quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

SOBRE O ROMANCE "SILÊNCIO" DE SHUSAKU ENDO

O

O Padre Adelino Ascenso, Superior Geral dos Missionários da Boa Nova, fez uma tese sobre o romance "Silêncio" de Shusaku Endo, que serve de base ao filme com o mesmo nome de Martin Scorsese, que estreia amanhã.  Deu uma entrevista há dias ao jornalista Paulo Rocha do programa "Fé dos Homens" que passa na RTP da responsabilidade da Agência Ecclesia. A tese doutoral do Padre Ascenso, defendida na Universidade Gregoriana de Roma, está aqui:

https://books.google.pt/books?id=AEO6njtc9JsC&printsec=frontcover&hl=pt-PT&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false

Eu próprio dei hoje uma entrevista a esse programa sobre o referido filme e, mais engeral, sobre o livro "Jesuítas, Construtores da Globalização", CTT, 2016,  de José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais. O filme passará na RTP na próxima segunda-feira pelas 15h.

À procura de espécies crípticas

      
Texto recebido do biólogo José Cerca de Oliveira e colegas no Museu de História Natural de Oslo (na figura):

A aplicação de métodos de sequenciamento de ADN revolucionou a biologia. Ora, numa das suas aplicações mais surpreendentes, estes permitiram encontrar várias espécies dentro de espécies tradicionalmente definidas – equivalente ao príncipio das matrioscas, as famosas bonecas russas - as espécies crípticas.

Estas espécies demonstram, portanto, elevados níveis de divergência genética entre si, mas, surpreendentemente, não se verificam diferenças morfológicas (morfos = forma). Assim foi cunhado o termo ‘espécies crípticas’ (Grego Kryptos = escondido). A ocorrência das espécies crípticas ressalva a necessidade de um bom sistema de organização e classificação dos seres vivos, demonstrando que negligência na catalogação das espécies pode incorrer em problemas tanto a nível do conhecimento biológico das espécies (história evolutiva, ocupação de espaço ecológico, perfil biogeográfico) como também pode ter impactos económicos e na nossa saúde. Ainda assim, nem todos os cientistas estão de acordo com as definições propostas de delineamento de espécies crípticas.

O mosquito Anopheles gambiae é conhecido pelas piores razões: este mosquito é o vector que transmite o parasita protozoário da malária, responsável por milhares de mortes anuais. Recentemente descobriu-se que esta espécie é um conjunto de espécies crípticas. Morfologicamente idênticas, estas espécies parecem ser distintas pela sua preferência de habitat (por exemplo, no uso de poças de água ou campos de arroz no crescimento das larvas). Por um lado, esta descoberta revelou que nem todas as espécies são perigosas para o ser humano, por outro lado, permite a concentração de esforços nas espécies que nos atacam - informação que pode fazer diferença a salvar vidas. No combate à fome descobriu-se que o hemiptero Bemisia tabaci ataca algumas plantas de interesse económico como o algodão, melão, brócolo, repolho e a abóbora. Estudos genéticos demonstraram que esta espécie é composta por 28 espécies diferentes e esta informação abriu portas à identificação e delimitação destas espécies, revelando que distantas espécies do complexo têm diferentes preferências (umas gostam mais de repolho, outras mais de melão, …).

Contudo isto aparenta ser apenas a ponta do iceberg. O termo “espécie críptica” tem ganho popularidade nas últimas décadas e têm-se descoberto espécies crípticas em diversos ramos da árvore biológica. Um dos problemas é o trabalho exigente, especializado e laborioso que envolve a descrição de espécies e que acaba por ser descurado facilmente - muitas das espécies crípticas não chegam a ser formalmente incluídas no sistema de classificação e outras necessitam de verificação e confirmação.

Recentemente descobriram-se 16 espécies dentro do peixe Schindleria praematura. Dez foram encontradas no mesmo local (simpatria), levantando as seguintes questões aos cientistas: Como é que estas espécies evoluíram? Como é que se distribuem no espaço ecológico? Competem por recursos, habitat ou espaço? Será que evoluíram no mesmo local (simpatria) ou em locais diferentes (alopatria) tendo-se juntado mais tarde? Como se mantêm enquanto espécies diferentes?

No meio destas questões, há uma questão que sobressai: como é que estas espécies se mantêm idênticas na presença de processos que, à partida, geram diversidade tais como selecção natural e deriva genética? Possivelmente através de limitações de plasticidade genética ou plasticidade de desenvolvimento; potenciais vantagens em preservar uma certa forma; mudanças a nível fisiológico; ou, em certos casos, tratam-se apenas de espécies irmãs: espécies que se apenas se separaram recentemente e cujas diferenças se acumularão com o passar do tempo.

Com as alterações climáticas, poluição, fragmentação e destruição dos ecossistemas e poluição acentua-se a necessidade de entendermos a biodiversidade e ponderar em como a preservar. Por um lado, a ocorrência de espécies crípticas pode esconder uma parte substancial da biodiversidade mas por outro lado, poderá levar a falhas na conservação de espécies. Porém, nem tudo são favas contadas. Nem todos os cientistas concordam com os termos aplicados até então. O que é necessário para classificar uma espécie de críptica? Qual é o grau de divergência genética necessária para serem classificadas enquanto espécies diferentes? E quão semelhantes devem ser em aparência para serem consideradas crípticas?

No Museu de História Natural de Oslo temos debatido estes temas.

José Cerca de Oliveira
Siri Birkeland
Sonja Kistenich

Trude Magnussen

MANIFESTO para uma ciência com futuro e direitos para todos


Assinei este manifesto em favor da ciência e do emprego científico:

http://www.peticaopublica.com/pview.aspx?pi=ManifestoCiencia

O manifesto está aberto à subscrição de todos.

O 4.º Congresso dos Jornalistas e a Ordem dos Jornalistas.



Meu artigo de opinião publicado ontem  no "Diário as Beiras":

“A história é émula do tempo, repositório de factos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro”. Miguel Cervantes

Na altura em que escrevo este texto, decorre o segundo dia do “4.º Congresso de Jornalistas”, com a participação de mais de 700 congressistas.

