulsionada pela bota do rematador ao apito do árbitro. A física explica a trajectória dadas as forças em presença. Dadas as regras do jogo - o guarda redes não se pode mexer antes da bola partir - é impossível defender se a bola for a uma região muito afastada dele, designadamente perto dos postes e em cima. Um penálti bem marcado é, portanto, indefensável. É aliás por isso que a maior parte dos penáltis resultam em golos. 

 P - Mesmo quando uma bola bate no poste, ela pode entrar na baliza. Do que depende o ressalto da bola? 

 R- Se a bola não estiver a girar sobre si própria, a bola é devolvida pelo poste conforme as leis da reflexão: o ângulo de entrada é igual ao ângulo de saída (os dois medidos relativamente à perpendicular no ponto de embate). Se a bola estiver a girar sobre si própria, isto é, se tiver efeitos, a situação é mais complicada, embora obviamente também seja descrita pela física. Os físicos falam de colisões. P - Que características da bola devem ser levadas em conta quando se estuda a trajectória e o movimento da bola? 

 R- Tem de se tomar em conta o peso da bola, a sua forma e o seu tamanho. Estes aspectos estão normalizados. Também tem importância, por causa da resistência do ar, o tipo de material e o acabamento da bola. Nestes aspectos há alguma variedade. Por isso é que em certos campeonatos, com bolas próprias, alguns jogadores acharam algo estranha a bola. Mas é uma questão de hábito... 

 P - O que são o efeito Magnus, o arrasto, a sustentação, a viscosidade do meio e a camada de Prandtl? E como é que estes aspetos estão implicados no remate? 

 R- Efeito Magnus: Fenómeno físico que consiste num aparentemente estranho encurvamento do movimento da bola: a trajectória desta não é simplesmente parabólica (a parábola é o movimento de um projéctil no ar, sem considerar a resistência do ar). Deve-se aos "efeitos" comunicados pelo rematador: não só a coloca com um movimento de translação, mas também com um certo movimento de rotação. O ar faz o resto: nos pontos onde se o ar se movimenta com maior velocidade, há menor pressão e vice-versa, e  diferenças de pressão causam forças, que encurvam a bola. Embora o efeito tenha sido descrito no século XIX pelo alemão Magnus, Newton já o tinha notado  no século XVII ao observar jogos de ténis. A superfície da bola que está em contacto com o ar é responsável por pequenas diferenças no efeito Magnus. 

 Arrasto: Em inglês "drag" é uma componente da força de resistência do ar a um objecto que se desloca nele. As forças de arrasto dependem da velocidade. Opõem-se sempre ao movimento, fazendo diminuir a velocidade do objecto. 

 Sustentação: Em inglês "lift" é uma outra componente da força de resistência do ar a um objecto que se desloca nele: ao contrário do "drag", é perpendicular ao movimento. Essa é a força responsável pela sustentação dos aviões no ar. É devido a uma diferença de pressões entre as camadas de ar por baixo e por cima do objecto. Depende tal como o "drag" da velocidade do objecto. As forças de resistência do ar dependem da velocidade, pelo que não se exercem sobre objectos parados. 

Viscosidade do meio: Parâmetro do meio onde se dá o movimento que descreve a facilidade com que as suas camadas se deslocam uma sobre as outra (o ar é pouco viscoso). É um parâmetro que entra nas forças de resistência do ar, tal como a densidade do ar. Camada de Prandtl: camada de ar na imediata proximidade de um objecto. É importante para descrever as forças de resistência.

 A física consegue descrever a trajectória das bolas de futebol. Pode não ser simples, isto é, não bastam conceitos da mecânica elementar. 

 P- Quer acrescentar mais alguma coisa?

 R- Sobre as bolas aos postes, que me disse estarem a surgir muitas no Europeu. Apesar de o futebol ser governado pelas leis da mecânica clássica e o jogo ser determinista (as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, havendo portanto possibilidade de previsão dos movimentos) o certo é que há onze jogadores de cada lado, cuja acção torna o jogo muito complexo e, por isso, na prática imprevisível. A bola no poste é um azar, porque os jogadores atacantes querem certamente obter golos. Acontece de um modo que podemos dizer aleatório, tal como num jogo de "flippers", em que nem sempre o jogador acerta nos buracos que quer. Num campeonato de futebol haver mais ou menos bolas aos postes é simplesmente acidental.

