terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O FUTURO É JÁ EM 2015

Declarações que prestei à Visão a propósito do ano de 2015, que foi antevisto no filme Regresso ao Futuro II do realizador Robert  Zemecki:de 1989:


O filme Back to the Future II de Robert Zemeckis de 1989, cuja acção se passa em 2015, previa algumas coisas que já se concretizaram tais como comida desidratada (é já comum com fruta e fala-se de impressoras 3D para fazer comida), computadores de mão  (temos hoje tablets por todo o lado), acessórios high tech pessoais (já temos os óculos da Google, ainda que longe do mainstream) e vídeo-conferência (temos ominipresente o Skype). Nada mau quanto a concretizações! Sim, sei que nos faltam os carros voadores, mas em 2015 continuarão os testes do carro da Google. E já há testes piloto para a distribuição de encomendas por drones. 

Raramente os livros e filmes de ficção científica fazem previsões certeiras  para um determinado ano. O ano de 1984 já passou há muito tempo e não foi nada do que consta do livro do Orwell, para não falar das miríadas de previsões para o ano 2000 que de tão diferentes a maioria tinha necessariamente de falhar.

Einstein dizia que o futuro chega sempre mais cedo do que se conta. E chega logo que esteja pronto, não esperando pela data profetizada.  O futuro, previsto ou não, está sempre aí a chegar. O que se faz nos laboratórios de todo o mundo  é preparar o futuro e é por essa razão  que a ciência e a tecnologia são socialmente relevantes. O futuro raramente traz grandes mudanças: é, em geral, uma sucessão de pequenos passos. É a acumulação sucessiva de pequenos passos que nos dá a ilusão dos passos de gigante. E, sendo muito difícil adivinhar o futuro  (o físico Niels Bohr dizia: "é muito difícil fazer previsões, especialmente do futuro", frase que  lembra a do jogador de futebol João Pinto, que nada sabia de física quântica, "prognósticos só fim do jogo"), a melhor base é sempre olhar para aquilo que está hoje em preparação. O que vai ser amanhã já é hoje, ainda que no silêncio dos laboratórios. 

O Boston Business Journal, muito atento aos laboratórios do MIT, prevê para 2015:

- fim da supremacia da Apple, que não está a inovar como no tempo do Jobs, dando o lugar à Google.
- maior presença dos media de cyborgs (como Oskar Pistorius) 
- distribuição domiciária por drones
- premência de questões de igualdade sexual na ciência e em geral, veja-se a ascensão de Hillary Clinton  (acrescento racial, a avaliar para o que se está a passar na América)
- proliferação de robôs recreativos (os avanços da robótica são além de úteis - já limpam as nossas casas - muito divertidos).

De outras "high tech predictions". destaco as que estão aqui.  
(curiosamente aparece uma figura de um carro planeado por um português: André Costa)
prevejo uma que está destacada na edição especial de The Economist para 2015: o uso clínico de perfis genéticos. No ano passado o preço da sequenciação total do genoma humano baixou dos 1000 dólares e no próximo ano o número de pessoas totalmente sequenciadas (eu já estou) vai passar para o dobro. No futuro as consultas a bases de dados genéticas farão parte das rotinas medicas.

Outros avanços que prevejo, porque até agora têm sido de crescimento explosivo, são os dos novos materiais baseados em nanotech ou em química avançada. O grafeno, por exemplo,  vai aparecer na electrónica e em ecrãs (não esquecer que um dos líderes mundiais  nessa área, Nuno Perez, é português). Dispositivos flexíveis vão ser mais comuns. Novos materiais vão conferir invisibilidade. 

Oxalá a ciência e tecnologia portuguesas, que tão maltratadas têm sido (2914 foi o ano da crise, tendo centro de Nuno Perez sido chumbado pela FCT) tenham em 2015 mais possibilidades de acompanhar e mesmo produzir  todos esses avanços.

Einstein tinha razão: o futuro não tarda a chegar. A ficção científica nalguns casos acerta. Noutros falha. E, por vezes, o futuro quando chega é mais surpreendente do que aquilo que a ficção científica anunciou. 


segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A Criação do Homem — Duas narrativas

1. Ovídio, poeta latino nascido a 43 a.C., em Sulmona, um vale dos Apeninos.

                      A criação do homem

Faltava ainda um ser mais sublime que estes, mais capaz
de conter uma alta inteligência, que pudesse reger os outros.
Nasceu então o homem. Este, ou o fez de semente divina
aquele artífice do universo, a origem do mundo melhor;
ou então a terra recente, separada há pouco do alto éter,
talvez ainda contivesse sementes do céu, seu parente, terra
que o filho de Jápeto, misturando com água da chuva,
moldou à imagem dos deuses que governam tudo.
E se os outros animais, dobrados para baixo, olham o chão,
conferiu ao homem uma cara virada para cima, e instruiu-o
a olhar para o céu e a erguer o rosto erecto para os astros.
Deste modo, o que há pouco era terra em bruto e sem forma
transformou-se e assumiu formas de homens jamais vistas.

Metamorfoses, I, 76-88 (trad. de Paulo Farmhouse Alberto, Livros Cotovia, 2007)

2. A descrição bíblica:

Quando o Senhor Deus fez a terra e os céus, não havia arbusto algum pelos campos, nem sequer uma planta germinara ainda, porque o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para a cultivar. Mas da terra elevava-se um vapor que regava toda a sua superfície. O Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo.
(Génesis, 2, 5-7) 

domingo, 28 de dezembro de 2014

O Grande Silêncio

O filme tem cerca de dez anos, mas só há poucos meses o vi. Agradeço a quem me enviou a "ligação", pois pelos meus próprios meios nunca o teria descoberto e perderia uma poesia.

Uma poesia é a expressão que encontro para definir o filme O grande silêncioda autoria de Philipe Gröning.

Este documentarista alemão, que estudou Psicologia e Medicina antes de se ter dedicado ao cinema, num certo dia, terá reunido toda a sua coragem e dirigiu-se a um mosteiro da Ordem da Catuja, pedia autorização para filmar o austero quotidiano dos monges. Alguns anos depois, parece que uns dezasseis, recebeu a resposta: poderia fazer o seu trabalho mas na condição de captar o que via e ouvia, sem artíficios. Mudou-se, então, para o Mosteiro - de La Grande Chartreuse que fica nos Alpes franceses - e viveu lá seis meses.

O que captou foi predominantemente o silêncio. É nesse silêncio que se ouve uma grande tesoura cortar pano, água a correr numa pia de cozinha, lenha a ser cortada, cabelo a ser rapado, caules de couve a serem partidas, rodas de um carro que transporta comida a deslizarem nas lages, postigos a serem entreabertos, dedos a seguir páginas, passos vagarosos, poucos múrmúrios, alguns risos... o toque muito cristalino do sino, e o canto gregoriano. Ouvimos, no filme, os sons que já não somos capazes de ouvir nos nossos tão sobrecarregados dias.

A universidade preocupada com a escrita dos alunos

Imagem retirada daqui
Vale a pena ler o artigo L’orthographe préoccupe les universitésescrito por Paul de Coustin e publicado no jornal Le Figaro (on line), do passado dia 26 de Dezembro.

Nele se aborda um problema gravíssimo e nada novo: a degradação das competências de escrita dos estudantes que chegam ao ensino superior.

Muitos professores reconhecem-no e falam dele, começando também a receber a atenção de investigadores mas quando se trata de tomar medidas alguma coisa falha e, em geral, nada se faz.

Talvez se compreenda esta espécie de inactividade por parte de escolas superiores e universidades se pensarmos no seguinte:

- Caberá a tais instituições resolver o problema? A resposta mais imediata é: não, não é essa a sua tarefa, a aprendizagem da escrita tem de ser feita ao longo da escolaridade básica.

- Mas, por razões diversas, essa aprendizagem tem falhas e, portanto, as ditas instituições ficam com o problema em mãos. Então o bom-senso aconselharia que recusassem os estudantes que não dominam suficientemente a escrita, pois sem ela é impossível avançar em qualquer área de estudos superiores. Porém, se o fizessem muitos cursos fechariam com as respectivas consequências para a manutenção dos departamentos e do corpo docente.

Neste cenário dilemático, caso os recursos o permitam, algumas instituições têm tentado fazer face ao problema, criando unidades/módulos/centros para aprendizagem da escrita.

Mas o ensino de jovens adultos é mais exigente do que o ensino de crianças; requer técnicos especializados, persistência por parte dos estudantes e continuidade didáctica, nada que fique resolvido com algumas sessões intensivas no ínicio de um curso. Acontece que estas condições nem sempre são devidamente ponderadas por parte de quem toma, ainda que de boa mente, decisões.