Pacífica é hoje, passados tempos que residem em nossa lembrança, a necessidade da formação académica de nível superior dos jornalistas, repudiada pelos próprios profissionais que se opunham a esta medida sob o dislate de que se nasce jornalista como se nasce poeta. Recordo, a propósito, o legado de Joseph Pulitzer (1847-1911) deixado para os vindouros: “A única profissão para a qual o homem já nasce preparado e prescinde de escola - é a de idiota”!

Atrevo-me a pensar que neste congresso virá novamente à baila a polémica criação de uma Ordem dos Jornalistas (já diziam os latinos: quod capite, tot sensu) em que rebusco um debate, passado na TV2, intitulado “Clube dos Jornalistas”, com a participação de dois jornalistas e da ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas, Diana Andriga. Neste confronto, manifestou-se esta dirigente sindical contra a criação de uma Ordem dos Jornalistas, em oposição às teses favoráveis de Octávio Ribeiro, subdirector do “Correio da Manhã”, e Eduardo Cintra Torres, crítico de televisão do jornal “Público”. Em ocasião diferente, manifestou-se, igualmente, defensor de uma Ordem dos Jornalistas o falecido e antigo director do “Diário de Notícias”, Bettencourt Resendes.

Tempos depois, Vital Moreira, com sustento na tese de  que o referendo sobre esta matéria, realizado, anos atrás, rejeitava esta criação, e, por acréscimo escudado no peso institucional de catedrático de  Direito Constitucional, declarava publicamente: “Sempre me manifestei contra a criação de uma ordem profissional [dos jornalistas] - aliás, rejeitada num referendo à classe  realizado há mais de uma década” (“Público”, 05/07//2005).

Por seu lado, em reformulação do argumento do referendo, havido por Vital Moreira com vaca sagrada, não hesita Miguel Sousa Tavares, licenciado em Direito e jornalista de profissão, em retractar-se: “Opus-me no referendo feito à classe sobre a criação de uma Ordem dos Jornalistas. Hoje, revejo a minha posição: é urgente a criação de uma Ordem” (“Público”, 06/03/98).

Salvo erro, em 25 de Julho de 2005, em artigo opinião, José Manuel Fernandes, director do “Público”, perante os inúmeros desafios que se levantavam  ao exercício do jornalismo - e a que o respectivo sindicato, sob pena de exorbitar nas suas funções, não podia dar resposta, tecia pertinentes considerações em defesa de “uma associação de filiação obrigatória para todos os jornalista”. E, com isso, interrogava-se e aos leitores: “Uma Ordem?”

Ademais, insurgia-se ele contra o facto de à Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas, presidida por um juiz e com representação dos jornalistas e associações empresariais, poder ser delegada funções do foro de uma ordem profissional

Sem sombra de dúvida, ao arrepio dos seus detractores - muitos deles oriundos da própria classe - e a incorporação da legião de indecisos, mais dia menos dia, o pesado fardo da dificuldade na criação de uma Ordem dos Jornalistas será alijado, deixando de poder ser passada a imagem de que a preocupação principal da classe reside em questões do foro laboral, como sejam desemprego e pequenos salários. A questão está só em saber quando e com que prejuízo para os seus actuais defensores e para a exigência ética da nobre profissão de jornalista. 

Quer se queira quer não, esta situação corre o risco de configurar um atestado de inépcia, ou simples falta de interesse, dos jornalistas em se baterem, de fileiras cerradas, por uma organização profissional de direito público com enormes responsabilidades de (in)formação em sectores de indiscutível importância social, económica e política.

FUTURÁLIA 2017



Como membro do Conselho Científica da Futurália, venho divulgar o banner dessa feira.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

CLAVIUS BIBLIOTHECARUM


Catálogo das bibliotecas das casas religiosas portuguesas (mosteiros, conventos, etc.) organizado por Luana Giurgevich e Henrique Leitão.

http://clavisbibliothecarum.bnportugal.pt/

Também existe em forma de livro.

TRAILER DE "SILÊNCIO" EM PORTUGUÊS DESENHADO PELO P. NUNO BRANCO


http://nit.pt/coolt/cinema/trailer-silencio-criado-portugues

EPISÓDIOS NA VIDA DE UM POLIO

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Vou apresentar no dia 15 de Fevereiro, pelas 15h,
no Museu da Ciência de Coimbra o livro "Episódios da vida de um Polio", de Ilídio Barbosa Pereira, seguindo-se um debate sobre o tema da poliomelite.

http://www.museudaciencia.org/index.php?module=events&option=&action=&id=738

Está patente naquele museu uma exposição sobre o assunto, "Memórias Feridas Corpos Revelados" com extraordinárias fotos que podem ser consideradas chocantes.

Na imagem: A exposição na Universidade de Leon.

Portugueses no Japão

Caixa que surge no livro "Jesuítas Construtores da Globalização" , de José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais, CTT, 2016, um livro tornado actual pela próxima estreia de "Silêncio", o filme de Martin Scorsese:

"Os portugueses chegaram ao Japão em 1542, ini­ciando-se o labor missionário nessa região passados sete anos, quando chegou Francisco Xavier. Os Je­suítas, na sua maioria portugueses, foram os protago­nistas dessa tarefa de missionação que, numa primeira fase, conheceu um êxito impressionante. Chegou a ha­ver mais de trezentos mil cristãos no Japão. O cato­licismo acabou por ser severamente reprimido em 1587 e, de forma sistemática, a partir de 1614, no processo de unificação política daquele país. As perseguições foram terríveis: 26 cristãos, entre os quais três pa­dres jesuítas, foram crucificados em Nagasaki, razão que mais tarde foi considerada suficiente para a sua canonização. Muitos cristãos, cerca de sessenta mil, permaneceram depois com práticas na clandestinida­de – foram os chamados «cristãos escondidos». Só no final do século XIX voltou a haver nas ilhas nipóni­cas tolerância para com os cristãos.

