sábado, 28 de fevereiro de 2015

Por que o cientista estuda a Natureza?


"O cientista não estuda a Natureza porque isso é útil, estuda-a porque tem prazer nisso, e tem prazer nisso porque ela é bela. Se a Natureza não fosse bela, não valeria a pena conhecê-la, e se não valesse a pena conhecê-la, não valeria a pena viver. Claro que não estou a falar da beleza que atinge os sentidos, a beleza das qualidades e das aparências, não que subestime tal beleza, longe disso, mas não tem nada a ver com a ciência, estou a referir-me à beleza mais profunda que vem da ordem harmoniosa das partes, e que uma inteligência pura pode compreender.”

Henri Poincaré,  Ciência e Método, 1908;

Na imagem: Henri Poincaré está ao lado de Madame Curie no Congresso Solvay de 1911

A boca

Neste Ano da Luz, mais um poema de Eugénio de Andrade, que refere a luz: 

A boca,
onde o fogo
de um verão
 muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
 espera o ardor do vento
 para ser ave e cantar.

Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
 se a luz é tanta,
 como se pode morrer?

A RELAÇÃO ENTRE AS MÁQUINAS E A CIÊNCIA

“Se admiro as conquistas da indústria, é sobretudo porque, ao livrarem-nos das preocupações materiais, um dia elas darão a todos o lazer de contemplar a Natureza. Não digo que a ciência é útil porque nos ensina a construir máquinas: digo que as máquinas são úteis porque, ao trabalhar para nós, um dia nos deixarão mais tempo livre para fazer ciência.”

 Henri Poincaré, O Valor da Ciência (1905)

MAIS LUZ NA ANTENA 2

Ouvir aqui a minha última intervenção na Antena 2:

http://www.rtp.pt/play/p783/antena2-ciencia

O PROBLEMA DA COR

Meu artigo no último "As Letras entre as Artes":


Ao filósofo Demócrito, dos séculos V e IV antes de Cristo, é atribuída a frase: Por definição há cor, há doce e há amargo, mas na realidade só há átomos e espaço vazio”. Distinguimos as cores, o vermelho do azul por exemplo, mas o que são elas no fundo?  E qual é a sua relação com os átomos?

O grande físico inglês Isaac Newton, em finais do século XVII e inícios do século XVIII,  tentou responder a estas questões a partir das suas investigações experimentais com um prisma de vidro: um feixe de luz branca do Sol, disperso pelo prisma, originava todas as cores do arco-íris (não sete, mas em rigor infinitas), formando o “espectro de luz”. Vale a pena ler o relato da sua experiência nos Philosophical Transactions da Real Sociedade de Londres:

“Para cumprir minha promessa anterior, devo sem mais cerimónias informar que, no começo do ano de 1666 (época que me dedicava a polir vidros óptico de formas diferentes da esférica), obtive um prisma de vidro rectangular para tentar observar com ele o célebre fenómeno das cores. Para este fim, tendo escurecido o meu quarto e feito um pequeno buraco na minha janela para deixar passar uma quantidade conveniente de luz do Sol, coloquei o meu prisma numa entrada para que ela [a luz] pudesse ser  refractada para a parede oposta. Isso foi inicialmente um divertimento muito prazenteiro: ver todas as cores vivas e assim intensamente produzidas, mas, após um tempo dedicando-me a estudá-las mais seriamente, fiquei surpreso por vê-las…”

Newton pensava que a luz era formada por corpúsculos (átomos, num certo sentido) e que a corpúsculos de tamanhos diferentes correspondiam cores diferentes, por atravessarem o prisma de modo diferente. Para ele, a cor era uma propriedade da luz e não dos corpos. Vemos, por exemplo, um corpo vermelho, porque ele reflecte para nós luz com essa cor (para Newton seria feita de corpúsculos ”vermelhos”). Se o branco dá  as cores, as cores também dão o branco: O chamado disco de Newton (um círculo com as cores do arco-íris), quando posto a girar, é visto como branco.

À teoria de Newton reagiu, no início do século XIX, o escritor alemão Wolfgang von Goethe. Para eles as várias cores da luz nunca poderiam dar branco, ao contrário do que pretendia Newton. Goethe observou, tal como Newton, o comportamento espectral da luz, mas discordando dele, tentou formular uma teoria alternativa. O resultado foi o seu livro de 1810, A Doutrina das Cores. Para Goethe, o vermelho era a impressão causada no nosso olho por uma luz branca que tinha atravessado um meio translúcido como o prisma. Para Newton a cor era uma propriedade objectiva da luz, ao passo que para Goethe ela era uma propriedade subjectiva no olho. Na visão de Goethe, dado o imprescindível papel do sujeito, o objectivo e o subjectivo, se quisermos ciência e poesia, não eram facilmente dissociáveis. O homem faz parte da Natureza e, sem o considerar, não se poderia compreender a Natureza.  Como escreveu no poema A Natureza:

“Natureza! Por ela rodeados e a ela ligados, não nos é permitido sair do seu amplexo, nem penetrar nela mais profundamente. Sem lho pedirmos e sem nos avisar, ela acolhe-nos no vórtice da sua dança, e lança-se connosco, até que cansados, caiamos nos seus braços.”

Do ponto de vista científico, Newton estava basicamente certo e Goethe errado. A teoria das cores de Goethe não conseguiu competir com a teoria de Newton. No século XIX, a teoria corpuscular da luz foi, porém, substituída pela teoria ondulatória: a luz não é formada por corpúsculos, mas sim por ondas e as ondas correspondentes, tendo luzes de diferentes cores diferentes comprimentos de onda (o comprimento de onda é a distância entre dois altos sucessivos de uma onda). Mesmo substituindo partículas por ondas, o fundamental da teoria da cor de Newton permaneceu intacto: a cor é uma propriedade da luz e a luz branca resulta da soma de luz de várias cores.

Foi preciso chegar ao século XX para, com a teoria quântica, se perceber a relação profunda entre luz e matéria Hoje é bem conhecido que a matéria é feita de átomos e estes recebem ou enviam luz, embora apenas de certos comprimentos de onda. Menos conhecido é o facto de que alguns dos nomes maiores da teoria quântica, como o alemão Werner Heisenberg, se terem detido na questão de Goethe sobre a origem das cores. Em 1941, Heisenberg proferiu uma palestra na Hungria em que abordou em pormenor a querela entre Goethe e Newton. Na versão húngara da palestra, há uma nota em apêndice  que diz o seguinte:

“Deste estado de coisas [a física quântica] pode extrair-se a esperança de que, num tempo não muito distante, será possível abrir uma vereda para o entendimento da vinculação entre os domínios das ciências naturais e do espírito.”

