segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A CULPA DO ZIKA É DO MEU VIZINHO


Minha crónica mais recente na Notícias Magazine, sobre as teorias da conspiração à volta do zika:

- Os militantes antivacinas concluíram que o problema é uma vacina. Ainda os ouvirei dizer que os acidentes da Operação Páscoa da GNR são causados pelas picas nos braços dos automobilistas.

- Os opositores aos transgénicos concluíram que o problema são mosquitos geneticamente modificados. Neste caso há uma clara questão de género: os mosquitos OGM são todos machos e a sua descendência não é viável. Já os mosquitos que picam e transmitem doenças são todos fêmeas.

- Os opositores a coisas acabadas em «ida» apontam o dedo ao larvicida piriproxifeno, que interfere com uma hormona de crescimento dos insetos e das aranhas, mas nenhuma relação tem com qualquer hormona de crescimento humana.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Entrada fulgurante de um post sobre manipulação no "Expresso" no 1.º lugar dos mais vistos de sempre

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O direito à alfabetização


"Entre os direitos humanos, deveriam ser universais
o direito à alfabetização - nos países que utilizam o alfabeto
- e, mais geralmente, os direitos à literacia, à instrução e à cultura."
José Morais (Alfabetizar em democracia, 2013, 13)

O programa de rádio da Antena 1 Antena aberta de ontem, da autoria do jornalista António Jorge, teve por tema o analfabetismo em Portugal.

Nele se destaca o facto de termos 550.000 adultos analfabetos, para os quais, desde 2010, o Ministério da Educação não apresenta qualquer resposta.

Na verdade, os contextos oficiais destinados à aprendizagem da leitura e da escrita por parte desta população foram extintos pelo que, de momento, são apenas e só iniciativas isoladas - municipais e autárquicas ou particulares - que dão resposta a tão premente necessidade.

Ouvir aqui.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

UMA HISTÓRIA MAL CONTADA

Texto primeiramente publicado na imprensa regional.







Faz hoje, dia 26 de Fevereiro, 400 anos que Gaileu Galilei (1564 – 1642) foi advertido pela Igreja Católica pela sua opinião em defesa do sistema heliocêntrico: era a Terra que girava em torno do Sol e não o contrário como era defendido pela Igreja Católica e muitos académicos de então.

O cardeal Roberto Bellarmino (1542-1621), figura então importante da Igreja Católica cujo Papa à época era Paulo V (1552 – 1621), foi incumbido dessa missão. Segundo um muito interessante artigo sobre este assunto escrito pelo físico e astrónomo Guilherme de Almeida, Bellarmino adverte Galileu: que a "afirmação de que o Sol é o centro imóvel do sistema do mundo é temerária, quase herética; que a afirmação de que a Terra se move está teologicamente errada; proíbe-o de falar do heliocentrismo como realidade física, mas autoriza-o a referir-se a este apenas como hipótese matemática".

Ressalta destas acusações que a discordância entre a Igreja Católica de então e Galileu é fundamentalmente de natureza teológica. Não é científica. A Igreja Católica permite que Galileu refira cientificamente o heliocentrismo. Ou seja, não houve propriamente uma confrontação fracturante entre ciência e religião como está generalizado no saber comum.

Esta imagem de Galileu, pai da ciência experimental moderna, como um mártir da ciência aos pés de uma Igreja Católica autoritária e contrária ao saber científico libertário, foi, segundo a historiadora de ciência Patricia Fara, forjada durante o século XIX por propagandistas científicos e é uma história muito mal contada. Diga-se, a propósito, que Patricia Fara é autora, entre outras obras, de um incontornável “Ciência: 4000 de história”, publicado entre nós pela editora Livros Horizonte, em 2012, com prefácio de Carlos Fiolhais.

Uma nova geração de historiadores de ciência, em que Patricia Fara se enquadra, tem tentado nas últimas décadas reconstituir a verdade histórica dos factos e romper com o paradigma dominante na história ocidental de uma ciência triunfante em completo e permanente conflito com a religião, em particular a religião católica. Sabe-se hoje que a ideia reinante, ainda entre nós, de uma Igreja Católica que impediu o desenvolvimento da ciência está longe de corresponder completamente à verdade histórica.