Depois de os Estados Unidos e do Brasil - pode haver outros países que desconhecemos - terem avançado em termos de diagnóstico e de remediação, eis a Europa a seguir-lhe os passos. Não discordarmos, sendo essas as condições, que apontam para uma situação de transição. Mas já discordamos se as instituições de ensino superior fizerem desta aprendizagem uma das suas missões.

O essencial tem de ser debatido: é nos primeiros anos de escolaridade que os alunos devem aprender a escrever. Uma vez detectadas falhas graves, como aquelas que começam a vir a debate, são os sistemas educativos que precisam de rever as suas opções e procedimentos.

Helena Damião e Isaltina Martins

sábado, 27 de dezembro de 2014

A pseudo-avaliação

Artigo de Teresa Firmino no Público de hoje (na imagem a astrofísica espanhola Amata-Noro contra a qual se desencadearam as fúrias da ESF a propósito da avaliação da ciência portuguesa):


Em 2014, Carlos Fiolhais deu voz a muitas outras que receavam fazê-lo para criticar a política de ciência do Governo. "Primeiro foi o corte de mais de 30% das bolsas de investigação e depois foi o abate de cerca de 50% das unidades de investigação por um processo muito defeituoso de ‘avaliação'", sintetiza o físico da Universidade de Coimbra.

 É difícil Carlos Fiolhais, físico e divulgador de ciência, não contagiar os outros com um sentido de humor em que joga com as palavras e uma boa gargalhada. Mas 2014, o ano em que a crise na ciência portuguesa tomou forma e as críticas à actual política científica se tornaram públicas e audíveis, não vai deixar-lhe motivos para sorrisos. E ele destacou-se entre essas vozes e deu voz a muitas outras que receavam fazê-lo.

“Em 2014, para grande espanto geral, o Governo tentou fazer uma diminuição drástica da ciência em Portugal. Primeiro foi o corte de mais de 30% das bolsas de investigação e depois foi o abate de cerca de 50% das unidades de investigação por um processo muito defeituoso de ‘avaliação’”, sintetiza Carlos Fiolhais.

O físico refere-se a dois factos principais que tiveram repercussões ao longo do ano. Logo em meados de Janeiro, a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), tutelada pelo Ministério da Educação e Ciência, anunciou o número de bolsas de 2014: 399 bolsas de doutoramento e 438 de pós-doutoramento.

Houve ainda 431 bolsas dadas pela primeira vez a programas de doutoramento. Somando as bolsas de doutoramento individuais e dos programas doutorais, em 2014 deram-se 830 bolsas — um corte de 31% face ao concurso anterior, que deu 1198 bolsas. E as bolsas de pós-doutoramento passaram de 677 no concurso anterior para as já referidas 438 — um corte de 35%. Tudo isto desencadeou os primeiros protestos que desembocaram numa manifestação à porta da FCT, ainda em Janeiro.

 Em Junho, veio o anúncio dos primeiros resultados da avaliação aos centros de investigação portugueses, o outro facto a que se refere Carlos Fiolhais. A FCT avaliava 322 centros do país, em colaboração com a European Science Foundation (ESF), para atribuir financiamento para despesas correntes e actividades científicas estratégicas, até 2020. O bolo a repartir é de 71 milhões de euros por ano.

 Nos dias seguintes a essa apresentação, quase no fim de Junho, os protestos ganharam expressão. Essa primeira fase já ditava o fim do caminho para quase metade dos centros, que não passavam para a fase seguinte. Não iriam receber dinheiro ou iriam receber muito pouco (no máximo 40.000 euros) — e muitos cientistas consideraram que isso levaria ao fim dessas unidades. Entre os 322 centros avaliados, ficaram pelo caminho 144 centros (44,7%), enquanto 178 (55,2%) passavam à segunda fase. E seria deste último lote que, no fim da avaliação, iriam sair os centros “excepcionais” e “excelentes”.

A 30 de Junho, Carlos Fiolhais pronunciou-se pela primeira vez sobre a avaliação, no blogue De Rerum Natura, de que é um dos fundadores. Foi duro, até porque era amigo de Nuno Crato, ministro da Educação e Ciência. “A FCT ensandeceu” era o título do post: “Quer acabar com a ciência em Portugal”, dizia. Nesse comentário, que evidenciaria Fiolhais como um dos principais rostos da contestação à actual política científica, o físico escreveu ainda: “O ministro da Ciência, Nuno Crato, demitiu-se há muito de o ser e agora, quando vê os ‘coveiros da ciência’, parece não querer fazer mais do que deitar terra para cima. A FCT e o ministro Crato estão a escrever uma página negra da ciência em Portugal.”

 Para lá de Portugal

 Mas apresentemos Fiolhais: tem 58 anos, doutorou-se em 1982 em física teórica na Alemanha, na Universidade Johann Wolfgang Goethe, em Frankfurt, e é professor catedrático da Universidade de Coimbra desde 2000. Em 1992, publicou um artigo científico, entre os mais de 130 do seu currículo, que é o mais citado de sempre de um autor em Portugal. Tem agora mais de 11.000 citações. E o seu segundo artigo mais citado é... uma errata àquele artigo, o que o faz... rir. E esse artigo apresenta uma nova fórmula matemática que descreve a ligação dos átomos entre si — a sua cola —, que torna possível a formação de moléculas, sólidos e superfícies. É autor de 45 livros, sozinho e em parceria, dos quais cerca de metade são de divulgação científica. Um deles, Física Divertida, de 1991, já vendeu mais de 20.000 exemplares em Portugal, e também há uma edição brasileira e está traduzido em Espanha e Itália. Em preparação, tem uma antologia da ciência na literatura portuguesa – “a que dei o nome, tirado a Camões, Vi claramente Visto”. Entre outras actividades, é o responsável pela colecção Ciência Aberta, da Gradiva, onde nos últimos dois anos editou dez livros. Por ano, vai a cerca de 30 escolas – “uma das coisas que mais me apaixona é falar sobre ciência aos jovens”.

 Voltando à avaliação da FCT, o que levou Fiolhais a esta luta? “Não sou responsável por nenhum centro de investigação. Nem sequer por nenhum grupo. Mas fiquei indignado quando reparei no final da primeira fase da ‘avaliação’ que alguns dos melhores centros e dos melhores cientistas portugueses estavam, por um processo arbitrário e em vários aspectos ilegal, excluídos do sistema. Como vivemos num país livre falei”, responde. “Preocupam-me em particular os jovens cientistas que se vêem sem futuro e têm de emigrar.”

A meio de Julho, soube-se que a FCT pré-definiu, antes da avaliação, que só passariam à segunda fase metade dos centros, segundo o contrato que assinou com a ESF (“a primeira fase da avaliação irá resultar numa shortlist de metade das unidades de investigação que serão seleccionadas para seguir para a fase 2”, lê-se).

 Foi então que as críticas aumentaram. No final de Julho, a avaliação chegou ao plenário da Assembleia da República, discutidos numa proposta de protesto do PS — e chumbada pela maioria. Nessa altura, o Conselho dos Laboratórios Associados, uma rede de 26 centros, acusou o Governo de “irresponsabilidade política”. E em Outubro, o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) acabou por dizer que a avaliação não tinha “a necessária qualidade”.

“Fiquei indignado quando reparei, no final da primeira fase da ‘avaliação’, que alguns dos melhores centros e dos melhores cientistas portugueses estavam, por um processo arbitrário e em vários aspectos ilegal, excluídos do sistema. Como vivemos num país livre, falei”

 Fiolhais e os colegas do blogue foram escrevendo e publicando opiniões de outros. “O De Rerum Natura deu voz a muitos cientistas descontentes. Tivemos um pico de audiência em Julho, com mais de 112.000 pageviews. Publicámos sobre o assunto cerca de 200 posts, muitos recebidos de autores
externos.”

Foi contactado por cientistas que quiseram manter o anonimato. “Muitos cidadãos ainda não interiorizaram que vivemos num país onde o Governo pode e nalguns casos, como presente, deve ser criticado. Os governados devem ser exigentes em relação a quem os governa.”

 A contestação extravasou fronteiras. “A avaliação é essencial em ciência. Por isso é que uma avaliação mal feita é trágica: não só semeia a injustiça, como mina a própria ideia de avaliação”, esclarece antes de mais. “O nosso blogue é muito visto não só em Portugal, como, por ordem, no Brasil, nos EUA, na Alemanha, na França e no Reino Unido. Um efeito colateral desta crise da ciência em Portugal foi a tomada de consciências dos cientistas nossos colegas lá fora da situação em Portugal. Pela primeira vez a Physics Today, revista da Sociedade Americana de Física, dedicou três páginas a Portugal.”