Os Jesuítas levaram a Revolução Científica ao Ja­pão, incluindo o uso do telescópio. Foram também os Jesuítas que introduziram nessas ilhas a medicina oci­dental, criando vários hospitais. Distinguiu-se nessa atividade o padre Luís de Almeida (1525-1586), o pri­meiro português a chegar a Nagasaki (em 1567), que se apoiou no modelo das misericórdias portuguesas. Hoje existe no Japão, na cidade de Oita, um hospital com o nome de Luís de Almeida."



Pormenor dos biombos Namban Bárbaros do Sul (1593)



Mártires de Nagasáqui, escola de Cuzco (peru). Da peerseguição aos cristãos resultaram, ennrre 1597 e 1637, duzentos  e cinco mártires.

 

"LOGO À NOITE VAI ESTAR FRIO"


No próxima sábado, vou apresentar em Coimbra (casa da Escrita) o livro mais recente de António Canteiro baseado na biografia de António Nobre.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

RELIGIÃO E FINANÇAS


Francisco Louçã e Nuno Martins debatem no Porto o tema "Religião e Finanças", no quadro do ciclo "Palavras no Tempo."

Vai ter lugar mais uma sessão do projeto 'Palavras no Tempo', uma parceria da Universidade do Porto, do Centro Nacional de Cultura e da Universidade Católica, cuja descrição e informações adicionais se encontram em:

http://www.pnt.up.pt
A sessão terá lugar no PORTO na Escola secundária Clara de Resende, Porto.
O evento deste mês, tem o tema "Religião e finanças" e conta com Francisco Louçã e Nuno Martins. 
• Será pelas 10h 30m, no dia 20 de janeiro de 2017, sexta-feira e a entrada é livre.
O evento seguinte será no Porto, na Faculdade de Economia da Universidade do Porto, com o tema "Religião e trabalho", no dia 28 de março de 2017, terça-feira, 18h 30m. Os convidados serão Maria Pilar González e Bagão Felix.

Os eventos futuros podem ser consultados em
www.pnt.up.pt/?cat=11

Para submeter a coorganização de algum evento no futuro, poderá aceder à opção 'pedir um evento', no menu esquerdo da página http://www.pnt.up.pt

Gratos pela participação e pela eventual divulgação desta missiva junto de potenciais interessados.

A organização de "Palavras no Tempo"                      

NOVIDADES DA GRADIVA - JANEIRO

Informação sobre as novidades da Gradiva de JaneiroOs livros estarão à venda a partir de dia 17 de Janeiro.



António Oliveira e Castro
Coleccionadores de Sonhos

Guerra e amor. Esperança e desencanto. Um livro que nos leva por diferentes destinos humanos, tempos e espaços. As páginas percorrem a História de uma Angola nos últimos anos do Império colonial, viajam ao período das lutas li­berais do século XIX, e conduzem ainda o leitor a um presente (ou quase presente) com o Porto como cenário imediato e o país em pano de fundo. Numa nação habitada pelo desemprego, por políticos que governam mal, por gentes que passam dificuldades, há quem decida não baixar os braços, acredite na mudança, defenda convicções. Nesta narra­tiva, ao mesmo tempo intensa e delicada, um baú junta‑se ao enredo e às personagens principais. Que segredos es­conde? Descubra‑os, num livro que se lê com muito gosto!
«Gradiva», n.º 164, 496 pp., €19,30
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/9053
Manuel Nunes
A Aluna que Bateu no Professor

A educação em Portugal foi levada durante mais de 40 anos a uma situação dramática. A posição dos professores foi posta em causa. E abriu‑se uma brecha para o impensável. Este é um livro em que a ficção se mistura com a realida­de para contar aquilo que até parece mentira. Há alunos que batem nos professores? Sim. Perceber os quês e os por­quês dessa realidade a que se chegou é imperativo. Mais ainda hoje em que há fortes razões para temer que a escola que aí vem seja uma exacerbação dessa «escola» que durante tanto tempo houve. Uma narrativa tocante que revela a realidade como só a ficção pode fazer.
«Fora de Colecção», n.º 485, 184 pp., €12,00
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/9054




Annabela Rita e Fernando Cristóvão (coord.)
Fabricar a Inovação
O processo criativo em questão nas ciências, nas letras e nas artes

Como se faz acontecer a inovação? Esta pertinente pergunta é hoje, mais do que nunca, de importância crucial, atra­vessando campos tão diversos como os das ciências, das letras e das artes. E essa diversidade é bem espelhada nes­te livro, para o qual contribuíram autores especialistas em distintas áreas, enriquecendo um tema que a todos interes­sa. Ao mesmo tempo, trata‑se de uma obra que homenageia um grande criador: o escultor e arquitecto Charters de Almeida. Uma reflexão riquíssima a não perder.

«Fora de Colecção», n.º 486, 400 pp., €19,00
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/9055

Para Fevereiro, uma introdução actualizada ao Populismo:


ENCONTRO DE HISTÓRIA DA CIÊNCIA NO ENSINO

Informação recebida dos organizadores: 

É com grande satisfação que a Comissão Organizadora do 2º Encontro de História da Ciência no Ensino (2EHCE), a realizar em Coimbra nos dias 26 e 27 de Maio de 2017, informa que a página web (https://www.uc.pt/fctuc/dquimica/2EHCE) do encontro já está disponível online.

Gostaríamos muito de poder contar com propostas de comunicações. Esperamos também que possam ajudar na divulgação do encontro junto das  instituições e das organizações a associações a que pertencem.

Como está anunciado na página (https://www.uc.pt/fctuc/dquimica/2EHCE/EB) existe a forte possibilidade  de se publicar um volume na Imprensa da Universidade de Coimbra (IUC) com os trabalhos submetidos ao Encontro, sendo a edição da responsabilidade dos membros da Comissão Organizadora.


