sexta-feira, 25 de abril de 2008

SEPARAR O TRIGO DO DIESEL


Minha crónica do "Público" de hoje:

É impossível separar o trigo do diesel uma vez que, para cultivar cereais, são precisos combustíveis. Assim como são precisos combustíveis para transportar os cereais e transformá-los em alimentos.

Ora, os preços dos cereais aumentaram muito no último ano (muitíssimo nos últimos meses!), pelo que os alimentos estão, pelo planeta fora, a faltar. Nos Estados Unidos o diesel nas bombas subiu, no último ano, de 129 por cento. Mas isso não chega para explicar o aumento do preço do trigo, que no mesmo país, ascendeu 90 por cento só no último mês. O preço do trigo nunca esteve tão alto. As reservas de trigo nunca, desde a Segunda Guerra Mundial, estiveram tão baixas. O mesmo ou algo semelhante se passa com outros cereais. E passa-se em todo o mundo e não só na América. Começa a haver a ameaça de fome generalizada, que já tem originado rebeliões populares, no Bangladesh, no Egipto, na Indonésia, etc. No Haiti até já caiu o governo por causa do preço da comida. A globalização faz com que uma borboleta que bata as asas no Brasil cause uma tempestade no Texas, para usar a imagem de Edward Lorenz, o teórico do caos.

Que outros factores inflenciam a subida vertiginosa dos preços dos cereais? Há um aumento da procura, o que tem a ver com a subida dos padrões de vida, nomeadamente em países como a China e a Índia. E há questões climáticas, como, por exemplo, uma seca prolongada num país grande exportador de cereais como a Austrália. Claro que também há especulação. Mas há um factor essencial que está a ser cada vez mais discutido: a redução das áreas cultivadas para fins alimentares em benefício dos biocombustíveis. Deixou-se de se plantar trigo para se plantar soja, que dá biodiesel, para misturar no diesel, ou para se plantar milho, que dá bioetanol, para misturar na gasolina. As novas plantações de soja e de milho não são para abastecer os supermercados, mas sim para fazerem andar os carros e os camiões. Quer dizer: o trigo e o diesel estão mais ligados do que poderia parecer.

Tem havido uma enorme pressão internacional para incorporar produtos de origem vegetal nos combustíveis. A União Europeia fixou para 2020 a incorporação de dez por cento de produtos de origem vegetal nos combustíveis para transporte. Portugal, como “bom aluno”, apesar de estar bastante atrasado, quer antecipar essa meta para 2010. A Galp, além de ter participação no petróleo do Brasil, tem participação em grandes plantações nesse país e em África (as empresas mais sujas querem limpar a imagem, aparecendo com o look de empresas verdes). O argumento é que a emissão de dióxido de carbono devida à queima dos combustíveis pelos veículos seria compensada pela absorção de dióxido de carbono que as plantas fazem quando crescem. Mas saber-se-á isso de ciência certa?

Não. A revista Science publicou em Fevereiro passado dois estudos que contestam esse pressuposto. Acontece que a produção agrícola para criar biocombustíveis, feitas bem as contas, produz dióxido de carbono que, juntamente com o que surge com a queima do combustível “bioaditivado”, é muito mais do que o que é absorvido pelas plantas. E há mais críticas aos biocombustíveis. Para atingir as metas impostas será preciso reconverter extensas áreas de solos, com graves prejuízos ambientais. Além disso, o norte-americano David Pimentel, professor de Ecologia na Universidade de Cornell (de origem portuguesa), tem defendido desde há muitos anos que os biocombustíveis nem sequer são energeticamente eficientes, isto é, gasta-se mais energia a fazê-los do que se obtém no final à custa deles.

A continuar assim, a Terra poderá estar à beira do abismo. Mas, em vez de dar o proverbial passo em frente, pode ainda recuar. Organismos mundiais como as Nações Unidas estão a lançar um forte SOS. O governo britânico já vai de marcha atrás e a União Europeia irá provavelmente rever os seus planos. E há males que vêm por bem: o “bom aluno” Portugal ainda bem que se atrasou no trabalho de casa, pois esse trabalho agora vai ser outro.

4 comentários:

  1. Mas as causas não se esgotam no que disse.
    Aliás os biocombustíveis não são, ainda, a principal causa do aumento de preços.
    Na sua análise falta o factor mais importante. Os inúmeros anos que os preços dos cereais estiveram nos mínimos absolutos. Isto fez com que a área cultivada mundial diminuisse gradualmente.
    A agricultura não é uma linha de montagem automóvel que arranca com o premir de um botão ou que aumenta a produção com um simples rodar de um potenciómetro.

    Enquanto que as produções diminuiam, também diminuiam os stocks.

    A estratégia dos Bio Combustiveis, pensada pelo movimentos ecologistas, encontrou eco no políticos que viram nela a hipótese de resolver dois problemas.
    O abandono da agricultura;
    Diminuir a chantagem árabe sobre o ocidente.
    Nessa altura parecia ser uma boa ideia, pois não havia problemas de fome no mundo e além disso, sempre se aumentava a popularidade junto dos ecologistas.

    Como aliás atrás disse, a agricultura não é uma linha de montagem, vai demorar a arrancar, pelo que os próximos 4 anos vão ser dificeis.

    Já reparou que esta questão dos Biocombustiveis só começou no dia seguinte a Bush ter anunciado a sua estratégia?

    Antes era tudo rosas, apartir daí passou a ser tudo negro.

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  2. Nem todos os combustíveis são iguais. É certo que produzir bioalcool a partir do milho é muito pouco eficiente, mas a partir da cana de açúcar já é outra coisa.

    Por outro lado a planta mais usada para elaborar biodiesel é a soja, e a soja precisa de climas quentes. Porém o trigo pode ser cultivado em climas bastante mais frios do que a soja.

    Na minha humilde opinião os biocombustíveis jogam um papel pouco importante, na actual carestia dos produtos agrícolas. Entre outras coisas porque até o momento há mais projectos que realidades.

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  3. Vários erros, graves para um cientista:

    - dizer que os biocombustíveis são um factor essencial na presente crise alimentar; isso está desmentido por diversos estudos, relatórios e declarações, nomeadamente de altos responsáveis da UE. Uma boa análise é a recentemente publicada na The Economist, "The new face of hunger".

    - dizer que se reduziu a área cultivada de trigo para se semear soja; não é verdade - veja-se o relatório da FAO nº 2, Abril 2008 "Crop prospects and food situation".

    - dizer que não está provado que os biocombustíveis reduzam a emissão de CO2; isto então está provadíssimo! Vejam-se os estudos sobre o assunto da Agência Internacional de Energia (OCDE) e a proposta de Directiva apresentada em Janeiro deste ano pela Comissão Europeia ao Parlamento, com a quantificação da redução de emissão de CO2 para diversos biocombustíveis.

    É uma enorme irresponsabilidade lançar dúvidas sobre a única alternativa ao petróleo, imediata e ambientalmente correcta, que são os biocombustíveis.

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  4. Só para referir que não é verdade que esteja "provadíssimo" que os biocombustíveis reduzam as emissões de CO2. O referido estudo da OCDE omite ou, pelo menos, não apresenta claramente os dados relativos às quantidades de CO2 emitidas para a atmosfera em consequência das queimadas em regiões arborizadas, justamente para indução de plantas convertíveis em combustível. O estudo não faz a comparação entre os "ganhos" e "perdas", já para não falar na acumulação de Nitrogéno (NO) especialmente a apartir das plantações de cana-de-açúcar.

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