 Também chegou à revista Nature, em Outubro, rerefido numa única frase num artigo de opinião da cientista espanhola Amaya Moro-Martín sobre a ciência na Europa e onde dizia que “Portugal pode ter de fechar metade das suas unidades de investigação, devido a um processo de avaliação com falhas apoiado pela ESF”. Jean-Claude Worms, da ESF, não gostou e disse-lhe num email: “Se a sua alegação não for retractada publicamente na Nature, a ESF será compelida a tomar as acções legais apropriadas.”

O De Rerum Natura deu voz ao caso. “Só um post sobre a ameaça à nossa colega espanhola teve mais de 7500 visualizações. Foi o recorde de visualizações nos sete anos do blogue”, diz Fiolhais.
 No final de Novembro, ficou ainda a saber-se que, tal como na primeira fase da avaliação havia quotas para os centros que passariam, havia limites máximos paras as notas mais altas na segunda fase. A FCT deu essas instruções aos peritos da avaliação: entre os 178 centros nesta fase, um máximo de 10% (cerca de 18) poderiam ter a nota Excepcional e 20 a 35% (35 a 62) a nota Excelente. As instruções foram seguidas, como mostrou o anúncio dos resultados três dias antes do Natal: 11 centros (6%) tiveram Excepcional e 52 (29%) Excelente, que terão 47 milhões de euros por ano. E os 167 centros com Excepcional, Excelente e Muito Bom terão 70 dos 71 milhões de euros. O restante um milhão será para 90 centros com Bom, enquanto 65 (com Razoável e Insuficiente) não terão nada.

“A FCT tratava, em geral, mal os investigadores, mas tudo isso lhe era desculpado. Mas em 2014 os bolseiros vieram para a rua. E os responsáveis da maioria das unidades de investigação expressaram a sua indignação com a quota escondida de 50% de unidades a eliminar. Até os reitores se juntaram para criticar por unanimidade a pseudo-avaliação encomendada numa cláusula escondida à ESF”, resume. “Ficou claro o que o Governo queria fazer: em nome da ‘excelência’, nunca explicada, queria executar um processo de ‘poda’ geral dos laboratórios. Não cortou os ramos podres, cortou rente, um pouco ao acaso, metade das árvores. O funcionamento de base do sistema fica seriamente prejudicado e a dita excelência fica sem qualquer sustentação”, prossegue. “Cortes brutais na ciência e no ensino superior são inaceitáveis. Logo que o ministro se apercebeu de que não tinha peso político devia-se ter demitido.”

 Perguntámos a Fiolhais se a crise na ciência o fez perder um amigo. “O Nuno não me abandonou só a mim, o que me deixaria triste, mas abandonou a ciência portuguesa, o que me deixa muito triste. Está comprometido com um dos piores governos que tivemos.”

 E 2015, ano de eleições legislativas? “O mais provável é haver um outro governo que dê mais atenção à ciência. Este Governo é, nesta como noutras áreas, para esquecer. Em democracia a regra é a renovação e a esperança.”

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

SETE LIVROS RECENTES DE CIÊNCIA

Leio muitos livros mas os meus preferidos continuam a ser os ensaios sobre ciência. Eis a minha selecção dos melhores publicados recentemente entre nós, incluindo um juvenil (a ordem é, como de costume, alfabética pelo apelido de autor).


 - Jorge Buescu, "Primos Gémeos, Triângulos Curvos e outras histórias de Matemática". Lisboa: Gradiva, 2014

 Este é o quinto livro do autor na colecção ciência Aberta. Trata-se como os outros de uma reunião de crónicas sobre matemática que foram publicada antes na revista da Ordem dos Engenheiros ("Ingenium"). O Jorge, professor na Universidade de Lisboa, é muito bom a contar histórias, tornando a matemática mais difícil acessível a todos.

 - Fernanda Madalena Costa e Maria Estela Jardim (coordenadoras), "100 anos de fotografia científica em Portugal (1839-1939). Imagens e instrumentos", Lisboa: Edições 70, 2014.

 Muito bom contributo para a história da ciência em Portugal, este volume, necessariamente ilustrado (embora naturalmente a maior parte a preto e branco, só no fim há algumas a cores), descreve em vários textos o papel que a fotografia teve no desenvolvimento da ciência entre nós. Se a fotografia vem dos avanços da ciência e da técnica ela própria contribuiu decisivamente para a ciência e a técnica.


- Rui Costa Pinto, "Gago Coutinho. O último grande aventureiro português", Lisboa: Cronos, 2014.

 O autor de uma recente tese de doutoramento sobre Gago Coutinho, apresenta aqui uma biografia entre o popular e o erudito do famoso almirante. Gago Coutinho foi não só o herói da primeira travessia de avião do Atlântico sul, mas também um geógrafo pioneiro com expedições em vários territórios do Império português.O prefácio é do Comandante Costa Canas.


 - Steve Murrie e Matrhew Murrie, "Enquanto Dormes", Lisboa: Gradiva Junior, 2014

 Livro muito colorido e com textos curtos destinado aos mais jovens. È incrível a quantidade de coisas do domínio da ciência que acontecem enquanto dormimos...


 - António Piedade, "Íris Científica 2", Coimbra: Ed. do autor, 2014.

 Colecção de crónicas sobre ciência publicadas pelo bioquímico António Piedade, um dos nossos mais talentosos divulgadores de ciência, na imprensa regional. É preciso pedir directamente ao autor (apiedade@ci.uc.pt), pois a edição é própria e é limitada. Prosa muito sugestiva, por vezes poética como na belíssima carta a Madame Curie.

 - Sérgio Rodrigues, "Jardins de Cristais. Química e Literatura", Lisboa: Gradiva, 2014

 Um químico da Universidade de Coimbra e divulgador de ciência explora a charneira muito rica entre literatura e a ciência química. Ficamos a saber que a química, embora por vezes invisível, está por todo o lado. O prefácio é do médico João Lobo Antunes.

 - Edward O. Wilson, "Cartas a um jovem cientista", Lisboa: Clube do Autor, 2014

Wilson,, professor emérito de Harvard,  "pai da sociobiologia" e um dos nomes de maior prestígio da ciência contemporânea (autor, entre outros, de "Consiliência") escreve aqui aos jovens cientistas, explicando o que é a ciência e convidando-nos a permanecer ou a entrar nela.

A HIstória do Mundo de Andrew Marr (1.º episódio)

SETE LIVROS RECENTES DE HISTÓRIA

Dou por mim, nos livros de não ficção, a escolher neste momento preferencialmente obras de história, quer nacional quer universal. Eis a minha selecção dos sete títulos de história recentes saídos em português (a ordem é a alfabética pelo apelido do autor):


- António Costa Pinto e Nuno Monteiro (direcção), "História Contemporânea de Portugal, Volume 3 - A Crise do Liberalismo". Lisboa: Objectiva, 2014.

Terceiro volume de uma nova história de Portugal, que vai desde o século XIX até à actualidade, apoiada pela Fundação Mapfre espanhola. Estão previstos cinco volumes, mais um de fotografias.


- Umberto Eco (organização), "Idade Média III, Castelos, mercadores e poetas", Lisboa: Dom Quixote, 2014.

Terceiro volume, com quase mil páginas, dirigido pelo famoso intelectual italiano, que conta, nas suas mais variadas facetas, a história da Idade Média. Monumental. Não foi uma noite de dez séculos.


 - John Keegan, "A Primeira Guerra Mundial", Porto: Porto Editora, 2014.

No centenário do primeiro grande conflito à escala mundial, eis uma história abrangente escrita por um dos maiores especialistas nesse período. Também surgiram vários volumes sobre a participação portuguesa nessa guerra.

´
- Neil MacGregor, "Uma história do mundo em 100 objectos", Lisboa: Temas e Debates /Círculo de Leitores, 2014.

 O director do Museu Britânico e ex director da National Gallery ensaia uma história mundial de um ponto de vista original: olhando para um centena de objectos guardados em museus.


- Andrew Marr, "História do Mundo", Lisboa: Texto Editora, 2014.

Este livro acompanha uma série de 8 documentários da BBC. O autor, que não é historiador mas sim jornalista, tentou dar-nos um panorama global, isto é, não centrado na visão ocidental. Os vídeos estão à venda, encontrando-se pelo menos alguns no Youtube.


- Mark Mazower, "O Continente das Trevas", Lisboa: Edições 70, 2014.

A Europa foi no século XX um sítio de horrores. Um historiador britânico conta-nos e interroga-se porquê. Para que a história não se repita. Embora saibamos que a história nunca se repete exactamente, é bom conhecer o passado para perceber melhor o presente e as escolhas que se oferecem para o futuro.


- João Paulo Oliveira e Costa (coordenador), "História da Expansão e do Império Português", Lisboa: A Esfera dos Livros, 2014.

Uma nova História dos Descobrimentos e do Império Português, que surge na véspera dos 600 anos da conquista de Ceuta.  Sempre me interroguei como é que um país tão pequeno, com tão pouca gente, conseguiu chegar tão longe e permanecer tão longe durante tanto tempo. O livro ajuda a reflectir.