NOVOS LIVROS DA GRADIVA


Informação recebida da Gradiva:

Antoine Compagnon
Um Verão  com Montaigne

Pequeno em dimensão, profundo  na análise. Com uma escrita acessível,  em quarenta  breves capítulos,  o autor leva‑nos  a descobrir um  Montaigne estival e estimulante.  Evidenciando a  actualidade e a  densidade histórica  de  Ensaios,  é uma  excelente forma de  acompanhar o pensamento do filósofo  francês do séc. XVI que nunca perdeu  actualidade.  
«Há muitos anos que Montaigne me  acompanha e o seu  Ensaios é o livro  que levaria para a mítica ilha deserta.» — João Lobo Antunes
Colecção «Gradiva Breve», n. º 5, 176 pp., € 12,00

Harry G. Frankfurt
Sobre  a Desigualdade
Muitos consideram a desigualdade  como um dos principais problemas  sociais. Mas o combate à desigualdade  é frequentemente confundido com  o combate à pobreza.  Harry G. Frankfurt,  um dos filósofos  morais mais influentes  da actualidade,  argumenta que  estamos moralmente  obrigados a  eliminar a pobreza,  não a diminuir a  desigualdade. Num  livro provocador, o  autor apresenta respostas convincentes  e consistentes sobre o tema.
«Relevante, persuasivo e de leitura muito  agradável, é o tipo de filosofia que devia  estar mais amplamente disponível.» — Gideon A. Rose, Universidade  de Princeton
Colecção «Filosofia Aberta Política» / «Fora de Colecção»,  n. º 475, 80 pp., € 9,00
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/8817

Iúri Buida
Sangue Azul Gelado
Tradução do russo de José Milhazes
De um dos maiores nomes da literatura  russa contemporânea, a Gradiva publica para o seu Verão  Sangue Azul Gelado,  um romance onde se prova que os temas  de sempre podem ser abordados com  originalidade. Esta é a história de Ida  Zmoiro, que tinha tudo para uma longa  vida como actriz. Inspirando ‑se nesta figura feminina marcante, o autor retrata  um regime onde o indivíduo pode gozar  da sua fama mundial sendo fiel ao ditador,  mas «desaparece» logo que ousa ir contra  as regras da ditadura. Drama, paixão,  acontecimentos  estranhos, alusões literárias reúnem‑se num livro que  nos traz o melhor  da literatura russa, por um autor  frequentemente premiado.           
Colecção «Gradiva», n.º 162, 284 pp., € 14,00
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/8815

António Pinto Pereira
Dossier U ‑235
Terroristas islâmicos cruzam ‑se  com uma rede de tráfico de urânio  enriquecido a caminho de Lisboa.  O professor Mendonça, responsável  pelo departamento de terrorismo  e contra-terrorismo do SIS, procura  estabelecer as ligações desta complexa  e perigosa teia  de interesses.
Conseguirá evitar a  implosão planeada  da Torre de Belém,  onde será assinado  o novo Tratado  de Lisboa II? Um  thriller empolgante  que leva o leitor a  viajar por cidades  tão distantes como  Lisboa, Dubai, Cairo ou Zurique, que  junta a Suprema Ordem da Luz de Ouro  de Melki‑Tsedek a uma multinacional das novas tecnologias e que reúne  personagens diversificados, de culturas distintas. O terrorismo para o centro  de Portugal. Uma leitura sem paragens!
Colecção «Fora de Colecção», n. º 477, 484 pp.
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/8818

UMA HOMENAGEM MERECIDA!


O Professor Galopim de Carvalho: o Museu, o Património Geológico e a Cidade de Lisboa

O Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina e o Diretor do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, José Pedro de Sousa Dias, convidam para a cerimónia de entrega da Medalha Municipal de Mérito Científico ao Professor Doutor António Galopim de Carvalho.

A cerimónia tem lugar no dia 30 de junho, às 18h30, no Laboratorio Chimico, no MUHNAC.

Entrada livre.

PROGRAMA
Parte I -  Entrega da Medalha Municipal de Mérito Científico
18h30 – Boas vindas
José Pedro Sousa Dias, Diretor do Museu de História Natural e da Ciência, Museus da Universidade de Lisboa
18h35 – Imposição da Medalha Municipal de Mérito Científico a António Marcos Galopim de Carvalho
Fernando Medina, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa
18h45 – Intervenção do Prof. Galopim de Carvalho.
Parte II - Testemunhos
 19h00 – O Prof. Galopim de Carvalho e o Museu Nacional de História Natural
Fernando Barriga, Universidade de Lisboa
19h20 – O Prof. Galopim de Carvalho e a defesa do Património Geológico
José Brilha, Universidade do Minho
19h40 – Testemunhos e imagens com comentários do Prof. Galopim de Carvalho
20h00 – Encerramento


MNHNC 
Rua da Escola Politécnica, 56/58
1250-102 Lisboa
Tel: 213 921 810 | Ext. 35210

O "senso comum acrítico": da formação de professores para a sala de aula

Os professores já não estudam filosofia, história ou sociologia 
enquanto estão em formação. Eu acho isso muito sério, porque
essas disciplinas eram uma base da profissão e hoje os estudantes
são formados quase como tecnólogos da educação, são 
preparados para oferecer conjuntos de instruções. 
Michael Young, 2014.