Comissão Organizadora,

Sérgio Rodrigues (UC), com Ana Luisa Santos (UC), Carla Morais (UP), Clara Vasconcelos (UP),
Elsa Gomes (UC), Isilda Rodrigues (UTAD) e Jorge Azevedo (UTAD)

DEBATE SOBRE POLÍTICA CIENTÍFICA EM COIMBRA


A sessão de Coimbra do Debate Público sobre o Sistema de C&T, o Ensino Superior e o Emprego Científico realizar-se-á no dia 17 de Janeiro de 2017, das 11h às 13h. A sessão terá lugar no auditório da Faculdade de Ciências e Tecnologia, no Polo II da Universidade de Coimbra.

Para enquadramento da sessão é sugerida a consulta dos documentos:






O COMPRADOR DE LIVROS QUE CAÇA PECHINCHAS

Fui retratado como coleccionador de livros no Notícias Magazine que saiu ontemcom o DN e o JN:




PETIÇÃO EM FAVOR DA ESCOLA SECUNDÀRIA JOSÈ FALCÃO EM COIMBRA


O governo, este e os anteriores, não têm olhado para grandes liceus históricos nacionais com a atenção que eles merecem. É  o caso do Liceu Camões, em Lisboa, e do Liceu D. João III, hoje Escola Secundária José Falcão, em Coimbra. Recebi lá sete anos da minha formação, participei lá em muitas actividades (como a redacção do jornal "O Estudante") e hoje faço parte da Associação dos Amigos dessa escola.

É como Amigo dessa escola que venho pedir para assinarem a petição em favor de obras de remodelação nesse liceu (digo liceu porque é mais curto e mais bonito!). Basta assinar aqui;

http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=ESJoseFalcao

domingo, 15 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES E A CIÊNCIA



Agora que diminuiu o vendaval de artigos sobre Mário Soares, é curioso reparar que pouco se  falou sobre a sua relação com a ciência. Isso é natural pois Mário Soares era pela sua formação essencialmente um homem de Letras e nos seus governos a ciência em Portugal, em períodos económicos difíceis (1976-78 e 1983-85), era ainda bastante débil. A ciência só ganhou realmente estatuto governamental quando, em 1995, José Mariano Gago se tornou o primeiro ministro da ciência e tecnologia no primeiro governo de António Guterres. Mas, nas Presidências da República de Mário Soares (1986-1996), o Presidente da República, bem assessorado, dedicou alguma atenção à ciência.

Organizou na Fundação Gulbenkian entre 1987 e 1989. uma série de conferências intitulada "Balanço do Século", comissariada pelo filósofo Fernando Gil, que foi inaugurada pelo filósofo e jurista italiano Norberto Bobbio (na impossibilidade da presença de Karl Popper, que só veio depois) e encerrada por Eduardo Lourenço. Além dos escritores e pensadores Mário Vargas Llosa e Umberto Eco, os filósofos  Norberto Bobbio,  Karl Popper e José-Luís Aranguren, apresentaram conferências cientistas como o matemático René Thom (medalha Fields), os químicos Manfred Eigen e  Iliya Prigogine (os dois Nobel da Química), o biólogo François Jacob, o antropólogo Marc Augé e os economistas Herbert Simon e  John Kenneth Galbraith. De todos estes nomes, só estão vivos Eduardo Lourenço, Mario Vargas Llosa, Manfred Eigen e Marc Augé.

Mário Soares escreveu no seu balanço do "Balanço do Século",  livro publicado pela Imprensa Nacional em 1990:

"Anoto meros tópicos. não me permito tirar ilações. E, no entanto, há uma que ressalta com evidente clareza: a extraordinária lição de espírito crítico e de humildade perante a soberba intelectual por vezes sugerida, aos espíritos menos preparados, pelos espantosos progressos da Ciência e da Tecnologia" Humildade crítica que é uma lição a tirar não só do domínio da Ciência como também da Política. Depois das certezas das políticas ditas científicas, que tanto mal e tanto sofrimento provocaram, insinuam-se, finalmente, as dúvidas, compreendendo-se melhor que as concepções políticas têm muito pouco de científico e que à arrogância das convicções devem sobrepor-se sempre o experimentalismo de soluções alternativas e o esforço de concertação entre interesses e opiniões divergentes. Este ensinamento, que o progresso do conhecimento científico confirma, veio trazer à política e à intervenção democrática, neste final de século, mais humildade, mas também, paradoxalmente, mais ambição. sabemos hoje quão fácil e cometer erros em política e nos enganarmos; em que medida precisamos sempre do concurso dos que de nós divergem, para corrigirmos erros e naturais insuficiências. Mas é isso, também, que nos torna mais ambiciosos, por, porque acreditamos que, em política não há soluções definitivas nem verdades absolutas. No final do milénio não acreditamos mais porventura no progresso necessário, alimento obrigatório dos misticismos revolucionários. Mas nem por isso deixámos de acreditar na possibilidade de progredir - o que representa a essência e ambição da Democracia."

Veja-se a influência que nele tem a filosofia de Popper: o progresso com base no erro tanto na ciência como na política. Mais adiante escreveu Soares:

"Temos vindo a acompanhar, atentamente, a evolução da nossa Comunidade Científica - buscando com ela um diálogo que, para mim, tem sido enormemente enriquecedor e a encorajar o seu peso crescente na sociedade e o reconhecimento da problemática que coloca, como essencial à definição de uma estratégia de desenvolvimento e modernização."

Em ligação com aquela iniciativa e em colaboração com a JNICT (onde José Mariano Gago esteve entre 1986 e 1989), Soares impulsionou uma outra iniciativa, realizada também num dos auditórios da Gulbenkian, "A Ciência como Cultura".  O livro, com este mesmo título, foi também publicado pela Imprensa Nacional (1992), com um instrumento do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra, na capa. Participaram o físico José Mariano Gago (que falou sobre "Ciência e saber Comum", os filósofos Fernando Gil, Gilles Granger e Jean Petitot, a bióloga Maria de Sousa e o químico Sebastião Formosinho. O propósito do colóquio foi claramente definido por Soares no seu discurso inicial:

"A ideia de realizar este Colóquio nasceu da vontade política de contribuir para a criação, no nosso país, de uma consciência cada vez mais profunda, exigente e rigorosa do valor insubstituível da Ciência, no tempo presente, e do seu papel fundamental para a criação de uma nova mentalidade, imprescindível no lançamento de uma acção coerente e determinada, em favor do desenvolvimento de Portugal."