SETE LIVROS RECENTES DE FICÇÃO PORTUGUESA

As férias do Natal são tempo de colocar as leituras em dia. Gosto de acompanhar o que os autores portugueses vão escrevendo. De entre a ficção de autores nacionais saída ultimamente e que se encontra na minha estante ou mesa de cabeceira destaco, ou por ter lido e gostado, ou por estar a ler e gostar, ou ainda por pretender vir a ler e ter a esperança de via a gostar. A ordem é  alfabética, pelo último nome do autor:


- Cristina Carvalho, "Quatro Cantos do Mundo", Lisboa: Planeta, 2014.

Quem sai aos seus não degenera, diz o provérbio, e o Carvalho de Cristina vem de Rómulo de Carvalho. Não, estes contos, magnificamente ilustrados por Manuel San Payo, que só remotamente têm a ver com ciência. São efabulações, em prosa que não raras vezes roça o poético, relativas a viagens imaginadas a


"quatro cantos" inóspitos do mundo: os gelos polares, o deserto ardente, a selva tropical, e o fundo dos oceanos.

- Afonso Cruz, "Mar", Lisboa:  Alfaguara, 2014.

O autor da Figueira da Foz continua a sua Enciclopédia Universal, desta vez sobre um tema próximo da sua terra natal. Trata-se de um estranho almanaque onde não se sabe bem o que é verdadeiro e o que é ficcional, onde citações de clássicos aparecem, mescladas com a prosa do autor. É o quarto volume da série depois do primeiro, premiado e esgotado, e dos Arquivos de Dresdnen e de Alexandria.


- Sérgio Godinho, "Vida dupla", Lisboa: Quetzal, 2014.

O conhecidíssimo autor de canções, poemas e um livro infantil entra com este volume na prosa ficcional. São pequenos contos, sem nomes de pessoas nem de sítios, não localizados no tempo, que surpreenderão o leitor. Os dois temas principais que percorrem as histórias são os espelhos (daí a palavra "dupla" do título) e a perda (o sem-abrigo com "vida dupla" da história final perdeu a mulher, mas há outras perdas ao longo do livro).


- António Lobo Antunes, "Caminho por uma Casa em Chamas". Lisboa: Dom Quixote, 2014.

Lobo Antunes prossegue com impressionante regularidade a sua epopeia literária. Mais um título a não perder pelos lobo-antunianos, os leitores que apreciam a escrita nada convencional de um dos nossos melhores escritores da actualidade.


- Alexandra Lucas Coelho, "O Meu Amante de Domingo", Lisboa: Tinta da China, 2014.

Numa bela edição da Tinta da China, a jornalista que já nos tinha dado "Vai Brasil!" dá-nos agora um romance de vingança, de um ponto de vista feminino, que se lê de um fôlego. Escrita muito viva, isto é muito rente à vida. A vida é assim, por vezes de paixões violentas, o que é que se há-de fazer?


- Paulo José Miranda, "A Máquina do Mundo", Lisboa: Abysmo, 2014.

Com ilustrações de André Carrilho, este romance é apenas um dos vários livros de um autor português exilado no Brasil e que agora regressou literariamente em grande força. A violência de novo: "Como acontece com a matemática e com a música, o que torna a violência atraente é a sua universalidade".


- Gonçalo M. Tavares, "Uma menina está perdida no seu século à procura do pai", Porto: Porto Editora, 2014.

Relativamente jovem, mas já consagrado no país e no mundo, Tavares prossegue com uma cadência que nos impressiona a sua obra muito original. Além deste título saiu dele, quase ao mesmo tempo, na Caminho o livro de poesia "Os velhos querem viver", onde recria um dos dramas de Eurípedes, onde enfatiza a igualdade do valor da vida: todas as vidas têm o mesmo valor.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

SETE BELOS LIVROS DE BANDA DESENHADA

Gostando de banda desenhada, tenho reunida uma boa colecção, onde predominam os álbuns franco-belgas e portugueses. Em cima da minha secretária estão sete belos livros nacionais da "nona arte", de edição recente, que aqui apresento por ordem alfabética de autor.



- João Amaral. "A Viagem do Elefante, baseado num romance de José Saramago", Porto: Porto Editora, 2014.

Belo álbum que coloca em banda desenhada uma das obras últimas do nosso Nobel da Literatura, que aparece ele próprio representado nos quadradinhos. O prefácio é da viúva de Saramago, Pilar der Río. Capa dura e muito boa produção gráfica.


- Apostolo Doxiadis e Christos Papadimitriou, com arte de Alecos Padatos e Annie Di Donna, "Logicomix", Lisboa: Gradiva, 2014.

Com tradução do biocientista Nicolás F. Lori e revisão científica e prefácio do matemático Jorge Buescu, esta é uma biografia em quadrinhos do matemático e filósofo inglês Bertrand Russell.  Esta é não só uma obra de arte como um livro onde se pode aprender matemática e filosofia, para além da história. No fim encontra-se um mini-dicionário de personagens matemáticos e bibliografia.


- Ricardo Cabral, "Pontas Soltas: Lisboa", Lisboa: Asa, 2014.

Colecção de cinco histórias aos quadradinhos sobre Lisboa da autoria de um jovem ilustrador, um dos mais talentosos autores dessa arte em Portugal (autor de  "Everest", "Israel Sketchbook" e "Newborn - 10 dias no Kosovo". É uma maneira muito original de ver Lisboa.




- André Carrilho, "Inércia", Lisboa: Abysmo, 2014

Não é propriamente um livro de banda desenhada, mas é um álbum lindíssimo de um ilustrador e cartoonista já consagrado entre nós e no mundo. É uma colecção de sketches de viagens, com pequenos apontamentos em texto.




- Jacques Fernandez, "O Estrangeiro segundo a obra de Albert Camus", Lisboa: Arcádia (Babel),  2014

Tradução de uma edição recente da Gallimard, esta é a passagem a banda desenhada de uma das obras mais emblemáticas do escritor francês nascido na Argélia.  Capa dura e muito boa produção gráfica.


- I. Jigounov e Y. Senté, "XIII, vol. 11  Regresso a Greenfalls e A Mensagem do Mártir", Lisboa: ASA, 2014.

Série de culto da banda desenhada franco-belga da autoria original  de Jean van Hamme e William Vance, que começou a sair há 30 anos na revista "Spirou". O Público está, em colaboração com a ASA, está a publicar a série completa, entre os quais os vols. 6 a 11 são inéditos em Portugal.


- Yves Senté e André Juillard, "O Bastão de Licurgo",  Lisboa: ASA, 2014

As aventuras de Blake e Mortimer resistiram à morte do autor Edgar P. Jacobs. Esta é uma edição recente da Dargaud, a quinta destes autores (outros autores têm tentado recriar os personagens firam Jean van Hamme e Ted Benoit, Jean van Hamme, René Sterne e Chantal de Spiegeleer, e Jean Dufaux, e Antoine Aubin e Étienne Schréder. É um livro para os admiradores e coleccionadores de Jacobs, entre os quais me incluo.

SETE BELOS LIVROS DESTE NATAL

Neste Natal folheio, deliciado, alguns belos "coffee table books" que apareceram recentemente. Seleccionei sete que apresento por ordem alfabética de autor:


- Cristina Castel-Branco, "Jardins de Portugal", Lisboa: 2014.

A autora, arquitecta paisagista, é uma das melhores conhecedoras dos jardins portugueses. Num trabalho colectivo com o arquitecto paisagista e cartógrafo  Filipe Amaral  e o fotógrafo António Sachetti, seleccionou 59 jardins ordenados de norte a sul do país, para terminar nas ilhas (Açores e Madeira).  A edição tem  a qualidade a que os Correios de Portugal já nos habituaram, estando nela incluída a série de selos "Jardins de Portugal". O prefácio é de Guilherme de Oliveira Martins Ficamos com vontade de ir senão a todos, como os autores, pelo menos à maior parte destes jardins.


- "Pharmacopeia Geral para o reino, e domínios de Portugal,..." Tomos I e II (reunidos num só), Coimbra: Imprensa da Universidade, 2014 (facsimile da edição de 1794)

Com um formato muito mais pequeno do que os outros este é um belo volume, numa elegante capa e caixa, que também fica bem, sobre a mesinha do café. Trata-se de um facsimile da primeira farmacopeia oficial portuguesa, de 1794, escrita embora não assinada por Francisco Tavares, professor de Medicina da Universidade de Coimbra (o original está na Biblioteca da Ciências da Saúde daquela Universidade).
O  prefácio que enquadra a obra é de João Rui Pina, historiador da farmácia. O patrocínio que tornou a edição possível é da Bluepharma, de Coimbra, cujo CEO, Paulo Barradas, escreveu uma introdução onde anuncia que além desta farmacopeia antiga serão publicadas mais nove, em anos sucessivos. Uma iniciativa ligada à digitalização do volume (que pode ser aprecuiada no reposit´+orio Alma Mater) que não pode deixar de ser louvada.