No que diz respeito ao episódio que realmente aconteceu há 400 anos, em vez de um confronto directo entre ciência e religião, ou entre Galileu e o Papa, deve-se considerar que aquele foi um conflito mais complexo e que envolveu facções rivais dentro e fora da Igreja.

É preciso ter em conta que Galileu era um católico devoto e que tinha e continuou a ter apoiantes em todos os degraus da hierarquia clerical. Mas Galileu tinha muitos inimigos, principalmente devido ao seu estatuto social invejável: era primeiro matemático e filósofo na corte de Cósimo II de Médicis, grão-duque da Toscânia e governante de Florença. Acrescente-se a isto o facto de muitos académicos e eruditos não clericais de então serem acérrimos defensores do geocentrismo de Ptolomeu, não considerando os trabalhos de Copérnico, Tycho Brahe, Kepler e os dados observacionais permitidos pelo novo instrumento revolucionário, o telescópio, que Galileu desenvolveu e aplicou na descoberta e interpretação do Universo.

Assim, são hoje melhor conhecidas as ambições e rivalidades pessoais que gravitaram em torno de Galileu e há quem defenda que se este tivesse agido de modo mais diplomático e não tivesse escrito obras científicas em italiano ao alcance de outros que não só os eruditos e eclesiásticos, talvez tivesse conseguido divulgar mais o seu universo heliocêntrico sem ter sido oficialmente condenado por razões teológicas.


António Piedade

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

GALILEU GALILEI FOI REPREENDIDO PELA IGREJA CATÓLICA HÁ PRECISAMENTE 400 ANOS

Com a devida vénia, publicamos aqui este artigo do professor de Físico-Química e astrónomo  Guilherme de Almeida, texto primeiramente publicado na imprensa regional através do programa "Ciência na Imprensa Regional - Ciência Viva".

Imagem: Jorge Miguel 


Em 26 de Fevereiro de 1616 — faz agora 400 anos —, Galileu foi chamado a Roma, por ordem do Papa Paulo V. O propósito era claro: esperava-o uma advertência severa da Igreja Católica. E isso iria ter repercussões na sua vida. É interessante saber como se chegou a este ponto.

Os problemas começaram em 1609. Depois de aperfeiçoar o telescópio, Galileu (1564-1642) começou a utilizá-lo para observar o céu. Fez sucessivas descobertas: as crateras e montanhas da Lua, as quatro maiores luas de Júpiter, muitas estrelas nunca antes observadas e a verdadeira constituição da Via Láctea. Entusiasmado, publicou, em Março de 1610, um livro revelador: Sidereus Nuncius (O Mensageiro Sideral). E continuou, descobrindo as fases de Vénus, as manchas solares e a rotação do Sol. Quase descobriu os anéis do planeta Saturno.

Muitas destas revelações fazem-no crer que a Terra não pode estar imóvel, nem ser o centro de tudo: recusa o geocentrismo. Torna-se adepto do heliocentrismo, de Copérnico, teoria segundo a qual será o Sol, e não a Terra, o centro do “sistema do mundo”.

Galileu gozava então de um estatuto invejável: era Primeiro Matemático e Filósofo na corte de Cósimo II de Médicis, grão-duque da Toscânia e governante de Florença, mas isso não o tornava intocável. A proclamação destas convicções heliocentristas desagradou à Igreja Católica, defensora do geocentrismo, por contrariar as opiniões vigentes baseadas nas aparências imediatas e em antigos textos desligados da observação. Daí resultaram inimizades vindas das facções mais conservadoras do Clero e até de alguns sábios que o contestavam. O Papa Paulo V entendeu que era tempo de lhe dar a famosa advertência.
O cardeal Roberto Bellarmino (1542-1621), figura importante da Igreja Católica, fora incumbido dessa missão impositiva. Galileu é recebido na casa de Bellarmino, que o adverte de várias questões essenciais: 1- diz-lhe que a afirmação de que o Sol é o centro imóvel do sistema do mundo é temerária, quase heresia; 2- aponta-lhe que a afirmação de que a Terra se move está teologicamente errada; 3- proíbe-o de falar do heliocentrismo como realidade física, mas autoriza-o a referir-se a este apenas como hipótese matemática.