Não há a certeza que a nota seja da autoria de Heisenberg. Mas o seu espírito é. A física quântica voltava a dar um lugar ao observador, um lugar que tinha sido tirado pela física clássica.

NOVAS CONFERÊNCIAS DO CASINO - HOJE VALORES E PÓS-IDENTIDADES

Hoje, pelas 16 h, vou falar no Casino Estoril sobre "O Valor da Ciência": 


 O Casino Estoril acolhe, no dia 28 de Fevereiro, às 16 horas, a 4ª sessão do ciclo “Novas Conferências do Casino” que será subordinada ao tema “Valores e Pós-Identidades”. Com coordenação de João Relvão Caetano, os oradores serão Carlos Fiolhais e Moisés de Lemos Martins.

 Recorde-se que, as “Novas Conferências do Casino” são uma iniciativa promovida na sequência da apresentação pública do Manifesto Contra a Crise: Compromisso com a Ciência, a Cultura e as Artes em Portugal, que foi subscrito por numerosas personalidades, entre as quais os escritores Lídia Jorge, Miguel Real e Teolinda Gersão e o músico Pedro Abrunhosa. O Manifesto foi promovido pelo Movimento Letras Com Vida (CLEPUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa).

 O ciclo “Novas Conferências do Casino” pretende contribuir para a criação de um espaço de debate cívico à volta de algumas das questões mais prementes da atualidade no que respeita à cultura, ciência e inovação em Portugal, acreditando que só o investimento continuado na qualificação das pessoas e a mobilização urgente de pessoas qualificadas poderão garantir o futuro desenvolvimento do país. Nesse sentido, as sessões do ciclo “Novas Conferências do Casino” distinguem-se por reunir algumas vozes representativas das mais diversas áreas da ciência e cultura portuguesas.

Do debate de cada sessão ficará o registo de sugestões e propostas de ideias suscetíveis de serem concretizadas institucionalmente nas diferentes áreas da vida nacional, que serão transmitidas às instâncias competentes.

Estão programadas mais quatro sessões, sempre no último sábado de cada mês, às 16h00, estando a última agendada para 27 de junho de 2015. O Casino Estoril acolhe, no dia 28 de Fevereiro, às 16 horas, a 4ª sessão do ciclo “Novas Conferências do Casino” que será subordinada ao tema “Valores e Pós-Identidades”. Com coordenação de João Relvão Caetano, os oradores serão Carlos Fiolhais e Moisés de Lemos Martins.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A LUZ NA ÓPERA YOLANTA DE TCHAIKOWSKI, EM EXIBIÇÃO NO METROPOLITAN E VISTA EM LISBOA

 Excerto do libreto, com os agradecimentos a José Moura:

Vaudemont

So deep in your heart there is no desire 
To see Light the glory of the Universe?

Iolanta

What does mean “to see”?

Vaudemont

To embrace God’s Light
To embrace shining light

Iolanta

Knight, what is Light?

Vaudemont

The splendid prime of creation, 
The first gift by the Creator to the world, 
A manifestation of God’s glory 
The best jewel in His crown. 
The shine of the sun, sky, stars 
Imbues the world on the Earth, 
The whole nature and creatures 
With awesome beauty. 
Those who do not know a blessing of Light 
Can not love so much. 
The God’s world shrouded in darkness 
Revere God in darkness as in light. 
I unworthy have come to know 
You oh maiden of beauty 
Your girlish slender figure, 
Your lovely image and features 
Yes it was the prime of the creation, 
The best gift given by the Creator to the World.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

"Peço uma comissão de inquérito sobre o estado dos estudos clássicos no Reino Unido"

Tomo a liberdade de destacar a história que o nosso leitor João Viegas retoma a propósito deste texto.

"Um pequena anedota que fui buscar a um (admirável) texto do advogado J.-M. Varaut, que ilustrava assim a ideia de que é possível "responder à alegoria com outra alegoria". 
«Em 1982, na Câmara dos comuns, M. Thatcher declarou :
- Se Ulisses tivesse ouvido o canto das sereias, o navio dele ter-se-ia afundado e ele nunca teria podido chegar a bom porto".
Ao que um deputado trabalhista contrapôs de imediato;
1) Ulisses ouviu o canto das sereias;2) O navio dele encalhou;3) Apesar de tudo, ele chegou a bom porto.4) Peço uma comissão de inquérito sobre o estado dos estudos clássicos no Reino Unido".
João Viegas

Natália Correia – Acender Chamas Digo Fazer Poemas.


Romântica, noturna, antifascista e anticomunista, lasciva, comunicadora ímpar, mordaz e verrinosa, Natália Correia destacou-se na poesia com os livros: Dimensão Encontrada, Mátria e Sonetos Românticos.
No livro com a sua poesia completa (O Sol Nas Noites E O Luar Nos Dias), encontrei dois poemas, até então inéditos, inspirados na ciência. O primeiro vai desde a grandeza e a doçura da ciência até à pequenez e ao amargor da mesma. Enquanto o segundo transmite-nos, através do movimento relativo, a imagem que a poetisa teve do país antes da revolução dos cravos.

1-Da Claridade À Negra Ciência

Uma laranja cai
E o chão impede
Que ela infinitamente caia.
Impedimento
Ou o vento
De uma ciência
Que já foi gaya
E agora é triste-
Mente astronómica.
Raios partam
A bomba atómica!


2-Comboio

Aqui (movente ou parada?)
Vou contra a vida que foge
Nos campos que à desfilada
Vão ao invés do que corre.

Que deus me ilude ou me mente?
Porquê na hora fugaz
Eu julgo que vou para a frente
Se tudo avança para trás?

Acaso regressa o tempo
Ao que era antes do mal
Nas árvores que recuam
À floresta inicial?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Moradas Celestes: o imaginário extraterrestre na cultura portuguesa

 






 
Vai decorrer amanhã, 5ª feira, dia 26 de Fevereiro, no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, pelas 18:00 horas, a apresentação do livro de Joaquim Fernandes intitulado: Moradas Celestes: o imaginário extraterrestre na cultura portuguesa.



 Com a presença do autor, Carlos Fiolhais, Director do Centro, fará a apresentação do livro.

Com entrada livre, esta sessão destina-se sobretudo a todos quantos se interessam por temas relacionados com o Cosmo.
 