- Zilda Melo França, Victor Hugo-Forjaz et al., "Guia de História Natural da Ilha do Pico. Pico Island History Handbook", Ponta Delgada: Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores,  2014.
(contacto: vforjazovga@gmail.com)

Após um editorial e um preâmbulo, este livro apresenta a geologia, biologia e a ecologia da  ilha do Pico, uma das mais impressionantes ilhas dos Açores, cujas vinhas nos "currais" em vertentes de lava são hoje Património da Humanidade. Edição bilingue, as imagens são lindíssimas em papel couché, exibindo a mais alta montanha de Portugal sob os mais diversos ângulos. Parabéns ao editor, o vulcanologista Victor-Hugo Forjaz, que obteve o apoio do governo açoriano, no quadro do projecto GeoTurBi
o, para  um projecto de levantamento que começou pela ilha do Pico. Trata-se de um projecto de cultura científica, que visa colocar nas mãos dis turistas ou outras pessoas que prezam a cultura científica, informação validada sobre um ambiente sem par. São indicados alguns roteiros a explorar e é fornecido um grande mapa em extratexto.

- António Maia Amaral (coordenador), "Os livros em sua ordem. Para a história da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra". Coimbra: Imprensa da Universidade, 2014.

Livro ricamente ilustrado que pela primeira vez, graças a um esforço colectivo de bibliotecários, encabeçados pelo director adjunto da Biblioteca, António Maia Amaral (muitos parabéns!), compila a história da biblioteca pública mais antiga portuguesa que é hoje Património Cultural Europeu, para além de ser parte do património Mundial da Humanidade, que é a própria universidade. O livro sai por ocasião dos 500 anos daquela biblioteca, que existia em Lisboa em 1513. Em 1728 ficou pronta a Biblioteca Joanina, cuja história é aqui contada. O prefácio é do historiador Fernando Taveira da Fonseca e o patrocínio à edição é da Fundação Eng. António de Almeida.


- Carla Paulina e Inês Antunes (coordenadoras do catálogo), "A História Partilhada, Tesouros dos Palácios Reais de Espanha", Lisboa: Fundação Gulbenkian e Património Nacional, 2014.

Catálogo muito ilustrado da imperdível exposição aberta até 25 de Janeiro de 2015 na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Percorrendo-o podemos aprender não só sobre a história da arte ibérica e a história de Espanha mas também sobre as ricas relações entre Portugal e Espanha (por exemplo, ficamos a saber que o Museu do Prado resultou de uma ideia de uma rainha portuguesa). Em extratexto encontra-se uma árvore genealógica da monarquia do país vizinho. Existe, além da edição portuguesa, uma outra em inglês. A Fundação La Caixa patrocinou a obra.


- Rita Sousa Tavares, "Show me Lisbon", Lisboa: Café Pessoa, 2014

Com belas fotografias de João Pina (o autor de "Condor") este livro bilingue, em português e inglês, mostra, com um design convidativo, facetas de Lisboa escolhidas por  Joana Vasconcelos (artista plástica), Richard Zenith (pessoano), José Avilez (chef), Carminho (fadista), António Costa (edil), Nicolau Breyner (actor), Maria de Medeiros (actriz e realizadora), Alexandre Farto - Vhils (artista plástico), Ana Sofis Martins (modelo), Rodrigo Leão (músico), Manuel Alves (estilista),  José Sarmento de Matos (historiador) e Ana Sofia Gonçalves (farmacêutica). No final há um "insider guide" com uma reunião de sugestões dos vários convidados. É uma Lisboa que apetece, esta que resulta do projecto de uma jornalista que já antes tinha feito o "Show me Rio".

- Manuel Valente Alves, "História da Medicina em Portugal. Origens, ligações e contextos", Porto: Porto Editora, 2014.

O autor é médico, investigador e artista plástico. Ensina História da Medicina na Universidade de Lisboa e fundou e dirigiu o Museu de Medicina dessa universidade. Esta era uma obra que faltava na nossa historiografia: uma história completa, muito ilustrada, desde os primórdios até à actualidade da medicina em Portugal, colocando-a no contexto da medicina mundial. O livro, apresentado em 114 fichas temáticas,  foi patrocinado pela Fundação Gulbenkian.



MR. TURNER, O ARTISTA DA LUZ

J

Já estreou o filme "Mr. Turner", de Mike Leigh.

Sinopse:

 "Profundamente afectado pela morte do pai, amado por uma governanta que ele praticamente ignora e ocasionalmente explora sexualmente, Turner estabelece uma estreita relação com uma proprietária de uma pensão à beira-mar com quem vive incógnito em Chelsea, onde acaba por falecer. Ao longo destes anos, ele viaja, pinta, frequenta a aristocracia, visita bordéis, torna-se um artista estimado embora um pouco indisciplinado da Royal Academy of Arts, prende-se ao mastro de um navio para poder pintar uma tempestade, e é ao mesmo tempo reconhecido e desprezado pelo público e pela realeza."

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

ORQUESTRA GERAÇÃO

Orquestra Geração Lisboa from Câmara Municipal de Lisboa on Vimeo.

Projectos como o da Orquestra Geração, que outro dia vi em ensaios, fazem-nos acreditar que devemos ter esperança. Vindo da Venezuela, este projecto de intervenção social através da música.

O PAI NATAL EXISTE

Minha crónica no Público de hoje. A todos os meus leitores desejo Boas Festas e um ano melhor do que foi este.


O Pai Natal existe mesmo e, em Portugal, foi visto na sede da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) a embrulhar prendas. A grande questão é que este Pai Natal da FCT não é nem velhinho nem simpático. Sem experiência de vida e sem qualquer bonomia, em vez de recompensar de forma justa, distribui prendas só para alguns de um modo arbitrário. A magia dos duendes deste Pai Natal engendrou um processo chamado de “avaliação” das unidades de investigação nacionais, mas que se destina apenas a cobrir objectivos inconfessados.
A ciência portuguesa está a atravessar uma crise sem precedentes. Os seus princípios mais básicos estão a ser atropelados por um pequeno grupo que se apropriou da máquina do Estado para satisfazer os seus interesses sectários. A sabedoria, o rigor, a independência e a equidade no tratamento foram preteridas numa avaliação rocambolesca perpetrada pela European Science Foundation (ESF), organização actualmente sem credibilidade, às ordens da FCT, instituição cujos responsáveis não parecem ter escrúpulos.
Em ciência, uma experiência mal planeada e mal conduzida só pode originar maus resultados. Foi precisamente o que aconteceu com a pseudo-avaliação da FCT/ESF. Um extenso rol de incongruências, patentes desde o início, impedia a indispensável qualidade do resultado final. Ao longo da “avaliação” ficaram nítidas, bem mescladas, a incompetência e a má fé, pelo que o resultado só podia aquele que foi. Em particular, o financiamento estratégico que alguns centros obtiveram é uma prenda opaca, inexplicada e nalguns casos inexplicável. Tem todo o ar de arbitrária, o que não admira dada a fragilidade do processo. Para acreditarmos na sua justiça teremos mesmo que acreditar no Pai Natal. Não quer isto dizer que muitos centros escolhidos pela FCT não mereçam um financiamento muito bom. Merecem, com certeza. Mas não só o merecem, como merecem também um método isento e transparente na sua atribuição.

Os resultados ora anunciados eram previstos por quem observou com atenção o que se passou. De facto, esta original experiência da FCT/ESF pouco tinha de científica. O seu fito era apenas o de contrair drasticamente o sistema científico português, abatendo metade das unidades logo à partida (havia uma quota não assumida de 50%), para depois alocar a maior fatia dos recursos disponíveis só a alguns, escolhidos a dedo. Que havia fins políticos por detrás da cortina da “avaliação” é revelado pelas elevadas somas atribuídas a uma minoria, que inclui todos os centros ligados aos actuais ocupantes do poder político (com a excepção do centro do próprio ministro, que receberá uns ridículos 5000 euros anuais, o que significa pura e simplesmente que Nuno Crato não volta para lá, tendo abandonado de vez a ciência). Dos 322 centros “avaliados” um grupo de 63 irá receber por ano 47 milhões de euros de um total de 71 milhões, isto é, 20% dos centros irão receber 66% do financiamento. E, sem surpresa, os dirigentes do sector, todos eles ligados à biomedicina, foram contemplados com generosos brindes no sapatinho. Inclusivamente, fundações privadas como a Gulbenkian e a Champalimaud serão beneficiadas com transferências do Orçamento do Estado. Lá fora as fundações financiam o sector público, aqui é o sector público que financia as fundações.