De novo, Soares relacionava a ciência com a cultura e com o desenvolvimento. Foi ele, numa fase final do seu mandato presidencial, que deu posse ao governo de Guterres onde José Mariano Gago foi ministro. Também para a comunidade científica nacional a morte de Mário Soares foi uma enorme perda.

"CONVENTO-HOSPITAL DE S. JOÃO DE DEUS. CENTRO CLÍNICO DA GNR"


O título de cima é o de uma obra coordenada pelo historiador Augusto Moutinho Borges e pela arquitecta Sandra Gameiro Baptista,publicada pela GNR em 2016. Com um excelente aspecto gráfico e ricamente ilustrada a obra, publicada pelos 50 anos do Centro Clínico da GNR, descreve o Convento de S. João de Deus, onde aquele centro se situa (às Janelas Verdes, em Lisboa). O prefácio é do tenente-general Manuel da Silva Couto, Comandante-Geral da GNR e a apresentação do coronel José Leite Machado, director do Centro Clínico.

No capítulo I é tratada a História, apresentando São João de Deus, a fundação do Convento-Hospital e o seu quotidiano, assim como a Ordem Hospitaleira de S. João de Deus e os Hospitais Militares em Portugal, No II capítulo II é apresentada a arquitectura do Convento e a arte (igreja, pintura mural e azulejaria). Uma cronologia e um posfácio pelo coronel Reinaldo Valente de Andrade, que chefia a Divisão de História e Cultura da GNR completa a obra.

S. João de Deus, o patrono dos hospitais, doentes e enfermeiros em todo o mundo e santo da Igreja desde 1690 é - nem todos o sabem - um santo português, pois nasceu em 1495 em Montemor-o-Novo, no Alentejo (com o nome de João Cidade), tendo morrido em 1550, em Granada, Espanha. Depois de uma conversão tardia, que foi antecedida por uma vida de pastor, soldado e livreiro, fundou em 1540 um Hospital em Granada que é um dos primeiros hospitais modernos, por estar mais avançado que os hospitais medievais. Fundou também a Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, que em Portugal (onde chegou em 1606. com a vinda de irmãos para Montemor-o-Novo) teve a seu cargo uma rede de hospitais militares que mostrou a sua utilidade nas Guerras da Restauração, cuja sede era precisamente o Convento de S. João de Deus em Lisboa. O edifício do mosteiro foi doado por D. António Mascarenhas, deão da capela real, em 1629, no período filipino, à Ordem Hospitaleira de S. João de Deus. No século XIX, após a extinção das ordens religiosas, o hospital de S. João de Deus passou a ser hospital da Guarda Real da Polícia de Lisboa, tendo passado para a GNR, fundada em 1911, em 1920. O edifício serviu várias funções na GNR (era chamado Quartel das Janelas Verdes) até ser aí inaugurado em 1966 o Centro Clínico da GNR.

Augusto Moutinho Borges tinha defendido a sua tese de doutoramento em 2008 sobre "Os Reais Hospitais Militares em Portugal administrados e fundados pelos Irmãos Hospitaleiros de S. João de Deus , 1640-1834, na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa (publicada em 2009 pela Imprensa da Universidade de Coimbra) e publicou recentemente a obra premiada "Azulejaria de S. João de Deus em Portugal, 1615-2015, na Caleidoscópio. De facto, os azulejos,  representando muitas vezes cenas da vida do santo, são um dos elementos artísticos mais notáveis dos hospitais reais de S. João de Deus.

Estão de parabéns os autores por esta obra que revela um rico património ignorado praticamente de toda a gente dado o facto de o edifício ser uma instalação militar. Há muito Portugal desconhecido!

Na imagem: Tratamento aos loucos no Hospital Real de Granada (painel de azulejos no Convento-Hospital). Sim, eles eram açoitados. O mesmo aconteceu com S. João de Deus, que foi a certa altura da sua vida considerado louco.

"Não consigo responder às perguntas sobre os meus próprios poemas"

A ideia de que as escolas devem "prestar contas" tem feito proliferar inúmeras entidades externas especializadas em avaliação sumativa (provas, testes, exames), oficiais ou particulares (das quais não estão excluídas empresas) de carácter local, regional, nacional ou transnacional.

Esta nota diz respeito apenas à avaliação da aprendizagem por parte dessas entidades.

Focalizadas no que se encontra prescrito no currículo - o que está certo - e respeitando exigências de objectividade - o que também está certo -, descuidam "subtilezas" que fazem toda a diferença. Uma delas é a natureza do próprio conhecimento: o conhecimento, mesmo dentro da mesma disciplina, não pode ser medido todo da mesma maneira nem com o mesmo grau de objectividade porque a sua natureza é diversa.

Por exemplo, no âmbito da língua materna, uma coisa é medir o domínio de regras gramaticais outra, bem diferente, é medir a análise de um poema.

Em termos de itens, se o domínio de regras gramaticais pode ser testado objectivamente através de escolha múltipla, a análise de um poema requer perguntas de resposta aberta, sempre mais subjectivas. Nestas, especialistas de grande prestígio vão mais longe e dizem que o texto literário, sendo da ordem da arte, não pode ser objecto de avaliação sob pena de o seu sentido - fruição - ser desvirtuado.