Sinopse: Nesta vasta amostra de narrativas de autores portugueses, inspiradas pelas imagens e leituras do cosmos, podem identificar-se alguns dos principais tópicos universais que traduzem a experiência humana face ao universo infinito, na confluência da ciência e da religião, apreendida e interiorizada pelas modalidades específicas da cultura portuguesa entre os séculos XVII e XIX:– As origens do universo (“mundo”) e da vida;– A cronologia da Criação bíblica e a idade do mundo;– O lugar da Terra e da Humanidade no cosmos;– A possibilidade de existência do “Outro”, similiar ao humano ou não. Em "Moradas Celestes" desfilam todos estes motivos, nas diferentes abordagens dos nossos criadores e mentores culturais, através dos principais géneros literários que foram veiculando a mitologia extraterrestre e a tradição das “humanidades” plurais na cultura ocidental: o compêndio astronómico e geográfico, o tratado de filosofia natural e os textos apologéticos e catequéticos; a poesia didáctico-naturalista, a narrativa utópica e onírica, isolada ou servida pela imprensa periódica de instrução geral (viagens à Lua, viagens cósmicas imaginárias).

Três novas publicações da Classica Digitalia

Informação recebida no De Rerum Natura.

Os Classica Digitalia têm 3 novas publicações, com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra, da UA Editora - Universidade de Aveiro - e da Annablume (São Paulo).

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. O eBook correspondente encontra-se disponível em acesso livre.

Série “Humanitas Supplementum” [Estudos]

- André Carneiro, Lugares, tempos e pessoas. Povoamento rural romano no Alto Alentejo. Vol. I (Coimbra, Imprensa da Universidade, 2014). 424 p.
URL: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/179
DOI: http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0832-7

- André Carneiro, Lugares, tempos e pessoas. Povoamento rural romano no Alto Alentejo. Vol. II (Coimbra, Imprensa da Universidade, 2014). 456 p.
URL: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/180
DOI: http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0833-4 PVP: 15 € [vol. I-II: volume impresso + CD] 

Série “Varia” [Estudos]
- António M. L. Andrade, Carlos de Miguel Mora &; João M. N. Torrão (coords.), Humanismo e ciência. Antiguidade e Renascimento (Aveiro, Coimbra e São Paulo, UA Editora, Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume, 2015) 546 p.
URL: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/181
DOI: http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0941-6 PVP: 20 €

Dois grandes obstáculos para se entrar nas engenharias

Terei lido bem? Samuel Silva, jornalista do Público, enganou-se?
"No Verão passado, quando foram divulgados os resultados dos alunos do 12.º ano nos exames nacionais, o CCISP tinha alertado que as más notas dos estudantes a disciplinas como Física e Matemática eram um obstáculo para o acesso a alguns cursos, nomeadamente de engenharias que exigem estas duas disciplinas como específicas. A proposta agora feita visa, por isso, facilitar o acesso destes estudantes ao ensino superior".
Tire o leitor as suas próprias conclusões aqui.

A fraude da água em que a homeopatia se afoga

Artigo de opinião de Carlos Fiolhais e meu, publicado no PÚBLICO de hoje.

Fernando Belo assinou no PÚBLICO em 18 de Fevereiro um artigo de opinião, no qual insiste na apologia da homeopatia com base numa fraude científica. 

Belo cita um texto do autor principal da fraude, o francês Jacques Benveniste, que curiosamente se intitula “A minha verdade sobre a 'memória da água'”. Nisso concordamos: é a “verdade” dele, que nada tem a ver com o conhecimento científico. Belo evoca ainda declarações de Luc Montagnier e de Brian Josephon, em apoio à causa homeopática da memória da água. Montagnier ganhou em 2008 o Nobel pela descoberta do vírus HIV nos anos 80 e não por divagações sobre a “memória” da água quando tinha quase 80 anos. Josephson ganhou o Nobel da Física em 1973 por um trabalho sobre condutividade nos anos 60 e não por todo um conjunto de ideias delirantes que tem vindo a apresentar após o Prémio. Não é a autoridade de Benveniste, Montagnier, Josephson ou de quem quer que seja que prova a existência de algo que não existe. Os cientistas podem ter opiniões, mas a ciência não são opiniões de cientistas. Para passarem a ser conhecimento científico, essas opiniões têm que ser fundamentadas com provas experimentais e estas têm de ser confirmadas por outros grupos de investigação. Não é seguramente o caso das experiências da memória da água de Benveniste.

A fraude da memória da água está descrita no nosso livro “Pipocas com Telemóvel e Outras Histórias de Falsa Ciência” (Gradiva, 2012). O trabalho, que analisava uma reacção alérgica designada por desgranulação dos basófilos, foi publicado na Nature a 30 de Junho de 1988. O  extraordinário no artigo de Beneviste et al. é a afirmação de que essa reacção era desencadeada em basófilos (células de sangue) por um alérgeno, quando este se encontrava numa diluição tão grande como as usadas em remédios homeopáticos. Ou seja: os autores alegavam que uma solução do alergéno em que já não há nenhuma molécula deste é capaz de originar uma reacção alérgica. Imagine-se que uma pessoa apanha uma bebedeira com uma garrafa de vinho, em que o vinho foi diluído a ponto de não haver qualquer vinho na garrafa, mas apenas água… que se lembra do vinho. Do ponto de vista da segurança rodoviária, esta substituição do vinho tem todo o nosso apoio. Mas, como toda a gente sabe, água não é vinho.

As experiências tiveram de ser repetidas na presença de uma comissão de peritos, que incluía o editor da Nature, John Maddox, o investigador de fraudes científicas Walter Stewart e o ilusionista James Randi. Maddox suspeitava que a explicação dos resultados extraordinários poderia residir num truque de prestidigitação, ou seja, alguém adicionava de um modo imperceptível uma quantidade apreciável de alérgeno às amostras (enquanto distraía a comissão de peritos com um tubo de ensaio, por exemplo). Numa primeira fase, a equipa de Benveniste reclamou ter replicado os resultados. Foi então que a comissão pediu aos investigadores que realizassem um ensaio às cegas. Os tubos contendo as várias diluições foram levados para uma sala à parte onde apenas estava a comissão de peritos. Estes removeram a identificação de cada tubo e substituíram-na por um código. A correspondência entre cada amostra e o código foi colocada num envelope fechado, colado no tecto do laboratório. Foi então feita uma experiência em que os operadores não sabiam que amostras correspondiam a que diluições. Os resultados extraordinários não se confirmaram. De algum modo, conscientemente ou não, a equipa de Benveniste tinha viciado a experiência, de modo a obter os resultados que lhes interessavam. Um mês depois, foi publicado na Nature um artigo sobre o assunto com um título elucidativo: “As experiências com diluições elevadas são um equívoco”.