Reafirmo, agora com mais provas, o que já escrevi. Noutra encarnação conheci Nuno Crato e nem nos meus piores sonhos imaginei que ele pudesse permitir o desconchavo que hoje vemos. Ele faz experimentalismo na educação e faz experimentalismo na ciência, sem dialogar com a comunidade científica e sem atender ao bem comum. Ao permitir a destruição do funcionamento basal do sistema científico, Crato acabou por minar uma réstia de esperança que alguém ainda pudesse ter no seu bom senso. Os reitores bem lhe escreveram, chamando “falhanço pleno” à experiência avaliativa que ele, se não criou, pelo menos permitiu. Mas o ministro, numa atitude autista, não os quis ouvir. Para lá das irregularidades processuais que abundaram no simulacro de avaliação, sobre as quais os tribunais poderão ter de decidir em última instância (entraram 131 reclamações na primeira fase, que decorreu sem visitas de peritos, portanto à margem da lei), não foi bem medida a produtividade científica. Muitos "avaliadores" não eram sequer especialistas nas áreas que estavam a examinar, em clara violação das normas e com manifesto prejuízo do rigor. Não houve, portanto, avaliação por pares, mas sim um aval dado por agentes sem suficiente competência a decisões governamentais. E assim os investigadores nacionais perderam de vez a confiança em quem nos governa.

A avaliação é um pilar de qualquer sistema científico. Os cientistas portugueses querem ser avaliados de uma forma séria, honesta e límpida. Fica aqui este desejo de Ano Novo. Será pedir muito?

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

BOAS FESTAS E FELIZ ANO INTERNACIONAL DA LUZ


Porque há marés altas e baixas?


Minha resposta publicada ontem no jornal I:

As marés são devidas à força gravitacional exercida pela Lua sobre o nosso planeta. Esse força é maior quando a distância é menor. Do lado da Lua, a água dos oceanos é, portanto, mais puxada do que a terra sólida e do outro lado menos puxada. A água que cobre a Terra forma então, em corte, uma espécie de elipse. Como a Terra roda em volta do seu eixo ao longo de 24 horas, existem em regra duas marés altas por dia e, entre elas, duas marés baixas. O Sol também contribui  para as marés embora menos.

O naufrágio: Editorial do Público sobre a pseudo-avaliação da ciência nacional


Trancrevo do Público o editorial de hoje, da responsabilidade da direcção do jornal:


Certa gente se salvou, só a ciência é que não


"Uma velha canção popular açoriana termina, na última estrofe, desta maneira: Toda a gente, toda a gente se salvou,/ Ai se salvou, só o San Macaio não. O San Macaio dessa história é um barco, e apetece glosar a sua “moral” quando acabam de ser conhecidos os resultados finais do chamado “processo de avaliação” das unidades de investigação científicas portuguesas. Se estas forem vistas como um barco, ou seja, como um todo, dificilmente se encararão as suas várias parcelas como dispensáveis. O processo que agora terminou destina-se, porém, a salvar o casco, o leme e algumas velas e a deixar afundar o resto. O enaltecimento da “excelência”, louvável em parâmetros relativos, foi tido como regra absoluta, onde ser “apenas” bom não conta. Pode-se deitar fora, por exemplo, os remos... Mas quando vier o naufrágio diremos, sem receio de errar, que certa gente (vista como excelente) se salvou, só a ciência (o barco, afinal) é que não."

O presente envenenado de Crato, Parreira e Seabra

"A poda defendida por António Coutinho e executada pela troika da ciência foi na realidade uma operação selvagem de abate de árvores."

"O ministro Nuno Crato, a secretária de Estado Leonor Parreira e o presidente da Fundacão para a Ciência e a Tecnologia (FCT), Miguel Seabra, concluíram ontem uma das empreitadas principais do seu consulado: o chamado “processo de avaliação” das unidades de investigação científica portuguesas.

O processo termina mal, como começou, e consagra, como se esperava, uma hierarquia de unidades de investigação onde cerca de metade é na prática condenada à morte, pois deixa de receber financiamento, onde um quinto dos centros recebe um financiamento considerável e onde os restantes receberão um financiamento suficiente para manterem as suas actividades.

 O princípio utilizado nesta operação de avaliação, executada com inúmeros erros e insuficiências pela European Science Foundation, contratada pelo efeito pela FCT, foi o princípio da “poda”, cujo principal ideólogo foi o investigador António Coutinho, coordenador do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia. O princípio da poda enuncia-se brevemente: de forma a promover a excelência, o sistema deve não só premiar as unidades que sejam consideradas “excelentes”, mas destruir as unidades que sejam julgadas “insuficientes”, apenas “razoáveis” ou que sejam mesmo meramente “boas”. Apenas a excelência merece florescer e tudo o resto deve ser cortado. (...)"

Ler mais aqui.

UMA "AVALIAÇÃO" ROCAMBOLESCA


A ciência em Portugal está a ser humilhada por um pequeno grupo que se apropriou dos cofres públicos em favor dos seus interesses particulares. Eis as declarações que prestei hoje ao jornal Público sobre a "avaliação" rocambolesca da Fundação para a Ciência e Tecnologia / European Science Foundation (FCT/ESF):
"Para Carlos Fiolhais, o rol de incongruências que o processo sofreu desde o início mancha o resultado final. “Em ciência, uma experiência quando é mal planeada e mal conduzida só pode dar maus resultados. Foi o que aconteceu com a pseudo-avaliação da FCT. Nuno Crato devia na ciência, tal como na  educação, abandonar os experimentalismos”, disse ao PÚBLICO o físico da Universidade de Coimbra, que tem sido muito crítico deste processo de avaliação.  
O financiamento estratégico que cada centro obteve também é visto com desconfiança por Carlos Fiolhais: “É uma coisa opaca, mal explicada e nalguns casos inexplicável. Parece arbitrária, o que não admira, dada a fragilidade do processo.”
Ler o resto da peça do Público aqui. [faltava a palavra mal no último parágrafo]

Os resultados ora anunciados podiam facilmente ser previstos. Se o objectivo desta "experiência" por parte dos que a conduziram era afundar o sistema científico português, eliminando metade das unidades de investigação logo à partida e depois escolhendo uma mão cheia delas de um modo obscuro, pode dizer-se que ele foi até agora alcançado. De facto, havia fins políticos por detrás de toda uma aparência de avaliação científica, como mostram as elevadas somas atribuídas a todos os centros ligados aos actuais ocupantes do poder político (com a excepção do centro do próprio ministro, que recebe uma quantia ridícula, o que significa simplesmente que Nuno Crato não volta para lá, tendo abandonado de vez a ciência). Com o anúncio da FCT nas vésperas de Natal, numa conferência de imprensa onde a entidade externa, a ESF, não deu sequer a cara (deu-a na primeira fase, numa sessão pública),  acabou por cair a confiança nos actuais responsáveis, que já estava extremamente minada. Para lá das graves irregularidades processuais que eles cometeram em todo este inacreditável simulacro de avaliação, sobre as quais os tribunais terão em última instância de decidir (mais de uma centena de centros protestou na primeira fase, que decorreu sem visitas de avaliadores, isto é, sem assegurar condições de igualdade com os outros), está à vista  o atropelamento dos mais elementares princípios de rigor científico, que a comunidade científica não deixará de julgar. Muitos "avaliadores" não eram sequer especialistas nas áreas que estavam a avaliar, em clara violação do decreto-lei que rege a avaliação.  Não houve, portanto, avaliação por pares, mas sim por um reduzido número de  indivíduos escolhidos sabe-se lá com que critérios por uma instituição europeia sem experiência na matéria nem suficiente credibilidade.

A avaliação é um pilar de qualquer sistema científico. Os cientistas portugueses querem ser avaliados de uma forma séria, honesta e transparente. Será pedir muito?

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O seu centro "portou-se bem" e vai ter os milhões da FCT no sapatinho?

A FCT fez hoje uma conferência de imprensa para a habitual homilia de fé na avaliação, na qual divulga pouco mais do que os números de unidades classificadas como excepcionais e excelentes. À pergunta de 13 milhões de euros, quais são os onze centros a quem saiu o tugamillhões, essa a FCT só responde quando as edições impressas dos jornais estiverem a fechar, e o país mais perto de entrar em modo rabanadas.

The flawed evaluation of Portuguese research units conducted by the ESF and FCT

Portuguese research units are funded by the Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), the only national public funding agency for science. FCT has been carrying out periodic evaluations for more than 20 years, conducted by scientists from foreign institutions with its outcome determining the levels of funding.