Preocupa-me muito o doutrinamento a que os professores estão constantemente sujeitos por via da formação pela qual passam, dos recursos que se lhe "oferecem", dos currículos que se lhes impõem, dos discursos dos múltiplos "parceiros educativos"... Há uma ideologia concertada que, exactamente por ser ideologia e por ser concertada, é difícil de detectar e de analisar, e ainda mais difícil de contestar e de recusar.

Sei bem que estamos perante um fenómeno antiquíssimo mas sei também que no presente, à semelhança de outros contextos conturbados e perigosos, a sua sofisticação é de um elevado profissionalismo e tem representação à escala global.

Surgem, no entanto, estudos de grande interesse. Dou, de seguida, conta de um publicado em 2007, da autoria de William Hare, professor no Canadá,  com o título Ideological Indoctrination and Teacher Education (aqui):
Os filósofos que se dedicam à educação têm-se preocupado com o fenómeno do doutrinamento no ensino, sobretudo por via do currículo e dos manuais escolares. Os alunos, estejam na escolaridade básica ou na secundária, não têm ainda um juízo crítico formado o que os deixa vulneráveis e susceptíveis à persuasão. 
Os professores, através do seu poder e autoridade, podem contribuir para tal, impondo crenças ao mesmo tempo que desencorajam o exame, o questionamento, as objecções. 
Nem sempre isto acontece de modo consciente e deliberado. Neste caso, talvez o mais frequente, a explicação é que o seu pensamento decorre daquilo que Karl Popper (1975) designou por “senso comum acrítico”. Em qualquer dos casos há o perigo real de os jovens adoptarem também esse tipo de pensamento. 
A doutrinação acontece quando as pessoas não adquiriram ou perderam a capacidade de avaliar as ideias com as quais se confrontam, ficando fechados nelas de tal forma que não conseguem ver alternativas. Para contrariar esta tendência e preparar os alunos para as reconhecer e lhes resistir é preciso que os professores tenham uma atitude crítica, que reconheçam o perigo do autoritarismo e do dogmatismo, e estejam permanentemente vigilantes ao seu avanço. 
Isto significa, segundo Israel Scheffler (1989) que o seu ensino deve respeitar a integridade intelectual dos alunos, levando-os a desenvolver as capacidades envolvidas na formação de juízos independentes. Para tanto é preciso incentivá-los a avaliar as razões que contestam e as que apoiam as ideias, a escrutinar a credibilidade das fontes, e a resistir aos esforços de controlo do seu pensamento. 
Os professores têm de ter muito presente que uma das suas tarefas é levar os alunos a reconhecer que aceitar certas ideias sem as questionar leva-os a fecharem-se num certo modo de pensar, e que no futuro podem confrontar-se com  ideias que os farão rever ideias que antes formaram. 
Não obstante a importância desta abordagem ela parecer estar muito afastada da formação de professores, talvez porque, diz Chris Arthur (2004), o juízo crítico tem sido afastado das universidades, onde tradicionalmente tinha um lugar privilegiado 
Esta dúvida foi suscitada há alguns anos no Reino Unido por John Wilson (1993), que fez notar o facto de os futuros professores estarem a ser usados como "líderes dos fiéis", na “ideologia apropriada”, ao invés de serem incentivados a examinar os discursos educativos. Nos Estados Unidos foi levantada semelhante dúvida a propósito das nas Normas Profissionais (do Conselho Nacional de Acreditação da Formação de Professores - NCATE) que exigem que os professores "conheçam e demonstrem conhecimento do conteúdo e pedagógico, bem como habilidades e disposições necessárias para ajudar todos os alunos a aprender”. Os críticos têm-se referido a esta orientação, que dizem ser uniformizadora, como uma nova ferramenta para impor a conformidade política, na qual, à primeira vista, é difícil detectar o espectro da doutrinação. 
A questão que se põe em termos de formação de professores é a seguinte; de que vale os professores adquirirem conhecimentos se não recorrem a eles de modo inteligente e adequado? Ora, os professores devem, precisamente, ser preparados para terem consciência do seu intelecto e um apurado sentido de responsabilidade. 
Isto implica levá-los a ter abertura mental para exercerem crítica e para agirem em conformidade com as circunstâncias. Por isso, a ideologia tem de ser afastada da formação de professores. É preocupante que os futuros professores sejam levados a adoptar as crenças dos seus professores. 
É preciso deixar bem claro que a propaganda que se faz nas salas de aulas das universidades entrará nas salas de aulas dos outros níveis de ensino.