Apesar de desacreditado pela comunidade científica, como é aliás habitual nestes casos, Benveniste não se ficou. Criou uma área a que chamou biologia digital, segundo a qual as moléculas comunicam entre si através de sinais electromagnéticos de baixa frequência, passíveis de serem gravados. Segundo ele, essas gravações seriam capazes de provocar reacções biológicas. Benveniste chegou a alegar que conseguia enviar essas “assinaturas electromagnéticas” das moléculas através da Internet. Em 1999 a Fundação Randi ofereceu um milhão de dólares a quem conseguisse demonstrar, em condições experimentais controladas, a transferência da “assinatura electromagnética de uma molécula” através da Internet. O prémio continua por reclamar. Não sabemos se um milhão de dólares é coisa que interesse a Fernando Belo. Nós, se houvesse maneira de demonstrar essa assinatura de uma forma honesta, não hesitaríamos.

Uma palavra sobre a “unificação dos saberes”, ponto de partida do artigo de Belo: Concordamos que tal unidade deve ser procurada, mas não à custa da admissão de erros grosseiros. Unificar saberes é louvável. Unificar saberes e pseudo-saberes é um disparate.  

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Minha entrevista a Carlos Vaz Marques na TSF

A propósito de ciência, pseudociência e comunicação de ciência. Para ouvir aqui:

http://www.tsf.pt/paginainicial/AudioeVideo.aspx?content_id=4418942

A Cultura Clássica e a actualidade

Afinal a cultura clássica, e a mitologia grega em particular, não estão assim tão esquecidas ...
Transcrevo este texto delicioso: 

Pedantismo à volta da Grécia
José Diogo Quintela
PUBLICO, 22.02.2015

Desde a eleição de Tsipras tenho contabilizado a quantidade de referências à Grécia Antiga que os comentadores usam nas suas análises. Quanto maior o número de alusões eruditas, menos original a análise.

Como não tenho opinião sobre o tema e sou muito competitivo, proponho-me a bater o recorde mundial de referências pretensiosas sobre a Grécia Antiga num texto dedicado à situação actual.
Cada afirmação banal será complementada com exibição pedante e inútil de cultura clássica. Vou então principiar.

Os gregos votaram em Tsipras porque estão fartos de ser PIGS. Como os companheiros de Ulisses, transformados por Circe. Tsipras está confiante. Também Creso estava. Antes de declarar guerra à Pérsia, o rei da Lídia consultou o Oráculo de Delfos que lhe garantiu que, se atacasse, destruiria um grande império. Confiante na vitória, avançou. Sucede que o império aludido era o seu próprio.

Apesar disso, Tsipras parece optimista. Mas pode estar a voar muito perto do Sol. A Grécia pode acabar ostracizada pela União Europeia. O primeiro-ministro grego abriu a caixa de Pandora e, com as suas exigências, tenta manter a Europa refém. Como Zeus disfarçado de touro branco. Guiado por um fio de Ariadne financeiro, Tsipras começou um périplo pelo continente.

Faz lembrar Fidípides na véspera da batalha de Maratona, a tentar convencer os espartanos a ajudarem Atenas. Persuadir os líderes europeus poderá revelar-se tão difícil como os 12 trabalhos de Hércules e tão inglório como a tarefa de Sísifo. A dívida grega é substancial. A lista de credores é mais extensa que o catálogo das naus da Ilíada.

Até agora, Tsipras está como Penélope, a ganhar tempo. E já demostrou ter olho para a negociação. Que não lhe aconteça como a Polifemo. A troika é implacável. Lagarde disse que só dava o dinheiro se Tsipras respondesse a esta questão: “Qual é o animal que tem quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite?”

Para não ser pendurado num penhasco e ter o fígado comido diariamente por uma águia, Tsipras fugiu agarrado à barriga de uma ovelha. Para já, teve de recuar em algumas promessas eleitorais. Descobriu, como Dâmocles, que governar não é tão fácil como julgava.

Entretanto, aliou-se aos inimigos da extrema-direita. Um sacrifício para garantir bons ventos, como Agamémnon ao imolar Ifigénia. Cautela com Clitemnestra! Mas Clitemnestra que se ponha a pau com Orestes! E Orestes com as Fúrias! Apesar de tudo, não se pode reduzir uma discussão sobre a Grécia ao preço do cachecol de Varoufakis, como se fosse feito com lã do tosão de ouro. Nem culpar as cabeleireiras que se reformam aos 50 anos.

Se bem que não há grande justificação para ser uma profissão de desgaste rápido. A não ser que implique fazer madeixas à Medusa. Reparem como, através de um exercício estilístico meramente estético, introduzi subtilmente uma série de questões relevantes, surpreendendo o leitor. Como o cavalo de Tróia. Só que o leitor está-se borrifando. É um cavalo de Tróia com calcanhar de Aquiles.

Se isto não é o recorde mundial de referências clássicas em textos sobre a situação grega, vou ali a Termópilas e já venho.

JOSÉ VEIGA SIMÃO: Uma Vida Vivida

Adicionar legenda

 A obra será apresentada por Manuel Antunes, Professor Catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, e contará com a presença e intervenção de Guilherme Valente e Carlos Fiolhais e com o testemunho de Ana Margarida Veiga Simão, sua filha.

Sinopse
Se o 1.º cabo Aníbal Simão tivesse sido enviado para Manteigas em 1945, José Veiga Simão poderia não ter sido mais do que um funcionário administrativo. Era esse, pelo menos, o magnânimo prognóstico do comandante do batalhão da GNR.

No entanto, Maria Joaquina Veiga, que só sabia escrever o nome, não se conformou com tal perspectiva e empenhou-se de alma e coração para que o filho concluísse o Liceu D. João III em Coimbra e entrasse na universidade.

Deste modo, a história foi outra, bem diferente. Sempre com o surpreendente envolvimento de Salazar, o então já doutor em Física Nuclear por Cambridge e catedrático da Faculdade de Ciências de Coimbra funda a Universidade de Lourenço Marques, da qual será reitor ao longo de sete anos. «Esta é a obra da minha vida», diz José Veiga Simão, que teve a grande alegria de a ver repetidas vezes enaltecida pelas mais altas entidades de Moçambique.

O primeiro volume da presente biografia, que fica em 1970, quando José Veiga Simão deixa Lourenço Marques para ser ministro da Educação Nacional do governo de Marcelo Caetano, conduz-nos através do percurso menos conhecido do protagonista de um dos maiores reformadores da história do ensino em Portugal.