Estas considerações são a propósito de uma notícia que li no jornal Expresso da semana que passou, e que foi originalmente publicada no The Huffington Post na qual se contava que certa professora e escritora norte-americana, Sara Holbrook, viu um dos seus poemas integrado num exame do ensino básico de carácter estatal - do estado do Texas -, realizado por uma das entidades a que acima me referi - o STAAR: The State of Texas Assessments of Academic Readiness. Declara ela que tentou responder às questões mas, obviamente, não conseguiu:
Perguntas como “porque é que o autor fez uma pausa” em determinado local ou “porque utilizou maiúsculas naquele verso” e muitas outras, são para Sara Holbrook um absurdo. “O que é que isto mostra da capacidade de leitura de um miúdo?”, questiona. Estas são perguntas válidas, no entender da escritora, única e exclusivamente em discussões e não em testes de escolha múltipla (...) “Qualquer teste que questione as motivações do autor sem lhe ter perguntado primeiro, é um disparate. Quem constrói os testes faz isto sobretudo com autores que estão mortos e não podem protestar. Mas eu não estou morta." (in Expresso).
E não conseguiu responder porque não eram perguntas ajustadas ao tipo de conhecimento que constaria no currículo e que eventualmente teria sido ensinado e aprendido.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Rede GPS continua a colocar cientistas portugueses no mapa

Meu texto na última newsletter da rede GPS:
O GPS está a colocar no mapa os cientistas portugueses com carreiras internacionais. Novas bandeirinhas vão sendo acrescentadas como sinais da presença de portugueses qualificados em todo o globo. A iniciativa teve o mérito de chamar a atenção para o talento português na diáspora. Os media passaram a dar voz a quem a não tinha e os portugueses passaram a ter consciência do enorme potencial de que o país dispõe e que devia aproveitar.

Ninguém deixa de ser português e de querer ajudar o seu país por estar longe. É preciso agora que o país se desenvolva ouvindo os que querem ajudar, continuando lá fora ou voltando. Parece que Portugal quer ouvir os cientistas GPS, agora que sabe onde estão. E parece que também há empresários que os querem receber. Por exemplo, a AEP- Associação Empresarial de Portugal lançou o programa “Empreender 2010 – Regresso de uma geração preparada”. Segundo a AEP, “todos os anos mais de 43 000 jovens saem do país, sendo 26 mil licenciados.” A intenção é boa, mas uma coisa é certa: os GPS não vão trocar lugares onde são valorizados por bolsas, contratos precários ou simples subsídios. O país, se quer ter futuro, tem de assegurar um futuro decente aos seus jovens, em particular aqueles com altas habilitações que estão no estrangeiro e queiram regressar.

Bom Ano para todos!

MEMÓRIAS FERIDAS, CORPOS REVELADOS

Informação sobre exposição  no Museu de Ciência da UNIvERSIDADE DE COIMBRA:

INAUGURAÇÃO 13 DE JANEIRO | 18H00 

Memórias feridas, corpos revelados: Itinerários contra o esquecimento - a poliomielite e a Síndrome pós-pólio na Península Ibérica
 é uma exposição criada pelo Espacio de Cultura Científica da Universidade de Salamanca.
No dia 21 de junho de 2002 foi declarada a erradicação da poliomielite na Região Europeia, uma doença viral que afetou fundamentalmente a infância durante grande parte do século XX, marcando-a com sequelas paralíticas. A sociedade apressou-se a apagar da memória o horror da epidemia e, ao fazê-lo, esqueceu também os que lhe sobreviveram. Ameaçados agora pelo aparecimento da síndrome pós-pólio, rebelam-se contra a invisibilidade, revelando com dignidade e orgulho os estigmas no corpo nu, as pegadas de uma legitimação imposta, uma memória coletiva contra o esquecimento de uma doença que ainda persiste em alguns países.
Em colaboração com o Espacio de Cultura Científica da Universidade de Salamanca, o Museu da Ciência celebra também os cinquenta e dois anos do Plano Nacional de Vacinação em Portugal que se iniciou com a vacina contra a poliomielite.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Estranho espinho o da insatisfação


Prefácio do último livro de Sebastião Formosinho "A Esperança, Utopia impossível?: da insatisfação como via do (que podemos) conhecer, e esperar, e devir", em co-autoria com J. Oliveira Branco, publicado recentemente pela Imprensa da Universidade de Coimbra, que aqui se republica em homenagem a ele, chamando a atenção para o livro (que completa uma pentalogia sobre ciência e religião):

«Deus imortal. Que século
eu vejo abrirse diante de nos!
Como eu gostava de tornar a jovem.»
ERASMO

Este livro nasce da insatisfação. E nasce para interrogar esta nossa condição, de todos. A atenção que (também) lhe prestamos não é ‘muro de lamentações’: tenta entender algo mais do humano. Que, justamente, não se contenta com o factual empírico. Que o homem se acomode ao que lhe dá gosto e ao que é fácil, parece… demasiado natural. O que surpreende, e ‘faz questão’, e desperta interesse, é o afã da inquietação que sempre nos impele mais e mais. É como se o nosso centro de gravidade não coincidisse com o que já somos. Porque esta centração no ainda-não? E a ambivalência que a caracteriza?

É uma questão questão que preside ao próprio homem: é-nos anterior. Será inerente a consciência como ‘instância de opções’; mas é um modo‑de‑ser sobre o qual não temos opção. Estranho espinho o da insatisfação! Qual pode ser o significado de sermos assim? Podíamos falar da insatisfação como facto existencial − e histórico. E como paradoxo. Ou como risco. Da consciência, e da sociedade. A insatisfação que dá asas, pode também precipitar no “desastre” do ser. E pode ser estímulo: Também o ‘espinho’ desperta. Alerta para um (imenso) leque de possibilidades. E por tornar fecundas as lições do passado e as demandas do presente, é pertinente falar da insatisfação como atitude.

Será que poderíamos humanizar-nos sem ela? Mas por outro lado, será que − com ela − podemos ser felizes, e realizados? E porque a questão se põe assim é forçoso perguntar: Será que a esperança ‘faz sentido’? E como − em que base − é que a esperança pode ser consistente?