The latest (and still ongoing) evaluation was outsourced to the European Science Foundation (ESF).   The practical outcome of this evaluation, if carried out to full completion, will be a huge cut in the number of viable research units and the concentration of most of the financial resources in a very small number of institutions. At first sight this might seem a legitimate option, but it is not.

First of all, this “shrink and concentrate” policy was not announced by the Portuguese government, and as a consequence was not submitted to a public discussion with the relevant institutions such as universities, who host the research units and pay the salaries for the majority of the senior researchers in the system.  Instead, it was disguised as an evaluation based on merit only, passing the full responsibility of its outcome to ESF. However, ESF conducted what was, as shown below, a severely flawed evaluation process, in which the absolute classifications of the research units had to fit into predefined quotas.

Contrary to all previous experience and even the law, the evaluation was conducted in two stages, the first based on documents only (with no visits to laboratories) and the second based on visits and interviews with the unit director and its researchers. Only units that made it to the second stage will have access to the major part of the funding to be awarded. The first stage suffered, for instance, from the lack of proper coverage of the different areas by the panels who made the decisions, the change of rules when the process was already underway, and the usage of incorrect bibliometric data. These serious flaws  alone, denounced by a large number of scientists and associations in Portugal ( http://goo.gl/KHYDwZ ) and many foreign scientists, of which Amayo Moro-Martin is but one example (article in Nature: http://goo.gl/U8OU9a), would be enough reason to suspend this evaluation. ESF announced a legal action against Moro-Martin, in view of her opinion piece in Nature, but after this became public ESF backed down.

But, even more significantly, the evaluation had a hidden quota from the very beginning. After strong legal pressure, FCT finally made public the contract signed with ESF from which we learnt that ESF had been instructed to a priori exclude 50% of the units from the second stage. Indeed, as may be read in the work plan for the panels: "Stage 1 evaluation will result in a short list of half of the research units that will be selected to proceed to stage 2." The evaluation had thus to abide by this hidden quota while it was being publicized as being driven by quality alone.

It should be stressed that this was not a relative evaluation to find the 50% best units, in some kind of “excellence” program,  but the financing of the basal science system and there is virtually no alternative funding from other Portuguese sources. Units which did not make it to the second stage will most likely not be able to continue. This alone would already be cause for concern, but it does become totally unacceptable when based on a flawed evaluation. Several complaints have been presented and, given the number and seriousness of formal and scientific irregularities, it may be expected that new independent panels will respond positively to the appeals.

These were the quotas for the first stage. In a recently disclosed document ( http://www.fct.pt/apoios/unidades/avaliacoes/2013/docs/FCT_Final_Meeting_guidelines_S2.pdf ,
FCT defined the quota for the classifications of the second stage. Only 10% of the units assessed in the second stage are allowed to have the highest classification (“exceptional”). And only up to 35% of the units assessed in the second stage are allowed to have the second higher classification (“excellent”). As in the first phase, very few evaluators visited the units and some of them were not specialists in the areas being examined.

We have to bear in mind that of a total of 322 units, only 178 have made it to the second stage and that those classified as “exceptional” will have 10 times more funding as the units classified as “good”. This means that a large part of the Portuguese public funds for research will be awarded to only 17-18 units, several of which will probably be private (private foundations will be subsidized with public money).

This evaluation has been highly contested by many scientists, organizations and national scientific societies (Physics, Chemistry, Philosophy, Mathematics, etc.). More significantly, the Council of Rectors of Portuguese Universities (CRUP) has completely demolished the process. On the 24th of October the 15 rectors of CRUP released a consensus position which was sent to the Minister of Education and Science, Nuno Crato To this day there has been no reaction from the Minister, denoting that the open letter was a serious political embarrassment for the government. A translation of the letter may be found here:
The minister has not replied to any of these issues so far.

In short, this evaluation is politically driven, meant do downsize science in Portugal and concentrate all the resources in a lucky few, selected by what many scientists deem to be a ridiculous evaluation process. Furthermore, it is illegal in various aspects, and indeed a legal action has already been filed by a researchers union (probably others will follow soon).

Despite all this, the Portuguese Secretary of State for Science and Technology, has stated recently that the evaluation "is running smoothly and according to plan.” Preliminary results of the second phase are about to be announced, but a bad plan and a flawed methodology can only produce bad results.


Carlos Fiolhais, Professor of  Physics, University of  Coimbra (Portugal)

As quotas absurdas da FCT: quotas para baixo e quotas para cima



Transcrevemos com a devida vénia artigo no Público de 19/12 sobre a "avaliação" da FCT/ESF. Uma má avaliação não só dá maus resultados como prejudica a própria ideia de avaliação. 

A FCT deu instruções para haver até 80 centros excepcionais e excelentes


Estará para breve a divulgação dos resultados da fase final da avaliação aos 322 centros de investigação portugueses. Num exercício de lógica, olhámos para as últimas directrizes conhecidas da Fundação para a Ciência e a Tecnologia sobre a avaliação, que mencionam limites para as notas mais altas.

A avaliação dos centros de investigação portugueses, que tanta controvérsia tem gerado este ano, está na recta final. A secretária de Estado da Ciência, Leonor Parreira, disse no início desta semana que os resultados da avaliação serão divulgados ainda este mês, provavelmente até antes do Natal. A serem seguidas as orientações divulgadas recentemente pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), tutelada pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC), haverá um limite para a atribuição das classificações mais altas: entre os 178 centros que chegaram a esta fase da avaliação, no máximo 10% (cerca de 18) poderão ter a nota Excepcional e 20 a 35% (35 a 62) a nota Excelente.

Feitas as contas, até uns 80 centros de investigação poderão assim ter Excepcional e Excelente como classificação, enquanto os restantes 98 que também estão nesta fase da avaliação têm teoricamente reservado um leque de notas entre o Muito Bom, o Bom, o Razoável e o Insuficiente.

Estas instruções encontram-se num documento sobre as linhas de orientação finais relativas à segunda fase de avaliação, tendo como destinatários explícitos os painéis de peritos envolvidos no processo e que a FCT divulgou publicamente pela primeira vez no final de Novembro no seu site. No documento, de 19 de Novembro, lê-se que a “referência orientadora” para a classificação Excepcional é de “até 10% das unidades avaliadas na segunda fase” e para a classificação Excelente é “dentro do intervalo entre os 20% e os 35% das unidades avaliadas na segunda fase”.

Esta avaliação destina-se à atribuição de financiamento, nos próximos cinco anos, para despesas correntes dos centros de investigação (desde pagamento de reagentes de experiências científicas até idas a congressos), bem como para actividades estratégicas. A avaliação foi dividida em duas fases. Na primeira, 322 centros, agrupados por grandes áreas do saber, foram avaliados por três peritos com base em informação documental. Os seus três relatórios foram depois discutidos por outros peritos, que integravam um dos sete painéis criados para este processo, de onde saiu um relatório de consenso. Na segunda fase, os 178 centros que aqui chegaram foram visitados por peritos desses sete painéis, entre Julho e Outubro, e cada um dos painéis reuniu-se no final de Novembro em Lisboa para atribuir as notas finais, segundo o site da FCT. O documento de Novembro é o guia para a reunião final dos painéis.

Na primeira fase, incluindo já os resultados das reclamações apresentadas pelos investigadores, ficaram pelo caminho 144 centros (44,7%), classificados com Insuficiente, Razoável e Bom. O que significa que não vão ter qualquer financiamento para despesas se tiveram Insuficiente e Razoável, ou receberão algum dinheiro se tiveram Bom (entre 5000 e 40.000 euros por ano). E logo estes primeiros resultados, anunciados no final de Junho, desencadearam críticas da comunidade científica, acusando o Governo de estar a matar quase metade das unidades de investigação – porque mesmo 40.000 euros, como disseram responsáveis de vários centros, não chegam para pagar a um investigador de pós-doutoramento. Entre as falhas apontadas estavam a ausência de visitas dos peritos aos centros e painéis demasiado genéricos.

Uma shortlist no contrato

As críticas à avaliação, vindas de cientistas como Carlos Fiolhais, Manuel Sobrinho Simões e Alexandre Quintanilha, subiram de tom quando se ficou a saber (em meados de Julho) que havia quotas, nunca antes reveladas, para eliminar metade dos centros logo na primeira fase da avaliação, estabelecidas previamente no contrato que a FCT assinou com a entidade à qual delegou a avaliação, a European Science Foundation (ESF). O contrato menciona que à partida, antes de qualquer avaliação, 50% dos centros seria eliminada: “A primeira fase da avaliação irá resultar numa shortlist de metade das unidades de investigação que serão seleccionadas para seguir para a fase 2”, lê-se. A FCT e o MEC justificaram a referência à eliminação de metade dos centros como uma “estimativa” baseada na avaliação anterior dos centros, de 2007.