«A família Veiga Simão foi viver para Coimbra em Setembro de 1939. O pai, Aníbal Simão, que estava colocado na companhia da GNR na Guarda, solicitara a transferência para a cidade do Mondego de modo a acompanhar Júlio, o filho mais velho, que (…) se matriculara na Universidade de Coimbra, em preparatórios militares (…). José seria transferido para o Liceu D. João III, em Coimbra. (…) 

A viagem da Guarda para Coimbra, acompanhando o pai numa camioneta com a mobília da casa (…), ficou associada a uma das datas decisivas da história do século xx. Era o dia 3 de Setembro de 1939 e, ao atravessarem os Arcos do Jardim, ouviram pela rádio a notícia de que a Inglaterra e a França haviam declarado guerra à Alemanha, na sequência da invasão da Polónia pelas tropas de Hitler.»

A entrada é livre.
 

Do mal, o menos!?

A ciência como actividade livre e independente, sem constrangimentos de qualquer ordem, foi sempre mais ou menos uma miragem. Tal como todo o conhecimento, artístico, filosófico ou outro, ela não pode deixar de acontecer - estudar-se, ampliar-se, rever-se... - em circunstâncias concretas. Essas circunstâncias podem, naturalmente, potenciá-la ou condicioná-la.

Cientes disto, os cientistas foram procurando emancipar-se dos poderes que a constrangem, religiosos, por vezes; políticos, por vezes; económicos, por vezes. As sociedades terão percebido isso e dispuserem-se a contribuir, com parte dos seus impostos, para a construção da ciência. Em finais do século XX encontramo-la substancialmente dependente do Estado. E ainda bem, apesar de as questões relacionadas com a sua orientação neste ou naquele sentido, a sua (des)focagem neste ou naquele aspecto por parte do poder político continuarem a colocar-se, como talvez não pudesse deixar de ser.

Mas neste século as coisas mudaram, o Estado, representante de todos nós, diz que tem pouco ou nada a ver com a saúde, a educação, a ciência, as artes, o património, a justiça... tudo isso deve ser entregue a quem saiba e possa. Continuamos a pagar importos mas eles não servem para o que é fundamental: a saúde, a educação, a ciência, a ciência, as artes, o património, a  justiça...

Indo directa ao assunto: a ciência (que só o é se for livre e independente face a qualquer poder) será agora (também) subsidiada por quem tenha muito dinheiro e queira obter autorização de residência em Portugal através dos espectaculares e muito neoliberais vistos gold. Trezentos e cinquenta mil euros é a base do que tem de dar para investigação em instituições públicas ou privadas integradas no sistema científico e tecnológico nacional (aqui).

Bem sabemos que o primeiro ensaio destes vistos, "voltado para o betão", fez correr muita tinta e mais do que isso. Diz-se no Público: "temeu-se que os vistos gold abrissem portas a pessoas indesejáveis, o que veio a revelar-se uma preocupação legítima". Ainda não assente o pó desse ensaio, eis que o nosso vice-primeiro ministro anuncia o segundo, este, "voltado para a produção artística, investigação científica e recuperação do património". E remate o jornal "do mal, o menos".

Do mal o menos!?

A ciência guia-se pela constante e desesperante procura da verdade. Nada mais almeja a não ser a verdade. Guiada por padrões éticos, a sua motivação é essa, só essa, nada mais do que essa.

Alguém acredita que tal missão é compreendida e respeitada por quem investe uma data de milhões!?
E ainda que seja compreendida e respeitada, sobre a ciência, qual mulher de César, cairá sempre a suspeita de falta de seriedade. A ciência não pode viver com tal sombra a pairar sobre si.

Janelas para a Filosofia na Antena 2

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A Química das coisas triviais


 


Inserida no novo ciclo "À Luz da Ciência", dinamizado pelo Bioquímico António Piedade, realiza-se no RÓMULO -  Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, na próxima 3ª feira, 24 de Fevereiro de 2015, pelas 18h  a palestra intitulada "A química das coisas triviais" com Sérgio Rodrigues, Professor no Departamento de Química da Universidade de Coimbra. 

Sinopse: 

Não temos fome e matamos a sede sem receio em grande parte devido à química. Paremos por um momento de respirar para não inalarmos e expiramos produtos químicos - nitrogénio em grande parte, oxigénio o suficiente, água e dióxido de carbono, os necessários, mas nenhum deles bom ou mau em si mesmo - e a química do nosso corpo irá continuar a construir e destruir moléculas em quantidades astronómicas a uma velocidade alucinante. Olhemos à nossa volta. É difícil não vermos materiais, produtos, e processos que têm a ver com química, alguns ignorados, outros ainda misteriosos. Olhemos para os objectos que temos nos bolsos. Olhemos para os próprios bolsos, as roupas, os móveis, os edifícios, a rua. O próprio olhar tem química, assim como a mente que o interpreta. Tudo tem química. Tem o mundo, tem a mão que o modifica, têm os braços que o sustentam.

Este é o Ano Internacional da Luz

Bom artigo de ANTÓNIO LÚCIO BAPTISTA no Público de hoje chamando a atenção para as tecnologia do laser no Ano Internacional sda Luz e das tecnologias baseadas na Luz:

 Entre as diversas formas de luz há uma que tem caraterísticas especiais. Foi modificada com recurso a engenharia e tem propriedades e aplicações distintas. Trata-se da luz laser.

Laser quer dizer, traduzido do inglês, amplificação da luz por emissão estimulada de radiação. Os fundamentos desta tecnologia devem-se a Einstein, que a estudou em 1916. Só em 1955, C. H. Townes desenvolveu o primeiro laser (emitia micro-ondas). O prémio Nobel foi atribuído a Schawlow e Townes. Em 1960, Theodore Maiman conseguiu emitir, de forma controlada, raios laser utilizando cristal de rubi. A primeira cirurgia a laser realizou-se em Nova Iorque, em 1961.

 Esta luz tem propriedades que lhe conferem algo de especial e desempenha um papel importante na medicina e na cirurgia. Até agora tem sido utilizado o seu efeito coerente para produzir feixes com alta energia que atuam sobre tecidos humanos e animais.

 Os efeitos térmicos, fotomecânicos e fotoquímicos têm sido os mais usados, mas há grandes desenvolvimentos, nomeadamente na imagem de alta resolução e nos implantes fotónicos. Os desafios futuros para a medicina e cirurgia caminham, por um lado, no sentido da miniaturização dos equipamentos, e, por outro, no seu efeito diagnóstico e terapêutico (PDT), e cada vez se avança mais na imagem de alta resolução.