É todo um encadeamento de boas razões para os dois autores sentirmos a interpelação desta problemática. Estamos, é claro, com aqueles que são sensíveis ao desafio de uma temática séria e consistente. E densa de significado para a vida e a cultura. Apesar de, nestas questões, o perguntar jamais se esgotar, é necessário − e vale sempre a pena − interrogar(se). Por mais que viva, o homem é ser ‘de procura’. Todo o afã da existência pessoal, e das sociedades, e da história, se deve a este singular desacerto que não nos deixa estagnar. Desacerto que é inerente ao conhecimento humano, “o que conhecer”, e ao modo pessoal de “como conhecer”. Como Michael Polanyi nos revela, em consonância com o pensamento de Santo Agostinho e de Santo Anselmo; a crença precede o saber.

É um impulso para voar que lança a ave pelos ares. Embora não saiba nada do ar, voa. As asas são um meio. O estímulo tem-no a ave em si mesma. É‑lhe intrínseco. Estranhas são as aves (domésticas ou não) que, apesar de terem asas, desistiram de as usar. Outras há, que aprenderam a nadar: pescam em águas mais fundas. E outras que, para se alimentar, debicam no lodo. Trocaram a largueza do alto pela viscosidade escura. Esquecidas as alturas, já lhes perderam o horizonte. Porque este já não lhes fala, não se desprendem do chão. A imagem não pretende senão sublinhar isto: O impulso da esperança precisa de ser cultivado. O que na sobrevivência das aves é diversificação bem sucedida, no homem pode ser demissãoPosto que tem ‘asas’ para mais, não é justo − não está a sua altura − remeter‑se ao menos. No homem, ficar só pelo que é ‘natural’ pode levar a abdicação de si.

Aliás quanto mais avança a história mais envolvente é o desafio que se levanta. Viver como humanos no séc. XXI requer muito mais maturidade cultural do que no tempo dos gregos, cartagineses ou romanos. A medida que vivemos, o horizonte dilata-se. E ninguém o esgotará nunca. De (tão) insatisfeitos que somos por constituição, sempre tendemos a mais. Sempre descontentes do já havido. Não há quem não tenha que lamentar. Cada um acerca de si mesmo. E de todos. E da história que o passado nos legou.

Ora, se o homem está sempre em desfasamento com tudo o que vamos sendo e sonhando, aceitemos indagar o que isto significa. O homem aspira a ser mais si‑próprio. E se em algum aspecto, então é porque precisamos de o ser por inteiro. Quem se fixa no já‑sido, estará a ver de modo deformado. Precisa que o ajudem a libertar‑se. O que nos torna livres é a Verdade (Jo. 8, 32). Palavra profunda. Com muito mais alcance e força de aplicação do que se supõe numa visão estática, ou acomodada.

E isto não pode ser tomado a nível apenas individual. A verdade é dinâmica. Abarca toda a ordem do Ser. E toda a história. Também a das culturas e das religiões. Não há Verdade onde a vida e a história é idílica para uns e trágica para os outros todos. Enquanto houver quem o não perceba e respeite, continuamos na pré‑história. Na sua crueza, e injustiça, é esta a questão da humanidade. Por muito que as ideologias e as regras da civilização dita ‘global’ andem a convencer o mundo do oposto. E esta busca de verdade começa em muito a nível individual, mas só se torna eficaz quando a constelação de convicções que gera se volve em crença de uma comunidade, em paradigma, motor de adaptação e evolução.

É certo que o homem se faz (e é feito) de 'sim e não'. Em des-equilíbrio dinâmico. Dialéctico. Somos, na medida em que animados por um ‘princípio de insatisfação’ e um ‘princípio de adaptação’. Ou de acomodamento. «Se me deito, digo: ‘Quando chegará o dia? Se me levanto: ‘Quando virá a tarde?’ E encho‑me de angústia até chegar a noite» (Job 7, 4). É o nosso modo-de-ser, neste mundo. E o de tudo aquilo de que se compõe o humano. A experiência e o sonho, a sociedade e a história, a criatividade e o crescimento, a cultura e o dever dela, a vida e a morte. A existência e a história ensinam muito. E exigem também muito. Naquilo que se faz, e naquilo que é preciso seja feito. Justamente porque a história não é só um movimento factual, dominado pela ‘lei’ dos mais fortes. É também − e precisa de ser − rumo de dever-ser. Em ordem a humanização de todos. E isto, é preciso que valha em todas as frentes. No direito, na economia, política, nas ciências, artes, e nas religiões também. Na presente obra dedicamos especial atenção a duas frentes que muito moldaram a humanidade ao longo da história − a religião e a ciência −, nos contextos de diversas culturas, e através dos seus conflitos desequilibradores mas também dos seus diálogos conciliadores, e da insatisfação que sempre geraram.

Quanto mais ameaçado, e ameaçador!, seja o desequilíbrio, dinâmico!, mais reflectida (e competente) tem de ser a insatisfação cultural e social. E mais apurada a utopia. Mas será que os agentes da história actual cultivam a Utopia? E a qualidade das utopias? Quanto mais abrasiva a crise da esperança, mais aguda se torna esta pergunta. A questão vale para todos os tempos; mas hoje tornou‑se muito mais inquietante. O que formos ou deixarmos de ser − na cultura, na ecologia, na economia, na percepção de horizontes − terá consequências graves para todos os vindouros. Nos tempos de hoje tal revela‑se particularmente pertinente na ciência e nas religiões.

E As épocas da História não obedecem a um ritmo homogéneo. E em todas coexistem sensibilidades e tentativas diversas, em face das solicitações pendentes. Erasmo (1466‑1536) vibra com o seu tempo. No mote em epígrafe pulsa a euforia do Renascimento. Porém Erasmo escrevia‑o no início de 1517: o ano em que ia dar‑se o rompimento de Lutero com Roma que faz agora cinco séculos. Não era um tempo fácil. São os grandes desafios que despertam as atitudes que marcam a História, e no caso de Lutero e Erasmo marcou e ainda hoje marca toda a Europa e as suas culturas. Tem pertinência evocá‑lo a propósito do tempo que vivemos agora. E contudo, é duvidoso que o sentir de Erasmo ocorra a grande maioria dos homens. Pelo menos na perspectiva de um desafio total. Abundam os entusiasmos ligeiros. A leveza tornou‑se atitude comum, modo de vida, e sistema geral da sociedade [1]. Mas não é a transição do tempo que faz o porvir. Só pode abrir Futuro quem souber antecipar‑lhe Valores que respondam, realmente, as carências de cada tempo. Entre o rasgo de homens como Erasmo e as euforias e desenganos do imediato, ou cabe ‘o repto da Esperança’ ou não cabe. E valores que carecem de alicerces, e estes apelam também a crenças.