terça-feira, 28 de junho de 2016

RECREAÇÃO FILOSÓFICA DE TEODORO DE ALMEIDA, EXTRACTOS DO PRÓLOGO AO VOL: I

 Ontem, no colóquio sobre "Ciência e Literatura",  fiz uma intervenção na  Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa sobre a "Recreação Filosófica" do padre oratoriano Teodoro de Almeida. Ficam aqui alguns extractos do prólogo do vol. I (1.ª edição, 1751), o primeiro texto didáctico de Física em língua portuguesa:

"Não há criatura tão vil nos olhos da ignorância, que não seja bastante a transportar o maior engenho, se guiado pela luz da razão souber nela descobrir os vestígios das perfeições de Deus. Sem o estudo da Filosofia olhamos para as criaturas, e não vemos o melhor que nelas há; porque os olhos nos representam somente a casca, e a razão é a que penetra o interior, onde se encobre o mais admirável, o mais belo, e o mais agradável, que há que ver em todas elas.

(...) Nesta obra servirei de guia a quem quiser ver a melhor beleza das criaturas, e quem delas quiser fazer como degrau para subir ao conhecimento de seu Autor. Discorrerei por todo o mundo porque não tem outros limites a curiosidade do Filósofo natural, senão os do Universo. Como pretendo dar luz, é preciso evitar a confusão e seguir boa ordem e método natural: parece-me justo tratar em primeiro lugar de todas as coisas naturais em comum, das partes que constam e das propriedades, que convêm a todas, ou quase todas, como são a Figura, Peso, Movimento, etc. Serei mais difuso, tratando do Movimento, e das suas leis, e propriedades admiráveis, porque são o fio que nos deve conduzir neste labirintho escuro; mas explicarei somente o que puder ser útil para o conhecimento das coisas mais dignas de atenção.

(...) No que pertence ao estilo, não seguirei o das escolas, por ser menos agradável, e mais difuso: nem também me valerei das razões metafísicas, de que se usa nas aulas; porque, escrevendo eu para todos, não é em que somente alguns me entendam: porei de parte inumeráveis questões escuras, que nas escolas se tratam; porque sendo o meu intento instruir, e juntamente recrear os meus Leitores, não é razão que os mortifique. Estribarei os meus discursos igualmente na razão, e na experiência: não seguirei aqueles que só atendem ao que lhes dita o seu juízo, sem fazer caso da experiência; nem também aqueles que só põem os olhos na experiência, sem consultar a razão. Os primeiros não explicam os efeitos, que sucedem na realidade, mas os que lhes finge o seu discurso, que deviam suceder: os segundos contentam-se com recrear os olhos, não procuram satisfazer o entendimento; observam os efeitos, não se cansam em descobrir as causas.

Das experiências escolherei as que tiverem sido repetidas, e averiguadas, ou por mim mesmo, ou pelos autores, que cito; e das razões só apontarei as perceptíveis e claras. Se algumas demonstrações, que jogarem com a Geometria, parecerem ao Leitor escuras, poderá deixá-la, supondo o ponto como coisa certa; porque ainda que sou inimigo de tudo o que não é muito claro, levando do exemplo dos melhores, julguei que não devia defraudar da utilidade, que delas pode resultar aos leitores mais agudos, ou mais sofredores do trabalho. Farei o que puder para que os meus discursos sejam bem fundados; mas não me persuado que sempre acertarei com a verdade: seria isso ignorar que sou homem. Muitas vezes me hei-de enganar; e todo aquele que conhecer o engano rogo-lhe que o não siga, porque sempre abominei esta perniciosa lisonja: eu mesmo me retractarei, se o chegar a conhecer, assim como tenho retractado muitos que seguia. Os erros são enfermidades da alma; e quem será tão pertinaz, que conhecendo a sua enfermidade, a não queira lançar fora, só porque é sua?

(...)Sei que a muitos faz tão grande peso a autoridade, que julgam ser melhor errar com muitos, que acertar com poucos: nunca segui esta opinião; sempre tive por melhor acertar, ainda só, do que errar, ainda que fosse com o mundo todo; porque é muito melhor escapar só da tormenta, do que perecer em comum naufrágio. A verdade, ainda que esteja só, e desacompanhada, é estimável; e o erro, ainda que seja seguido, e acompanhado de todos os sábios do mundo, nunca merece estimação. Se desterrarmos do mundo a liberdade de julgar nas matérias, que a Fé não ensina, e nos sujeitarmos a este pesado jugo da autoridade, ficará o mundo todo obrigado a não saber mais, do que um só homem, aquele a quem primeiro se der o titulo de Mestre.