 Há muitos portugueses célebres que investigam e trabalham nesta tecnologia, como, por exemplo, José António Salcedo, atualmente na Noruega, e António Lobo, com várias patentes registadas. Há ainda alunos de doutoramento que vêm de outros países para Portugal completar a sua investigação. Um exemplo desses alunos é Irina Trifanov, aluna de doutoramento da Universidade de Kent, no Reino Unido, distinguida com o prémio Laser ALTEC (Associação de Laserterapia e Tecnologias Afins) em 2009, pelo seu importante trabalho com fontes de luz branca de banda larga utilizando tecnologia laser e fibra ótica, para um novo processo de obtenção de imagens biomédicas designadas OCT — Optical Coherence Tomography.

A ALTEC foi fundada em 2008 e tem por objetivo promover a boa prática no uso da tecnologia laser, proporcionando cursos de formação, apoiando a investigação científica, bem como estar atento à legislação, nomeadamente às diretivas europeias. A ALTEC é a representante portuguesa na European Laser Association, que por sua vez tem representantes no CEN — Comité Europeu de Normalização. Enquanto membro da European Laser Association, a ALTEC estará presente na organização e será palestrante convidada no programa científico no congresso Laser and Aesthetics Europe 2015, que se realiza em Atenas, na Grécia, entre os dias 25 e 27 de junho. Em 2017, a ALTEC será a anfitriã do congresso internacional Laser Europe, que se realizará no Porto.

Para este Ano Internacional da Luz, a ALTEC vai participar, a convite das escolas secundárias, em atividades junto dos jovens para dar a conhecer e demonstrar a tecnologia laser. Pretende-se, por um lado, explicar como funciona esta tecnologia, e, por outro lado, alertar para os riscos, nomeadamente no uso indiscriminado de ponteiros laser. O exemplo mais claro do mau uso destes lasers é o que se tem passado com o jogador Cristiano Ronaldo, que é com frequência vítima deste abuso durante os jogos. Também têm sido reportados acidentes com lasers nos festivais de verão.

 O contributo das associações cívicas e de jovens, técnicos e cientistas, pode ser importante para levar à consciencialização das vantagens e dos riscos desta tecnologia.

ANTÓNIO LÚCIO BAPTISTA

Presidente da ALTEC (Associação de Laserterapia e Tecnologias Afins)

sábado, 21 de fevereiro de 2015

NOVO MAPA DO EPIGENOMA HUMANO E O EPIGENOMA DA DOENÇA DE ALZHEIMER

Artigo primeiramente publicado na imprensa regional portuguesa.




Foi agora publicado o novo mapa das alterações que ocorrem no genoma humano ao longo da vida em células diferentes, permitindo uma nova compreensão do mecanismo molecular subjacente a várias doenças como a de Alzheimer.

Em 2003, foi anunciado ao mundo a sequenciação do genoma humano. Apesar da grande importância desse feito científico, ficou desde logo evidente para muitos que era o início de uma nova era nas ciências da vida, com muitas e novas perguntas. Por exemplo, conhecer toda a sequência de “letras” do “livro da vida” não explicava por si só porquê e como é que há células diferentes num dado organismo apesar de todas conterem os mesmos genes. O que é que faz com que alguns genes estejam activos em algumas células e silenciados noutras? O que é que comanda a velocidade com que os genes são transcritos para proteínas em diferentes alturas da vida?

Há três anos, o projecto designado por ENCODE, uma enciclopédia dos elementos constituintes do ADN do nosso genoma, deitou por terra algumas ideias feitas e deixou claro que centenas de milhares de fragmentos do genoma, antes considerados sequências repetitivas de ADN “lixo”, são determinantes na gestão do genoma: regulam como e quando os genes devem levar a cabo a sua função.

De facto, descobriu-se que há uma outra informação celular que se adiciona à do genoma e que modela a expressão deste. Uma informação que não herdamos dos nossos pais, mas que adquirimos ao longo da nossa vida. O seu conjunto constitui o epigenoma. Este muda ao longo da vida e é diferente entre células de tecidos diferentes. Assim, o epigenoma engloba o conjunto das modificações bioquímicas que ocorrem no ADN genómico ao longo da vida. Uma dessas alterações é a que se verifica num processo que é designado por metilação do ADN.

Assim, depois de sequenciar o genoma, era necessário mapear o epigenoma das células dos diferentes tecidos que compõem o corpo humano. Esta tarefa tem mobilizado muitas equipas internacionais de cientistas. Um dos projectos foi financiado com 190 milhões de dólares nos últimos 5 anos pelo Instituto Nacional de Saúde (NIH, na sigla inglesa) dos Estados Unidos: o projecto “NIH Roadmap Epigenomics Consortium. A Europa também tem investido nesta aventura do conhecimento com o projecto “Blueprint Epigenome”.

Os resultados conseguidos pelo projecto norte-americano foram publicados esta semana em várias revistas do grupo editorial científico Nature (ver por exemplo aqui). No geral, resumem o que foi sendo descoberto durante os últimos cinco anos, os epigenomas de 111 amostras de tecidos e células diferentes: um novo mapa epigenético humano que indica como é que os genes se activam ou não no nosso organismo, em diferentes células, em organismos saudáveis e doentes.

Este aspecto de o epigenoma ser diferente entre células de tecidos sãos e células de tecidos doentes, representa um enorme potencial para o estudo e compreensão de diversas doenças, assim como abre novos horizontes para o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas.

Entre as aplicações terapêuticas, um dos trabalhos agora publicados descreve perfis epigenómicos associados com células cancerígenas, na sequência do trabalho efectuado anteriormente pelo projecto europeu sobre leucemias infantis. Há também trabalhos sobre o epigenoma de desordens autoimunes.

Mas talvez um dos trabalhos mais interessante e surpreendente seja o da determinação do perfil epigenético da doença de alzheimer. Segundo o coordenador deste trabalho, Manolis kellis, do Instituto de Tecnologia de Massachussets, a investigação agora publicada na revista Nature demonstra que “a predisposição genética para desenvolver esta patologia neurodegenerativa está associada ao sistema imunitário, enquanto que os sintomas como a perda de memória e dificuldades com a aprendizagem, associados a alterações na actividade neuronal, terão a sua origem não em factores genéticos mas sim epigenéticos ”, lê-se num comunicado daquela instituição. Esta é uma descoberta que poderá dar azo a novas estratégias terapêuticas eventualmente mais eficazes do que as actualmente existentes.

Este novo mapa epigenómico aumenta o nosso conhecimento sobre as bases moleculares de diversas doenças e permite compreender melhor o desenvolvimento do organismo desde as primeiras células embrionárias.