A shortlist acordada no contrato mereceu críticas, por exemplo, do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), numa carta enviada em Outubro ao ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, na qual recusa “a morte de quase 50% do tecido científico português”: “Este resultado, já previsível a partir dos termos em que o contrato entre o Estado português e a ESF foi redigido, prevendo a passagem à segunda 

Mais: “Apesar de ter sido chamada a atenção para inúmeros erros de avaliação, muitos inteiramente factuais, diversos painéis desculparam-se de diversas formas para não retirar daí consequências, mantendo avaliações inexplicáveis. A avaliação não presencial de unidades de investigação é, no nosso entendimento, um falhanço pleno”, dizia o CRUP na carta, considerando que este processo “não tem a qualidade necessária”. “Para que um sistema de avaliação seja capaz de promover a excelência tem de, ele próprio, ser pelo menos excelente, se não excepcional. Não é o caso.”

O que o CRUP escreveu na carta ao ministro continua válido, reiterou esta quinta-feira ao PÚBLICO António Cunha, o presidente deste conselho de reitores de 15 universidades. “A avaliação tem enormes fragilidades. É um processo mal planeado desde o princípio, dificilmente terá bons resultados. O CRUP está apostado em conseguir que esta avaliação não seja usada para mais nada”, frisa António Cunha, referindo-se ao seu uso como critério de avaliação de projectos de investigação ou bolsas. “Independentemente disso, há muitos laboratórios que a partir de Janeiro não sabem com que dinheiro vão trabalhar. Se é para conhecer os resultados da avaliação, é desejável que se conheçam rapidamente.”

Também o Conselho dos Laboratórios Associados (CLA), uma rede de 26 centros, considerou logo em Julho que a avaliação tinha “anomalias gritantes”, que deviam ser “urgentemente corrigidas”, alertando que as unidades com Bom serão extintas “na prática”. “Pode um sistema científico funcionar sem um grande número de centros de investigação de boa qualidade, embora não excepcionais? Não pode, em parte alguma do mundo.”

Porquê os novos limites?

Só os centros acima de Bom – 178 (55,2%) – passaram assim à segunda fase da avaliação. E são estes, em particular aqueles que vierem a ter Excepcional e Excelente, que disputam agora as maiores fatias dos 50 milhões de euros que a FCT anunciou ir disponibilizar anualmente para despesas de funcionamento. Além disso, os que forem classificados com Excepcional, Excelente e Muito Bom podem ainda candidatar-se a outro tipo de financiamento dito “estratégico”, sem qualquer tecto máximo, e que também sairá do mesmo bolo dos 50 milhões.

Se a ideia é verificar a qualidade actual dos centros de investigação, então por que razão se estabelecerem quotas para as classificações máximas? Perguntou-se à FCT quais são os fundamentos para essas quotas. “Os valores referidos não são quotas, mas sim guias ou referências orientadoras para os painéis de avaliação”, responde a FCT ao PÚBLICO por escrito, num emailenviado pela coordenadora do gabinete de comunicação, Ana Godinho. “O documento explicita que ‘estas linhas orientadoras não devem ser consideradas vinculativas, em qualquer forma, para os painéis’. A decisão final é sempre dos painéis de avaliação e é sempre respeitada e aceite pela FCT.”

A definição destes valores baseia-se em quê? – perguntou-se ainda. “A definição dos intervalos para a percentagem de ‘excepcional’ e de ‘excelente’ tem como base, para além das definições associadas a estas classificações (descritas no Guião de Avaliação), as propostas de classificação entretanto recebidas, associadas à primeira fase [da avaliação] e às visitas [dos peritos aos centros de investigação na segunda fase da avaliação]”, responde a FCT.

Ou seja, a FCT explica que os valores dos 10% para os Excepcionais e dos 20 a 35% para os Excelentes resultam das propostas de classificações que os próprios painéis de peritos lhe foram fazendo chegar durante as duas fases da avaliação – isto num documento que a FCT diz dirigir-se aos próprios peritos, para a reunião final da avaliação. Portanto, a FCT terá dito aos peritos aquilo que os peritos já lhe teriam dito antes a ela.

Essas propostas de classificação, acrescenta a FCT na resposta ao PÚBLICO, “foram apresentadas e discutidas na reunião final do painel [de peritos de cada área do saber] em Lisboa, em Novembro”. O que sugere que os resultados finais da avaliação poderão andar à volta de 80 centros classificados como excepcionais e excelentes.

Até ao final de Novembro, as “guias” ou “referências orientadoras” para as classificações mais altas não eram conhecidas pelos centros. Ou seja, não constavam do Guião da Avaliação, divulgado pela FCT a 31 de Julho de 2013. Nem do contrato entre a FCT e a ESF (de Abril deste ano), nem da adenda ao contrato (assinada a de 24 de Outubro deste ano), que introduziu algumas alterações no plano de trabalho da segunda fase da avaliação.

Por que razão as “linhas de orientação” não foram divulgadas logo no início da avaliação, que começou ainda em 2013, para que todos os centros conhecessem todas as regras desde aí? A FCT refere que o documento de Novembro “é um documento de orientação, dirigido aos membros dos painéis”, como mencionado acima, “e que foi tornado público a bem da total transparência do processo”. Diz ainda que os critérios e os princípios da avaliação foram divulgados antes, no também já referido Guião da Avaliação: “As orientações que constam neste documento [de Novembro] têm como objectivo especificar alguns dos preceitos e normas enunciados no Guião de Avaliação em função dos resultados concretos do exercício de avaliação em curso.”

Acima de Bom, talvez Razoável

Como vimos, para passar à segunda fase, um centro tinha de ter mais do que Bom, senão ficaria pelo caminho, ainda que as classificações finais do grupo dos 178 centros que transitou não tivessem sido atribuídas e divulgadas com o anúncio dos primeiros resultados. Mas nem todos os que passaram à segunda fase têm automaticamente direito a dinheiro para as despesas correntes, designado por financiamento-base, como se refere tanto no documento de Novembro como no Guião da Avaliação.

Isto porque, na segunda fase da avaliação, as classificações possíveis vão do Excepcional e Excelente até ao Muito Bom, Bom, Razoável e Insuficiente. E as duas mais baixas – Razoável e Insuficiente – não têm direito a nada: “A componente de financiamento-base só será alocada às unidades classificadas com Bom ou acima”, lê-se no documento de Novembro em relação à segunda fase da avaliação.

Qual é então o financiamento-base reservado para os centros com Bom ou mais na segunda fase? Um centro Excepcional poderá receber entre 400.000 euros por ano, no máximo, e 50.000 no mínimo, referem o Guião da Avaliação e o documento de Novembro, tendo em conta vários critérios. Se a nota for Excelente, o valor será entre 300.000 euros e 37.500 euros por ano. Muito Bom pode traduzir-se entre 200.000 euros e 25.000 euros. E Bom, como foi dito, dará entre 40.000 euros e 5000 euros.

A partir daqui, uma leitura possível é que o Bom na segunda fase da avaliação dá direito aos mesmos valores do que o Bom na primeira fase. Mais: um centro que ficou para trás com Bom vai receber algum dinheiro, mas um que passou à segunda fase – e, para isso, teve de ter uma classificação superior aos que ficaram para trás – arrisca-se, segundo as regras da FCT, a não receber nada. Tal como acontece com os centros com Razoável e Insuficiente que se ficaram pela primeira fase da avaliação.

Se para chegar à segunda fase era preciso ter acima de Bom – logicamente, pelo menos Muito Bom –, por que razão as unidades de investigação podem teoricamente voltar a ser classificadas com Bom, Razoável e Insuficiente? “Não é correcto dizer que as unidades que passam à segunda fase tenham no mínimo ‘muito bom’: as unidades que passaram à segunda fase não tiveram, na altura, qualquer classificação atribuída, mas tiveram de ultrapassar um limiar de qualificação que lhes permitiu passar à fase seguinte”, responde a FCT. “Esta segunda fase corresponde a um nível de escrutínio mais elevado e, por isso, qualquer classificação é possível, tal como previsto nos regulamentos.”

Se algum centro tiver classificação inferior a Bom na segunda fase, resta saber se reclamará a nota da primeira fase. Quando saírem os resultados da fase final – “provavelmente” antes do Natal, disse Leonor Parreira na segunda-feira em Coimbra à agência Lusa, acrescentando que a avaliação “está a decorrer com tranquilidade e como era suposto” –, confirmar-se-á se os painéis de avaliadores cumpriram à risca as “guias” ou “referências orientadoras” da FCT para classificar no máximo uns 80 centros. Ou se, depois de um “limiar de qualificação” acima de Bom, um centro voltou a cair na classificação. Ou, feitas todas as contas, entre as 322 unidades de investigação, quantas e quais serão mesmo deixadas à sua sorte e a quantas e a quais saiu a sorte grande.