Não devemos ter o espirito tão inquieto que sempre amemos a novidade, nem tão timidos que só estimemos o antigo; porque a verdade não cresce com os anos, nem a fazem decrépita muitos séculos: a sentença mais seguida, que corre pelo mundo, foi algum dia tão nova, que nunca se tinha ouvido; e será tão velha algum dia, que conte milhões de anos; e não é hoje mais verdadeira do que foi, e será nesses tempos. Não deve a verdade envergonhar-se de aparecer no mundo por ser nova, nem o erro é razão que apareça confiado na autoridade das suas cãs. Nas matérias teológicas, verdades novas não as há, porque a luz da Fé, que as dá a conhecer, é bem antiga; mas nas matérias filosóficas há muitas verdades novas: nestas matérias para nosso governo deu-nos Deus a luz da razão, e da experiência, que pode numa hora desmentir o discurso de todos os sábios do mundo, como se tem visto muitas vezes.

Escolhi antes tecer esta obra por modo de diálogo, por me parecer mais acomodado para a inteligência daqueles, para quem escrevo, além de ser em si menos fastidioso. Não quis introduzir só dois interlocutores, que fizessem as vezes de Mestre, o Discípulo; porque, havendo de fazer (como o tempo pedia) comparação entre os dois sistemas, não era bem que a causa de algum deles corresse à revelia; e assim era preciso dar a cada uma Patrono que a defendesse. Não escolhi para Patrono da causa dos Peripatéticos algum Autor determinado, porque não era o meu ânimo contender com algum particular (...).

Não me pareceu justo desprezar a linguagem portuguesa, porque não é menos própria para explicar estas matérias do que a latina, a francesa, inglesa, alemã e outras, em que se vem tratadas frequentemente: além de que me pareceu crueldade bárbara obrigar a ser ignorantes aos que, por descuido de seus Pais e Mestres, não sabem outra língua mais que a sua vulgar; se Deus não os privou da luz da razão, porque os não ajudaremos a abrir os olhos, e conhecer os segredos da natureza? Nunca me agradou a opinião daqueles, que fazem as ciências anexas a algum idioma. Não falta quem diga que a Filosofia só se deve tratar na língua latina; mas eu não vejo razão, que o persuada. Um delicado engenho dos nossos tempos fez imprimir um sonho, que tivera, em que a Filosofia ordenara que se não tratassem as suas questões senão na língua latina; e que os meus Diálogos por esta razão só eram úteis para aprenderem a ler os meninos na escola: eu nunca fiz caso de sonhos; porém se a minha doutrina se deve dar aos meninos nas primeiras escolas, julgá-la-ão doutrina sã, sólida, clara e importante, pois só esta se deve dar nesta idade.

A Filosofia não tem idioma próprio; mas, se houvesse de aproveitar o da Pátria, onde nasceu, certamente não seria o latino. A verdade é natural de todo o mundo: os povos, ainda os mais rudes e bárbaros a entendem; e não são outra cousa as ciências mais que o descobrimento da verdade (...)"



domingo, 26 de junho de 2016

ESCREVER É PRECISO

Enviada, a meu pedido, pelo cronista e crítico literário Eugénio Lisboa, transcrevo mais uma bela peça literária da sua autoria saída, anteriormente, no Jornal de Letras:

Navigare necesse; vivere non est necesse.
Pompeu, o Grande

A frase em epígrafe é atribuída ao famoso general romano, Pompeu, o qual, com ela, teria estimulado os seus soldados, se amedrontados, à acção necessária: “Navegar é preciso; viver não é preciso.” Fernando Pessoa apoderou-se dela, como se apoderou de muita coisa. É próprio dos grandes criadores apropriarem-se, sem escrúpulos, daquilo que lhes convém. O que roubam torna-se, de direito, seu. Não sendo, nisto, muito diferentes dos fazedores de impérios. Roubar assim não é imoral ou, se é, não tem grande importância: faz parte do processo criador. Como dizia Eliot, os poetas imaturos imitam, os poetas maduros roubam. Eça fartou-se de roubar; Racine também. Camões, sempre que lhe dava jeito. Só não rouba quem não sabe o que fazer com o produto do roubo. Eliot sabia do que falava: era um saber de experiências feito.

Navegar amacia as dificuldades do viver; navega-se como quem se alivia, criando alguma coisa: uma obra de arte ou um império. Viver é, por vezes, intoleravelmente doloroso. Na sua última viagem, a bordo de uma pífia barcaça, em direcção a uma praia egípcia, Pompeu navegava, sabendo que a vida lhe ia ser tirada, dentro de minutos. Esse derradeiro navegar foi também o seu derradeiro conforto, antes de lhe ser outorgado esse outro lado da vida, que é a morte. Mais uma vez, o navegar sobrepôs-se ao viver.