Depois da advertência de 1616, Galileu conteve-se por algum tempo e procurou cumprir. Escreveu mais três livros, o segundo dos quais, o Diálogo Sobre os dois Principais Sistemas do Mundo (publicado em 1632), abonava a favor do heliocentrismo, constituindo desobediência. E o novo Papa (Urbano VIII) sentiu-se ridicularizado numa das personagens do livro. Daí resultaria, em 1633, a sua abjuração e condenação a prisão domiciliária para o resto da vida.

Galileu veio a falecer em 1642, dois anos depois da Restauração portuguesa que nos livrou da dinastia filipina. A sua obra marcou o despontar da ciência moderna e uma nova atitude perante o trabalho científico. E a sua vida foi um exemplo de persistência e dedicação. Por outro lado, ironicamente, Bellarmino (Belarmino) foi canonizado e declarado santo em 1930. Todos os anos, 17 de Setembro é o dia de São Roberto Belarmino, dia do seu falecimento.

Para saber mais, a vida de Galileu contada aos jovens encontra-se em: http://www.platanoeditora.pt/?q=C/BOOKSSHOW/2117

Texto de Guilherme de Almeida


Guilherme de Almeida (n. 1950) é licenciado em Física pela Faculdade de Ciências de Lisboa e foi professor desta disciplina, tendo incluído Astronomia na sua formação universitária. Proferiu mais de 90 de palestras sobre Astronomia, observações astronómicas e Física, publicou mais de 100 artigos e é formador certificado nestas matérias. É autor de oito livros sobre Astronomia, observações astronómicas e Física. Algumas das suas obras também estão publicadas em inglês, castelhano e catalão. Mais informação em http://www.wook.pt/authors/detail/id/5235

Howard Nemerov




Howard Nemerov foi galardoado com os principais prémios literários de poesia dos E.U.A.
O historiador de literatura, Marcus Cunliffe, considerou-o, juntamente com Karl Shapiro e Delmore Schwartz, a grande revelação da poesia judaico-americana dos anos 50.


Gyroscope


This admirable gadget, when it is
Wound on a string and spun with steady force,

Maintains its balance on most any smooth

Surface, pleasantly humming as it goes.

It is whirled not on a constant course, but still

Stands in unshivering integrity

For quite some time, meaning nothing perhaps

But being something agreeable to watch,

A silver nearly silence gleaning a still-

ness out of speed, composing unity

From spin, so that its hollow spaces seem

Solids of light, until it wobbles and

Begins to whine, and then with an odd lunge

Eccentric and reckless, it skids away

And drops dead into its own skeleton.

O grau centígrado: um fóssil terminológico

Um artigo meu (entre outros) publicado no Ciberdúvidas da língua portuguesa:



Muito se tem escrito e falado sobre a utilização do grau centígrado como unidade corrente de temperatura. Nos jornais, na rádio e na televisão, uns dizem «grau Celsius», e outros falam no «grau centígrado». Mas subsiste, para algumas pessoas, a dúvida aparentemente eterna: a forma correcta é «grau centígrado», ou «grau Celsius»?

Pois bem, caro leitor, a designação «grau centígrado» foi rejeitada há muito tempo, em 1948, logo na 9.ª Conferência Geral de Pesos e Medidas, ligada ao Bureau International des Poids et Mesures (BIPM), autoridade mundial máxima na definição de unidades. Desde então, a designação correcta passou a ser «grau Celsius», mas os bons hábitos demoram a consolidar-se. Utilizar o obsoleto «grau centígrado» em vez do «grau Celsius» é erro e não é uma simples questão de gosto ou de opção pessoal.
 
O artigo completo pode ser lido em:
https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/rubricas/idioma/o-grau-centigrado-um-fossil-terminologico/3289

Artigos relacionados:
https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/rubricas/idioma/unidades-maltratadas/3259

Guilherme de Almeida
http://www.wook.pt/authors/detail/id/5235
http://www.platanoeditora.pt/?q=N/SEARCHBOOKS/861&sType=AUTHORID&maid=292

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Chamada para os Ludi Conimbrigenses 2016

Informação chegada ao De Rerum Nautura.