António Piedade

Ouvir as conversas de toda a gente

"Era possível aos espiões pôr uma antena em cima da embaixada de Berlim e ouvir as conversas de toda a gente."
Imagem retirada daqui.
Li esta frase no Expresso on line de hoje (aqui). O seu autor é um especialista em assuntos de segurança nacional que se pronunciou sobre a recente divulgação de dados que demonstram a piratagem do sistema informático da maior empresa de cartões de telemóvel levada a cabo por agências de segurança dos Estados Unidos e de Inglaterra.

Para ouvir uma conversa ou ler uma mensagem (que ficam algures registadas), essas agências não precisam de qualquer autorização, nem de empresas de telecomunicações, nem de tribunais, nem de governos. São, desde 2010, soberanas na invasão que fazem da vida privada de milhões e milhões de pessoas. Note-se que se, em vez de milhões, fosse apenas uma pessoa, o problema era precisamente o mesmo.

A defesa ocasional da liberdade de expressão

Imagem retirada daqui.
Como Humanidade temos ainda uma longa caminhada à nossa frente para fazer valer os direitos humanos universais além do papel, de discursos circunstanciais e de casos pontuais que nos convocam e empurram.

Ainda há pouco tempo, aquando do ataque ao jornal "Charlie Hebdo", a Europa mobilizou-se, parecendo unida, para afirmar o direito à liberdade de expressão. Pareceria que estávamos todos de acordo: políticos e pessoas comuns.

Passadas poucas semanas, em pleno Carnaval, políticos avisavam organizadores de desfiles que tomariam as devidas medidas judiciais caso a sua caricatura, a aparecer, fosse desfavorável. Em democracia estavam, de facto, no seu direito, mas não me consta que isso tivesse detido os "brincalhões". Poucos dias depois, um dos países que encabeçou a manifestação em Paris a favor dessa liberdade condenava formalmente uma caricatura de um dos seus políticos mais poderosos. A caricatura foi publicada mas o assunto passou mais ou menos despercebido.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Comunicação da Ciência - Conferência internacional na UBI

Informação chegada ao De Rerum Natura. Para saber mais clique aqui.



UMA VOZ LÚCIDA

Jorge Sampaio sobre Portugal e a Grécia:

“Portugal, desde que entrou para a União Europeia esteve sempre na formação dos consensos necessários. Vivi isso como Presidente da República com os primeiros-ministros que tive, com os negociadores, procurando precisamente que estivéssemos sempre a trabalhar para encontrar um denominador comum, em torno de princípios de solidariedade, participantes num projecto que é comum. Nos tempos que vamos vivendo, acho que os países que têm sofrido mais, não devem pôr-se uns contra os outros. Devem, pelo contrário, encontrar as alianças possíveis, num esforço efectivo de encontrar uma solução que possa servir a União Europeia. Não faz sentido os países estarem uns contra os outros. Não faz sentido… Só quero dizer isto assim, que toda a gente percebe. Não quero dizer mais do que isto. O que é preciso é que possamos continuar na União Europeia, independentemente das dificuldades que possamos encontrar, a procurar as melhores soluções para a nossa caminhada comum.”

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

"UMA PEQUENINA LUZ" DE JORGE DE SENA POR CARMEN DOLORES

O poema de Jorge de Sena “Uma Pequenina Luz” pode ser ouvido aqui. E lido a seguir:

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una piccola… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.

A IRRESPONSABILIDADE DE SCHAEUBLE


O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, portou-se de uma maneira irresponsável, ao criticar publicamente uma carta que o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, dirigiu ao Presidente do Europgrupo. A carta não lhe era dirigida, o porta-voz da Comissão Europeia já a tinha saudado como positiva e o Eurogrupo vai reunir para a analisar, mas o ministro alemão quis dar uma resposta antecipada. Felizmente que não há unanimidade na Alemanha, o vice-chanceler alemão Sigmar Gabriel já manifestou "total desacordo" com o ministro alemão  das Finanças. Vamos a ver quem leva a melhor.

O GOVERNO MASOQUISTA


Talvez inspirado pela recente estreia de "Cinquenta Sombras de Grey" (não vi, não vou ver, mas li o resumo do enredo), o governo português decidiu ser masoquista. Decidiu defender os excessos da troika, mesmo quando um membro da troika, Jean-Claude Junker, líder da Comissão Europeia, pediu desculpa por ter desrespeitado a dignidades de países como a Grécia, Portugal e Irlanda:


Mais disse Juncker que a troika não era democrática, juntando-se no "mea culpa" à posição, tomada há já algum tempo de Madame Lagarde, que em nome do FMI, já tinha reconhecido erros da troika nos países "sob programa" (quer dizer, tutelados), em particular em Portugal. Tanto o PS como o CDS - e bem - aproveitaram imediatamente esta mudança de direcção e flexibilidade da União Europeia, que apesar de ser em primeira linha dirigida à Grécia também nos inclui. Contudo, o actual governo de Portugal, por meio do seu porta-voz Marques Guedes, apressou-se a dizer que as declarações do Presidente da União Europeia eram "muito infelizes" e que tudo tinha corrido muito bem. O representante do governo português - não quero acreditar que tenha sido uma posição oficial do governo português - porta-se como aquelas mulheres que foram violadas e acham tudo muito bem. Quando o violador, contrito, lhes pede desculpa elas dizem "não tem de quê" pois, imagine-se, terão gostado. Nunca Portugal esteve tão mal defendido.

Ética com razões

A Fundação Francisco Manuel dos Santos acaba de lançar o último livro de Pedro Galvão, Ética com Razões, na sua colecção "Ensaio". Este livro é certamente uma das melhores maneiras de compreender como se discute racionalmente temas de ética filosófica, como o aborto e a eutanásia, para lá da retórica barata das paixões à solta. Ainda não o li porque ainda não lhe deitei a unha, mas conhecendo o autor como conheço, tenho a expectativa de se tratar de um importante contributo para a discussão pública de qualidade que a Fundação tem promovido.

A mágoa de Guerra Junqueiro


Em 1904, Guerra Junqueiro confessou a Raul Brandão que entrevira a dissociação dos átomos e a radiação universal. Esta passagem está nas memórias do escritor de Húmus.
«– As últimas descobertas modificaram completamente a ciência. Foi um terramoto. E eu entrevi isto mesmo: há anos que chegara ao seguinte resultado: – radiação universal e dissociação dos átomos. Fiz experiências que me deram resultados incompletos, procurei homens de ciência que não me quiseram atender. Um dia vim de propósito a Lisboa falar a Sousa Martins e expus-lhe as minhas teorias. Ouviu-me… Quando me fui embora encolheu decerto os ombros. E, no entanto, passados anos, vejo confirmado experimentalmente tudo o que previra… Que quer?... Faltava-me, como compreende, meios de verificação. Precisava de factos.»
Guerra Junqueiro, como é óbvio, referia-se à descoberta dos raios X por W. C. Röntgen; à descoberta do eletrão por J.J Thomson; à verificação da emissão de uma nova radiação pelo átomo de urânio nos cristais de sulfato duplo de potássio e uranila, por A. H. Becquerel; à confirmação de Marie Curie da nova radiação não só no urânio mas também no tório, comportamento ao qual chamara de radioatividade; à descoberta da radiação β e da radiação α por Ernest Rutherford; à descoberta da   radiação ɣ  por Paul Villard e à fórmula de Max Planck para a emissão de energia de um corpo negro.
Desconheço os trabalhos científicos de G. Junqueiro para provar a sua ideia de que toda a matéria se reduzia a luz, a estados de energia, e que está bem presente na Oração à luz.