Fernando Pessoa, como se sabe, cedo desistiu de viver, para poder continuar a navegar, isto é, a escrever. Criar é sempre uma radical renúncia a viver. Cria-se como quem não vive. Muito escritor moderno agita-se, sofregamente, em viagens, em festivais, em “eventos”, numa espécie de “vida”, que não passa de agitação sem grande sustento. Como diria Valéry, a sua agitação é muito intensa, mas a sua substância é pouca coisa. “Vivem" muito, mas “navegam” pouco. O Gustav Aschenbach, de A Morte em Veneza, frágil e doentio, levantava-se cedo, chapinhava o corpo com água fria, para despertar, e punha-se, freneticamente, a não viver, isto é, a escrever, denodadamente, a sua obra monumental. Quando, lá para o fim, quis ter um gostinho de vida, traindo a navegação, numa sedutora praia, em Veneza, os deuses, implacáveis, condenaram-no à morte, enviando-lhe um siroco empestado. O criador que tenta começar a viver comete um pecado capital: a sentença que o visita só pode ser terminal.

Quis, com estas palavras alevantadas, fazer um prefaciozinho à minha própria experiência: insignificante, como eu, mas significativa, como experiência.

Tenho vivido, nestes últimos cinco anos, uma vida de grandes dificuldades emotivas que me obrigam a um retiro, que é uma espécie de não-vida. Tenho, em compensação (gloriosa), navegado, quanto posso e sei. Sobretudo, percorrendo o passado que me ficou na memória. Apesar da não-vida que tem, em grande parte, sido a minha vida de agora, tenho sabido viver de outra maneira, que é escrever – navegar – intensa e extensamente, sobre a minha vida e não-vida passadas.

A alegria de escrever é o antídoto eficaz contra a nossa impossibilidade (e angústia) de viver. Cada um compensa-se, como pode, daquilo que a vida lhe não dá (ou da vida que não tem). Uma grande obra (a minha não o é, de certo, mas é, não duvidem, o que pode ser: uma obra extensa e obstinada), uma grande obra, repito, obriga sempre a um recuo perante a vida, a um retiro: Camilo exila-se em S. Miguel de Seide, Eça fecha-se nos seus escritórios (em Newcastle, Bristol e Paris), Montherlant barrica-se, como um selvagem, no n.º 25 do Quai Voltaire, em Paris, mandando bugiar os confrades da literatura e os mundanos da sociedade: navegar é preciso (nos intervalos, às vezes, trai a navegação, com um viver perverso, que pagará com língua de palmo). Martin du Gard aluga uma baiuca, em Clermont, fugindo de Paris e dos colegas e amigos (e também da mulher!), para pôr de pé, num tremendo isolamento, a monstruosa arquitectura dos seus Thibault. Thomas Mann, acossado pelos nazis, fixa-se em Zurique, abandonando casa, livros e papéis, na pestiferada Alemanha, para se entregar, furiosamente, a um horário de não-viver, isto é, de trabalho forçado e rigoroso, fechado num quarto de hotel, inacessível a jornalistas e outros intrusos: vivere non est necesse.

Pessoa, como verdadeiro escritor, não glosou Pompeu, apenas na escrita: glosou-o na vida. Não comentou Pompeu: viveu Pompeu. Uma coisa é comentar um texto; outra, muito diferente, é viver esse texto: apropriarmo-nos dele, tornando-o nossa substância.

Régio recusou viver em Lisboa e foi não-viver em Portalegre. Portalegre foi tanto a sua província, como o Quai Voltaire foi a província de Montherlant. Todo o verdadeiro criador tem de ser um “provinciano”. Se não está na província, terá de a inventar, para seu uso e proveito. Almada, tontamente, falava nos “palermas de Coimbra”. Alguns intelectuais lisboetas vivem obcecados com a “província”, como se esta fizesse mal à alma. Lembrem-se de Kant, que não escreveu A Crítica da Razão Pura, em Berlim, mas, sim, numa ruazinha modesta da cidadezinha de Königsberg. Se tivesse vivido em Berlim, ou não tinha escrito a sua obra monumental, ou teria tido que inventar Königsberg em Berlim. Em suma, teria tido que se provincianizar, para, em boa paz, se entregar a um pujante não-viver. O não-viver é a doença necessária ao criar – ao navegar. Só tem medo da província quem tem medo das grandes aventuras: que são as do espírito e as da alma – as da verdadeira criação. Régio acusava Branquinho da Fonseca de se ter tornado “preguiçoso”, ao ir, da provinciana Coimbra, para a “cosmopolita” Lisboa. Branquinho teria escolhido a dispersão do viver, prejudicando o navegar: não deu, por isso, a obra que, dele, se esperara.