O Festea - Tema Clássico e o Grupo Thíasos do Instituto de Estudos Clássicos Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra comunicam que estão abertas, até ao final de Março, as inscrições para a 3.ª edição dos Ludi Conimbrigenses, integrados no XVIII Festival de Teatro de Tema Clássico, nos dias 3 a 5 de Maio de 2016.

Dia 3 - Museu Monográfico de Conimbriga

Dias 4 e 5 - Coimbra: Museu Machado de Castro e Faculdade de Letras da UC.

À semelhança das edições anteriores, o evento incluirá ateliês de cultura clássica pela manhã, destinados a alunos do ensino básico e secundário (9h30), e uma peça de teatro clássico a indicar ao início da tarde (14h30).

De acordo com a capacidade dos espaços, só poderemos aceitar até 100 alunos por dia. Apelamos, por isso, à compreensão na procura de distribuição dos inscritos pelos três dias.

As inscrições serão feitas através do endereço:
festea.classico@gmail.com , ao cuidado de Daniela Pereira. 
Como no ano passado, o preço de inscrição será de 3 euros por aluno.

A BIOGEOGRAFIA DA COR



Na próxima 5ª feira, 25 de Fevereiro de 2016, pelas 18h realiza-se no RÓMULO Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra intitulada "Biogeografia da Cor ". O orador será o Professor Jorge Paiva, Investigador no Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, galardoado com o Grande Prémio Ciência Viva 2014

Esta palestra insere-se no ciclo "Fronteiras da Ciência", coordenado pelo Bioquímico e comunicador de ciência António Piedade, que decorre de Fevereiro a Julho de 2016.
Público alvo: Público em geral
ENTRADA LIVRE

RESUMO DA PALESTRA:

          " Na Natureza nada é aleatório. Tudo o que nela existe resultou de milhões de anos de evolução. Os seres vivos não evoluíram independentemente, mas integrados nos respetivos ecossistemas.
           As plantas, como não se movem, para se “alimentarem” necessitam de luz e pigmentos assimiladores e captadores de energia (clorofilas e carotenoides), cuja concentração depende das coordenadas geográficas onde vegetam. Assim também, para se reproduzirem sexuadamente e para se dispersarem, são dependentes de agentes transportadores (ar, água e animais) dos seus diásporos (esporos, sementes e frutos). Desta maneira, evoluíram adaptando-se não apenas às condições ecológicas dos ecossistemas onde vivem, mas também aos agentes dispersores. Quando os agentes dispersores são animais, ocorreu frequentemente uma evolução adaptativa paralela com esses animais (coevolução).
            Nas Angiospérmicas (plantas vasculares, com flores e frutos), a cor predominante das folhas é o verde, pois a clorofila é o pigmento mais importante para a elaboração dos nutrientes necessários para as funções vitais das plantas. Mas as cores das flores e dos frutos resultaram de uma evolução adaptativa aos agentes polinizadores e dispersores, particularmente animais.
            Os animais não têm todos a mesma visibilidade para as cores. Assim, do espetro solar (arco-íris) os humanos vêm as cores das radiações desde os 380 nanómetros de comprimento de onda (violeta) aos 740 nanómetros (vermelho). Os cães e gatos vêm poucas cores, apenas do azul ao amarelo. Um cão guia sabe que o semáforo está vermelho, pela posição da luz na vertical do semáforo, pois não vê a cor, apenas tem a perceção da luz estar apagada ou acesa. Por isso, as posições das 3 cores dos semáforos são sempre as mesmas em todos os semáforos (a superior é vermelha, a do meio é amarela e a inferior é verde). Nos humanos também há que contar com os daltónicos que não vêm o vermelho. Muitos insetos (abelhas por exemplo) e muitas aves, vêm para além do violeta (ultravioleta), que nós não vemos, mas podemos saber como as abelhas vêm essa cor nas flores, através de fotografias com filmes sensíveis ao ultravioleta. Por outro lado, as abelhas e muitos outros insetos não vêm o vermelho. As cobras, por exemplo, têm uma reduzida amplitude de visão das cores do espetro solar, mas “percebem” para lá do vermelho (infravermelho), o que é muito útil para predadores noturnos de presas de sangue quente.
            Por isso, as cores das flores dependem do espetro visual dos polinizadores e a cor dos frutos da visão dos dispersores. Assim, em Portugal as flores das nossas plantas nativas não são vermelhas, pois os polinizadores no nosso país são maioritariamente insetos. Já temos frutos vermelhos, pois alguns dos dispersores são aves, que vêm o vermelho. As flores que estão adaptadas a polinizadores noturnos, são brancas.
            A cor de muitos animais e plantas depende da altitude, como, por exemplo, algas vermelhas a profundidades maiores que as algas castanhas e as verdes à superfície. O mesmo acontece com alguns peixes, particularmente dos ecossistemas coralígenos, por se manterem em nichos ecológicos horizontais. As cores dos seres vivos também dependem da latitude, como, por exemplo o urso polar é branco e os ursos de latitudes inferiores são castanhos e até pretos.             Com as plantas passa-se o mesmo, pois as das latitudes equatoriais são de folhagem verde-escura e as que se encontram entre os círculos polares e os respetivos trópicos (cancer e capricórnio) são verde-claro. Embora não haja uma dependência tão intensa da cor dos seres vivos com a longitude, existem muitos exemplos, como, por exemplo, os nossos carvalhos e aceres têm folhagem acastanhada no Outono e a dos americanos é avermelhada.
            As cores dos animais também dependem dos hábitos de vida (ex.: os predadores noturnos são sarapintados de branco e escuro) e dos ecossistemas onde vivem (ex.: os cavernícolas são despigmentados pois vivem permanentemente na escuridão, por isso são brancos e cegos)." 