Como e que esta dinâmica pode ser entendível? Já por aí sondámos no volume anterior. Estas coisas tem o seu nexo. Conforme o objecto (pre)tendido na ambivalência, assim será positiva ou negativa a dinâmica. E o(s) sujeito(s) que se rege(m) por ela. Ajude‑nos uma figura − aliás de ordem diferente: Veja‑se, por exemplo, uma ‘massa gravitacional’. Se é uma grandeza pequena, será arrastada (atraída, dizia‑se na física newtoniana). Mas quanto maior a sua grandeza‑energia, mais ela arrastará (atrairá). Na física de Einstein, a “atracçao” é entendida como efeito da curvatura do espaço. Resultado da massa dos corpos em presença. É por força da sua com‑posiçao que os corpos seguem a respectiva trajectória.

Até aqui, o simile. Aludimos a ordem do Ser. A 'força da esperança' é positiva. Gera crescimento. Mais‑ser. A da des‑esperança, negativa. Só pode acarretar arrastamento. E alienação. Conformismo. Descalabro (em aceleração: espiral dispersiva). Onde o ‘vazio’ seja reconhecido como vazio, pode ainda caber abertura a positividade. É isto que está pendente quando se fala da ‘humanidade’. 

Eis a nossa questão. Considerar a Insatisfação como ‘forma’ (o constitutivo) do humano é despertar para as possibilidades de uma Humanização realmente renovada. Utopia? Também indagamos sobre o que distingue a Utopia genuína das utopias ilusórias. E se importa a humanidade − e se é preciso − construir o porvir! Não só de homem‑a‑homem, mas em relação a todos. E em favor também dos vindouros. Também em relação a eles há deveres de justiça e de humanidade. Não é de fiar a cultura ou a religião que o ignore ou menospreze. E esta é uma outra vertente. O horizonte não o poderia ser ‘por inteiro’ se houver deficit na Humanização que somos chamados a prosseguir. Entre todos e com todos. E quantos acertos de justiça, caridade e amor e desacertos de poder, vaidades e invejas encontramos ao longo da história nas Igrejas e na própria ciênciae que vão moldando a nossa insatisfação.

É inegável que sempre aspiramos a mais. Quer dizer: As modalidades de qualquer horizonte parcelar que os homens possam alguma vez experimentar serão sempre aquém da Aspiração do HumanoO que (confusamente embora) deixa entender que é outra a ‘medida’ para a qual nos sentimos em tensão. Eis o ponto. Este Horizonte outro não pode ser equacionado em termos de referencia concreta (categorial). Deixa‑se entrever nele como que um ‘Fôlego’ que excede todo o individualizável. O mais árduo - e desafiante - da forma do Humano é esta ‘condição’ nossa: A vocação para viver no já (do concreto) o Horizonte de um Ainda-não − que não se deixa resumir as modalidades do particular. E é isto, justamente, que nos anima e entusiasma. Será impossível a Utopia − e a Esperança?

A nossa reflexão situa‑se na sequencia da tetralogia que publicámos antes − 1. O brotar da Criação. Um olhar dinâmico pela ciência, a filosofia e a teologia; 2. A Pergunta de Job. O homem e o mistério do mal; 3. O Deus que não temos. Uma historia de grandes intuições e malentendidos; 4. A Dinâmica da Espiral. Uma aproximação ao mistério de tudo. Faltava esta temática. E se ela é actual! Com a seriedade intelectual e o método já conhecidos, os dois autores temos o gosto de partilhar a nossa análise. Não a quisemos excessivamente sistemática (ou académica), mas entendemos que deve oferecer coesão bem estruturada. Para que possa dialogar com leitores/as de cultura sólida e exigência de pensamento.

O livro quer ser uma homenagem a todos quantos, apesar dos contratempos da vida, continuam a acreditar na Esperança. Os obstáculos, e os espinhos, não são realmente tudo. Mais forte que todas as dificuldades que se atravessam na vida das pessoas, e na história dos povos, dos países, e das religiões − muito mais forte do que isso, é a força da Esperança. Levar tudo isso a conta de evasão, resignação, ou derivação de utopia ultimamente ilusória não faz justiça a pessoa de cada um. A que se deve esta ForçaMesmo contra evidencias que parecem invencíveis. Que é o homem, no mais fundo de si, para teimar em olhar para além das piores adversidades? Grande Mistério o do homem, também nisto.

Os autores desejam agradecer ao Director da Imprensa da Universidade de Coimbra, Prof. Delfim Leão, e a Directora-adjunta, Dra. Maria João Padez de Castro, por todo o empenho que colocaram na publicação de mais esta obra, e a Direcção da Bluefarma SA por mais uma vez ter prestado apoio financeiro a impressão de mais livro destes autores.

Sebastião J. Forminho
J. Oliveira Branco

[1] O mesmo Erasmo, no justamente célebre Elogio da loucura (1508), põe a Loucura a fazer o seu auto‑elogio. Retratando quase todos os aspectos da sociedade civil, e religiosa. Um ‘espelho’, ainda de muita actualidade. «A minha opinião é que quanto mais louco se é, mais feliz se consegue ser» (ob. cit., 39). E «se os actores estão em cena no desempenho do seu papel e um deles tenta arrancar as máscaras […], apenas consegue perturbar toda a representação. […] O mesmo se passa na vida, […] cada um faz o seu papel conforme a máscara que usa». É a loucura que é seguida, não a Sabedoria: «Os mortais rezam para se livrar de tudo menos de mim» .