Tenho, nas minhas horas de solidão, a companhia esbelta de uma gatinha chamada Ísis. Passa o melhor da sua vida a chamar-me para a vida, com ela, no terraço da casa onde habito. Às vezes, não resisto e vou brincar com ela. São momentos deliciosos de vida. Mas, enquanto vivo, não escrevo. A vida, em suma, paga-se. Mas é a escrita que dura.

sábado, 25 de junho de 2016

Na educação escolar não há milagres

Uma aula de matemática na Escola do Ensino Médio Augustinho Brandão
Nunca tinha ouvido falar de uma pequena localidade chamada Cocal dos Alves que fica no Estado de Piauí, um dos mais pobres do imenso Brasil e onde as condições de vida são muitíssimo adversas.

Quem me falou dela foi uma colega, professora de Matemática ligada à formação de professores. Tal como eu, ela defende o princípio de que a aprendizagem depende substancialmente do modo como se ensina, do saber – científico e pedagógico – e dedicação dos professores.

Nessa localidade, há alguns anos, chegou à escola de Ensino Médio Augustinho Brandão um jovem professor de Matemática que estava decidido a mudar, por via da educação, alguma coisa no destino dos seus alunos. Não esteve sozinho entre os seus pares e os alunos entenderam isso mesmo. 

Trabalhar para concorrer às Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) e ganhar reconhecimento foi um propósito que, desde 2005, têm conseguido alcançar: vão nas centenas de medalhas de ouro, prata, bronze e de menções honrosas.

Este tipo de concurso, muito em voga, vale o que vale, mas, no caso, tem valido à escola mostrar que em matéria de educação escolar, como diz o professor, "não existe milagre. Talvez o resultado seja explicado pela cobrança e dedicação de professores, combinadas com o interesse dos alunos pelos estudos".

Vale a pena abrir esta ligação e também esta.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

"Pensamento computacional"

"Escola do futuro já existe. Saiba onde é". O título é de mais uma notícia republicada há poucos dias em português. Mesmo sendo a repetição monocórdica de títulos que estão em todo o lado, e que, por isso mesmo, não me sugerem qualquer atenção, vi a palavra Singapura e passei à leitura do texto.

A tal escola fica em Singapura, o país muito pequeno que, em termos de educação escolar, é admirado pelos grandes porque tem obtido resultados excelentes no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA).

O que li a seguir é, para não usar palavras excessivas, preocupante. Preocupante porque:

1. quem escreve ou reproduz este tipo de artigos - jornalistas? - limita-se a veicular ideias ou práticas (que se pretendem impor) sem o necessário enquadramento filosófico, ético, científico... O tom que usa é laudatório em vez de factual e questionador. Pergunto: alguém que se pronuncia na comunicação social sobre educação escolar não deveria informar-se pelo menos a um nível básico e não deveria interrogar o que se apresenta como novo, bom, fantástico?

Por exemplo, esta frase não lhe sugerirá qualquer discussão?
Drones voando, pianos tecnológicos no chão, circuitos com 40 ratos de computador que se movem sozinhos e tudo criado e controlado por crianças de 10 e 12 anos.
Na ausência de discussão, a pseudo-neutralidade de pseudo-notícias contribui para a consolidação de um pensamento social propício ao acolhimento dessas mesmas ideias ou práticas.

2. as crianças e os jovens são reduzidos, desde os seus primeiros passos na escola, ao potencial económico-financeiro que possam ter. Tenho visto serem designados por "recursos", mas nunca tinha visto serem designados por "matéria-prima".
"Cedo perceberam que a matéria-prima mais poderosa que tem são os cidadãos". 
Não ocorre a quem usa a expressão que quem é "matéria-prima" não pode ser "cidadão"? Que esta expressão deita por terra a condição humana e destrói a essência de cada pessoa?

3. o pensamento que se quer que as pessoas venham a ter nesse tal futuro em que tanto se insiste não será propriamente pensamento mas competência funcional para operar...
"o objetivo é que as crianças começam a desenvolver desde pequenas um pensamento computacional"
Sei bem que o pensamento se desenvolve e, por isso, receio que este tipo de objectivo seja muito bem sucedido.

Seja em Singapura seja em Portugal, seja onde for,
por via da educação
nas escolas públicas
com suporte de universidades e
com a determinação dos Estados
estamos, no presente, a conduzir a humanidade para um futuro de via única,
que, como todos os futuros, não será tão idílico como nos querem fazer crer que será.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

MELHORAMENTO HUMANO







Na próxima 6.ª feira, 1 de Julho de 2016, pelas 18h realiza-se no RÓMULO Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a palestra intitulada "Melhoramento Humano", com Alexandre QuintanilhaPalestra inserida no ciclo “Fronteiras da Ciência”, coordenado por António Piedade, a decorrer até Julho de 2016.