Oração à luz (fragmentos)
(…)
O mundo, ó luz, te absorve e te devora,
Mas revives no mundo mais intensa,
Mais próxima de Deus a cada hora,
Nas vidas todas d’ esta vida imensa,
Vidas sem fim, almas sem fim,
Que o segredo do amor junta e condensa,
Por meus olhos magnéticos, em mim!

Lampejam no meu corpo, humanizadas,
Mortas constelações e mortas alvoradas.

Desde que a vida me gerou em dor,
E fui éter, estrela, água, montanha e flor.
(…)
Todo o meu corpo é luz esplendorosa,
Sou um hino de luz religiosa,
Gravitando na orbita de Deus…
Milhões d’ auroras riem do meu canto,
Ondas d’ estrelas brilham no meu pranto,
Pélagos de luas há nos olhos meus!…
Esta carne, este sangue, esta miséria,
E este ideal imortal que me conduz,
Já foram brasas na amplidão etérea,
Por isso exultam devorando a luz…

2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS


Como nota prévia desta 4ª conversa em torno dos solos, convém lembrar que os textos que, neste e noutros propósitos pedagógicos, de há muito venho divulgando, têm como destinatários preferenciais os professores que nas nossas escolas básicas e secundárias se debatem com falta de elementos que complementem os tradicionais livros adoptados. Visam, ainda, o cidadão comum, interessado em conhecer o chão que pisa e lhe dá o pão. Não pretendem, longe disso, ensinar algo de novo aos meus pares, alguns deles bem mais entendidos do que eu nestas matérias. A esses o que se lhes pede é que, com o mesmo empenho o mesmo espírito de missão e a mesma humildade com que os produzo, corrijam o que eventualmente tiver de ser corrigido, acrescentem o que deva ser acrescentado e melhorem o que precisar de ser melhorado, tudo isto no real interesse de fornecer ao leitor a melhor informação possível.



FALANDO DOS SOLOS (3)
Fala-se muito (e ainda bem) de aquecimento global, de poluição do ar e das águas, mas pouco se ouve acerca da degradação ou da destruição dos solos, cada vez mais exauridos e retraídos em consequência do crescimento da população e da expansão dos espaços urbanos e das múltiplas estruturas da sociedade do presente (aeroportos, auto-estradas e outras)

Em termos muito gerais, esta entidade natural que nos assegura o sustento pode ser descrita como uma capa superficial das terras emersas (de escassos centímetros a vários metros de espessura) de material não consolidado (incoerente), a um tempo, mineral e orgânico, formado no contacto do substrato geológico com o ar e a água (da chuva ou da neve), constituindo um suporte propício ao crescimento das plantas. Como material não consolidado deve aqui entender-se um qualquer tipo de rocha desagregada por efeito da meteorização e, ainda, os sedimentos, a todo o momento remobilizáveis, depositados nas planícies aluviais e deltas deste nosso mundo.

Sempre que a vegetação, seja ela herbácea, arbustiva ou arbórea (e com ela todo um cortejo de seres vivos e de matéria orgânica associada) invade a dita capa superficial, gera-se um solo, através de um processo a que os especialistas (pedólogos) chamam pedogénese. Trata-se de um processo geodinâmico, dito supergénico porque, à semelhança da biogénese, da gliptogénese (erosão) e da sedimentogénese, tem lugar à superfície da Terra e é, como eles, eles assegurado pela energia radiante recebida do Sol.

Na “Declaração de Princípios sobre o Solo Português”, apresentada pela Sociedade Portuguesa da Ciência do Solo, em 1975, o solo é um corpo natural, complexo e dinâmico, constituído por elementos minerais e orgânicos, caracterizado por uma vida vegetal e animal própria, sujeito à circulação do ar e da água e que funciona como receptor e redistribuidor de energia solar.

Para o agricultor, o solo é a terra arável e fértil ou fertilizável. É a terra que se cava e estruma. No seu modo local de referir o solo, os açorianos falam de leiva, um termo radicado no latim glaeba (terra arável), o mesmo étimo de onde deriva a nossa palavra gleba.

Dos solos mais incipientes e pobres aos mais evoluídos e ricos de matéria orgânica, todos existem porque sempre existiu e existe meteorização das rochas. É comum distinguir solos eluviais ou autóctones, isto é, não deslocados, permanecendo sobre a rocha-mãe, e solos aluviais ou autóctones, formados sobre materiais igualmente resultantes de meteorização mas que sofreram transporte.

Do ponto de vista termodinâmico, o solo é um sistema aberto, que permite trocas de matéria e de energia com os sistemas adjacentes, nomeadamente, a litosfera, a biosfera, a atmosfera e a hidrosfera (aqui representada pelas águas pluviais e de infiltração). Absorve e armazena energia solar, é sede de fenómenos físicos, químicos e biológicos e tende, naturalmente, para um estado de equilíbrio estacionário enquanto se mantiverem as condições sob as quais evoluiu. Localizado na interface destes quatro sistemas, o solo faz a ponte entre a vida subaérea e o esqueleto mineral, abiótico, do substrato geológico, sendo considerado um dos mais importantes ecossistemas do planeta.

Funcionando como fronteira e zona de interacção entre o orgânico e o inorgânico, o autotrófico e o heterotrófico, o solo representa, simultaneamente, uma consequência da alteração meteórica das rochas e um agente activo dessa mesma alteração. Com efeito, a evolução do solo sobrepõe-se à meteorização, utiliza-a e, por seu turno, fornece-lhe condições para que prossiga e, até, se intensifique. Tal dinâmica ficou bem clara na afirmação, segundo a qual “à meteorização geoquímica, envolvendo apenas a alteração das rochas, segue-se a meteorização pedoquímica”, avançada, em 1953, pelos pedólogos norte-americanos Marion Jackson (1914-2002) & George Sherman (1904-1973).