Jorge Paiva

O presente envenenado de Pedro Santos Guerreiro para o jornalismo

Publicação convidada da investigadora Filipa Vala, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa:

Jornalismo não é ciência, mas as duas atividades têm alguma coisa em comum. A ciência parte de observações para construir hipóteses. Quanto melhor forem essas observações, melhor serão as hipóteses. As hipóteses são depois testadas.

O jornalismo relata factos. Nas colunas de opinião, os factos são utilizados para levantar hipóteses. As hipóteses são - com maior ou menor honestidade - contrastadas com mais observações. Tornou-se hábito nos media confundir opinião (levantar e discutir hipóteses) com notícia (relatar factos). Não pretendo discutir isso, mas apenas sublinhar que, tal como em ciência, quanto melhor for a informação de que se dispõe, melhores serão as hipóteses formuladas e a sua avaliação.

O Expresso (“Liberdade para pensar”) tem uma nova secção de vídeos de dois minutos e 59 segundos para “explicar o mundo e o país”. Estes vídeos não são noticiosos, são vídeos de análise, com uma boa dose de opinião mais ou menos explícita.

Pedro Santos Guerreiro, diretor do jornal, apresenta o último vídeo desta série: “O presente envenenado do Orçamento de estado”. No vídeo são relatados factos e, tal como o título sugere, é formulada uma opinião: trata-se de um orçamento envenenado e, se não for cumprido, resultará num novo resgate.

O vídeo foi publicado no dia 18 de fevereiro e voltou a ser referido no Expresso Curto de 22 de Fevereiro, onde é apontado como uma fonte de informação sobre o “quem ganha e quem perde” no OE 2016. No mesmo dia o Expresso publicou uma análise dos vídeos de António Costa sobre o OE (“As meias-verdades do primeiro ministro”). Parece-me então oportuno juntar à lista outra análise: a do vídeo do Expresso. Pouco me importa concluir se o OE2016 é bom ou mau. Importa-me só avaliar a relevância da informação apresentada para a hipótese proposta no final do vídeo.