Resumo: “Há milénios que o ser humano tem explorado as mais variadas formas de melhorar a sua qualidade de vida. Todas as áreas do conhecimento contribuíram para essa melhoria. Em momentos diferentes enfatizamos as contribuições de um ou outro domínio nesse processo, mas ao nos esquecermos das contribuições complementares das ciências naturais e sociais e das humanidades, construímos narrativas pobres e desequilibradas do Mundo. Com exemplos, tentarei olhar para o passado o presente e o futuro deste tema.”

Os números que arrasam

É uma triste realidade. As línguas clássicas são notícia na comunicação social pela sua raridade, não no sentido positivo, porque uma coisa rara é algo precioso, a conservar, mas no sentido mais prosaico, de algo em extinção. 

Estamos em época de exames nacionais. Realizou-se o exame de Latim, do 11º ano, no dia 21. A notícia vem nos jornais, foi a prova com menos alunos ( leia-se  aqui): apenas 40, ainda menos que em 2014.

Somos talvez o único país europeu em que as línguas clássicas chegaram a esta situação de quase extinção. A originalidade, neste caso, não nos fica bem...

Irá esta tendência voltar para trás? 

Há alguma esperança. Se a frequência da disciplina de latim  no ensino secundário é mínima (houve, no entanto um ligeiro crescimento no 10º ano), a cultura clássica está a renascer no ensino básico e há também, em várias escolas, cursos livres de latim, sinal de que o interesse pelo estudo dos clássicos não está morto.

Serão razões para dizer: dum spiro, spero, ou, em bom português, enquanto há vida, há esperança.


quarta-feira, 22 de junho de 2016

Tantas razões! Bastaria uma razão de relevo

A pressão, à escala global, para se introduzirem as ditas novas tecnologias da informação e da comunicação na sala de aula é fortíssima. O artigo 50 Reasons It’s Time For Smartphones In Every Classroom, assinado por um senhor que se chama Terry Heick, apesar de ter sido publicado há mais de dois anos, é muito esclarecedor acerca da argumentação que subjaz a essa pressão: uma argumentação que nada tem a ver com razões pedagógicas substanciais ligadas à pertinência da sua integração no processo de ensino-aprendizagem, em benefício dos alunos.

Numa tradução livre nele se diz que:
Há muitas maneiras de usar um smartphone na sala de aula, mas esse uso continua a ser uma questão delicada pelo facto de envolver a privacidade, o assédio moral, a equidade, a potência do acesso, a estrutura e a gestão das aulas, eventuais roubos, etc. Envolve também preocupações pedagógicas legítimas sobre como integrar esta tecnologia no processo de aprendizagem. Na verdade, a aprendizagem pode ocorrer na ausência da tecnologia e esta, se mal integrada, pode distrair os alunos e perturbar as interacções professor-aluno-alunos. Porém, há a considerar que, neste mundo em que vivemos, a tecnologia está profundamente enraizada em tudo o que fazemos (...). Haverá "dores de crescimento", muitos professores apontarão razões para não as usar, alegando que não funcionam, mas a maioria dessas razões decorrem do ajustamento que ainda há a fazer ao contexto escolar.
Muito bem. E, agora, algumas das 50 razões que o autor aponta para se usarem os smartphones na sala de aula (ver texto original) [por exemplo]:
- os alunos podem usar o google e o youtube, tal como o professor faz
- podem entrar em bibliotecas virtuais, museus...;
- o acesso à informação é incrivelmente fácil e rápido, deixando de ser monopólio de alguns;
- logo, aumenta-se em vez de se reduzir, a equidade nesse acesso;
- os alunos podem estabelecer os seus próprios rumos, ritmos e estilos de trabalho;
- podem ouvir música enquanto trabalham;
- os smartphones permitem a "auto-aprendizagem" e a "mobilidade", princípios centrais da aprendizagem no futuro;
- permitem a aprendizagem entre pares, o ensino sincronizado e o armazenamento em nuvem;
- permitem a concretização de projectos baseados em jogos, em podcasts e noutras tendências actuais;
- é fácil desligá-los, colocá-los no modo de avião, etc.;
- podem ser ligados a laptops, tablets, e a outras tecnologias de aprendizagem;
- podem veicular desafios aos alunos, lembretes, listas de tarefas, mensagens sociais, etc.;
- os problemas de gestão da sala de aula não derivam da tecnologia mas do "design instrucional";
- os problemas de segurança podem transformar-se em protecção para os adolescente;
- as tecnologias estão cada vez mais integradas nas nossas vidas, para partilhar, difundir, publicar, mostrar qualquer coisa em tempo real...
Claro que os smartphones são também.
- um excelente meio para educar para a cidadania.
E... não havia de faltar o argumento máximo: a libertação dos alunos e do professor.
- descentram o ensino do professor;
- libertam o professor.
Quebrada a relação professor-alunos, separado o ensino da aprendizagem, dá-se a entender que tudo correrá bem na educação escolar.