Para um vídeo que pretende explicar o mundo e o país, há uma notória falta de informação sobre o mundo e a Europa, e até falta informação sobre o país que poderia ser relevante para o objeto de estudo. Um orçamento vem sempre no seguimento de trajetórias políticas e macroeconómicas nacionais que, por sua vez, se inserem em determinados contextos internacionais e europeus. Mas há também informação errada, combinações de informação falaciosas (ou pelo menos mal explicadas) e informação deliberadamente mal apresentada. Em ciência tudo isto combinado daria uma má hipótese – se fosse meu aluno, não passava.

Alguns exemplos:

Aos 32 segundos de vídeo apresentam-se as três rubricas que mais pesam no OE: saúde, educação e juros. Apresentam-se também os valores médios dos salários de um médico e de um professor. O facto de salários médios serem dados como referências que acompanham os dados sobre a despesa total, leva-nos a crer que os salários têm um peso significativo na despesa. Fui saber qual é o peso da despesa com pessoal na Saúde e representa menos de metade da rubrica (39,8% do orçamento).


(clique para aumentar as imagens)

Para além disto, o valor da despesa para a Educação está errado. Apesar do salário médio apresentado ser de um “professor do secundário, básico ou infância”, o volume de despesa é maior do que o orçamentado no OE de 2016 para a Educação (4. 086 milhões). É possível que por “Educação” Pedro Santos Guerreiro entenda Educação e Ciência e Tecnologia mas, dado que isso é uma particularidade de nomenclatura dele, conviria que fosse dito (sendo ainda que, nesse caso, não se percebe então a escolha do salário médio apresentado).

O vídeo avança de rubricas da despesa (saúde, educação, juros) para o défice orçamental - e daí para a dívida pública. Deixo aos economistas a tarefa de explicar a relação entre défice e dívida, e sublinho a seguinte frase: “nos últimos 40 anos, não houve um só ano em que o Estado não gastasse mais dinheiro do que aquele que recebe. E foi por isso que a dívida subiu, e continuou a subir e não parou de subir!”. Esta frase acompanha um gráfico com a trajetória da dívida pública entre 1995 e 2015. A curva sofre uma inflexão acentuada por volta de 2008. Pergunta lógica: o que se passou? Terá sido excesso de despesa em saúde e educação? 


Há fenómenos que são locais (por exemplo, o BPN). Há fenómenos que são internacionais (por exemplo, a crise financeira). Há fenómenos que são europeus (por exemplo, o tratado orçamental) e depois há fenómenos que são o reflexo de vários destes fenómenos (e ainda de outros) combinados. Mas a trajetória da dívida pública portuguesa entre 1995 e 2015 não é peculiar. Olhando para países da zona Euro (e mesmo da UE), a curva da dívida portuguesa faz parte de um padrão muito claro. A crise financeira provoca um ponto de inflexão em todas as trajetórias. Ninguém adivinharia isso pela informação transmitida no vídeo.


Apresentam-se depois várias medidas do OE mas com especial atenção para as novas regras de cálculo para “os filhos” no IRS. Na primeira tabela mostrada neste bloco estão representadas parte das 22,7% das famílias com rendimentos entre os 7 e os 20mil €/ano, e parte das 7,1% famílias com rendimentos entre os 20 e os 40 mil €/ano. São as famílias que mais beneficiam desta medida. Mas 68,4% das famílias portuguesas vivem com rendimentos anuais inferiores a 7mil €/ano e por isso não pagam IRS. Pergunto: não seria útil – justamente na perspetiva do “quem ganha e quem perde” com o OE 2016 – explicar também, com simulações para outras medidas, o que é que o OE 2016 traz a esta categoria de rendimentos? Nada é apresentado em detalhe.


Um aparte: convém avisar as famílias monoparentais com 1007€ mensais e um filho que, ao contrário do que possam pensar olhando para esta tabela, Centeno não lhes vai dar mais rendimento líquido do que bruto.


Ainda “nos filhos” Pedro Santos Guerreiro faz-nos então o enorme favor de parar o vídeo “uns segundos” para vermos melhor uma tabela específica. Essa tabela diz curiosamente respeito às famílias que não beneficiam das novas regras de cálculo para “os filhos” no IRS. São simulações para as famílias de rendimentos mais elevados e que, no total, representam 2% das famílias. Numa perspetiva do “quem ganha e quem perde”, e tendo passado ao lado de medidas que afetam 68,7% das famílias, esta paragem numa fatia de 2% não se percebe.


E dos 2% de famílias que não ganham “nos filhos” no IRS passamos para a receita fiscal: e se o Pedro fosse um aluno meu a apresentar um trabalho era aqui que definitivamente o chumbava. “Os impostos sobem sempre” é uma frase enganosa quando a variável é a receita fiscal. Pedro Santos Guerreiro, jornalista de economia, sabe isto melhor que eu (que sou bióloga): a receita fiscal pode aumentar, sem aumento de impostos, como aconteceu em 2015 – em que os impostos não aumentaram (o IRC até baixou) – mas a carga fiscal (aquilo que os impostos tiraram da economia) cresceu em relação a 2014. Por isso, à falta de espaço para enunciar as medidas de alteração de impostos de cada OE, acrescentei o que aconteceu ao PIB neste período: percebe-se melhor assim não só o que é um valente aumento de impostos, como já agora também a importância de ter uma boa Constituição à qual os orçamentos têm que obedecer. Em 2014, o Tribunal Constitucional chumbou mais de mil milhões de medidas adicionais de austeridade (incluindo cortes de salários da função pública a partir dos 675€ brutos) e o PIB… cresceu. (Já agora o défice desse ano, que parecia ter sido cumprido, afinal não foi por causa da recapitalização do BES / Novo Banco. Não foram despesas na saúde e na educação – e nem sequer nos juros de dívida).

Mas este gráfico tem uma particularidade. As barras não partem do zero. A consequência é que não há semelhança alguma entre o aspeto visual do gráfico e a realidade. É um truque antigo que serve para distorcer diferenças. Mas não é admissível em ciência e duvido que seja num jornal. Principalmente quando o que é dito não contribui um mínimo para contrariar a impressão errada que o gráfico cria: o aumento da receita fiscal entre 2009 e 2016, que parece o dobro (a barra de 2016 tem o dobro do comprimento da de 2009) corresponde na verdade a um acréscimo de € 9.600 milhões.

Neste gráfico passa-se o mesmo. Se cada barra correspondesse em comprimento ao total da despesa que é suposto representar, o comprimento das barras de 2009 e de 2010 seria cerca de ¼ mais longo do que as outras barras todas - mas as barras de 2009 e 2010 têm o dobro do comprimento das outras. Isto não é honesto.
É verdade que as “gorduras do estado” só foram cortadas em dois dos anos de resgate. Também é verdade que esse corte correspondeu a menos de um quarto daquilo que foi cortado em salários da função pública. Se isto fosse dito, ao menos ficaríamos com uma ideia mais precisa de quanta “consolidação orçamental” se fez por via de corte em gordura e quanta por via de cortes temporários. 
Desta consolidação que afinal não existiu, entramos diretamente nos 3 resgates que Portugal já teve e na hipótese apresentada: haverá um quarto resgate se Portugal não cumprir este OE. Ora, foi-nos dito (aos 57’’) que a dívida aumentou sempre, e foi-nos dito (aos 2’09) que os “orçamentos nunca são cumpridos”. Dado que já tivemos 3 resgates, tivemos pelo menos 17 orçamentos (sem contar retificativos) não cumpridos, em que a dívida aumentou (e que portanto tinham “presentes envenenados”) mas que não deram em resgates. Esta constatação devia ser uma alegria para todos nós. Embora seja uma hipótese muito pobre no que diz respeito a prever resgates, vem pelo menos na sequência do raciocínio seguido no vídeo.

Acontece que Pedro Santos Guerreiro não está alegre: a “dívida pública são sempre impostos futuros” e isso não desaparece “nem por artes mágicas”. A negação do pensamento mágico não deixa de ser interessante, principalmente para quem, como nós todos, passou quatro anos à espera que o PIB crescesse à força de austeridade. Pedro estala os dedos e aparece o Schäuble. Hum? Desisto.

Filipa Vala
Investigadora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa