domingo, 28 de maio de 2017

AS INSISTENTES PALAVRAS

Enviado pelo académico e crítico literário Eugénio Lisboa, transcreve-se, com o prazer de sempre, mais um seu valioso texto literário publicado no “Jornal de Letras”:
“e as insistentes palavras
parecem desistir enquanto avançam”
Armando Silva Carvalho

Convocado para glosar estes dois versos em epígrafe, pareceu-me que poderia, sem dificuldade, glosar, quase interminavelmente, o insistente poder da palavra, no poema. As pistas são muitas. Tomemos por uma delas, um pouco ao acaso.
Nestes dois versos do poeta Armando Silva Carvalho, alude-se àquilo que é fundamental no texto poético e, também, no texto literário, em geral: a palavra, o poder da palavra, como elemento nuclear constituinte desse mesmo texto. A palavra: mas não se trata, aqui, de uma palavra qualquer, ou, antes, não é a palavra usada no seu modo corrente da fala de todos os dias. No texto poético, as palavras são usadas de modo muito especial, com o fim de permitirem ao poeta fazer uma exploração eficaz dos seus próprios assombros (como dizia Christopher Fry). Paul Claudel, falando de poesia, dizia: “São as palavras de todos os dias e contudo não são as mesmas.” (“Ce sont les mots de tous les jours et ce ne sont pas les mêmes”). São realmente as palavras de todos os dias, mas deslocadas – nem que ligeiramente – do seu sentido e uso corrente: por associações inesperadas e refrescantes com outras palavras ou por qualquer outro tipo de “deslocação”.
No texto literário e, sobretudo, no texto poético, interessa não só o significado da palavra, mas também o seu som, o seu volume, o seu peso. O poema faz-se com palavras usadas com toda a sua carga significante e sonora. Conta-se que o pintor impressionista Degas (o das bailarinas) se lamentou, um dia, junto do poeta Mallarmé, dizendo que, tendo embora ideias magníficas, não conseguia escrever um poema que prestasse. Sibilino, Mallarmé respondeu-lhe que um poema não se fazia com ideias, mas sim com palavras. É claro que a afirmação de Mallarmé contém alguma verdade, mas é extremista: os poemas fazem-se de facto com palavras, mas não com palavras, fazem-se também com ideias. Simplesmente, as ideias, só por si, não fazem o poema: é preciso construir essas ideias com palavras determinadas, associadas de maneira especial e colocadas no discurso de maneira peculiar. No final, fica-se sem muito bem saber se o que nos toca, nos comove, nos atinge é a ideia ou o modo como ela é formulada, com aquele acervo peculiar de palavras e com aquele som (aquela música) que emitem. É o que exprimia o poeta Paul Valéry, ao dizer: “O poema é uma hesitação prolongada entre o som e o sentido.” Isto é, hesitamos interminavelmente em decidir se é a ideia ou o som dela (a música dela) que nos atinge.
É extraordinário o inventário enorme que se pode estabelecer, de testemunhos dados por escritores eminentes – isto é, por pessoas que vivem e trabalham com palavras – sobre o poder nuclear da palavra, sobre o fascínio que, para eles, tem a palavra. Por exemplo, o grande contista e notável poeta inglês Rudyard Kipling observava: “Words are, of course, the most powerful drug used by mankind” (“As palavras são, é claro, a droga mais poderosa usada pela humanidade”).
Reparem que, nos dois versos de Armando Silva Carvalho, as palavras são “insistentes” e não desistem, apenas “parecem desistir”, porém “avançam”. Vem aqui a propósito assinalar que, muito embora, o poeta saiba que a sua matéria prima é a palavra, por vezes, hesita e duvida da sua eficácia, da extensão do seu poder, da sua total adequação ao projecto que tem em vista. Estes versos de T. S. Eliot são disso testemunho: “É estranho que as palavras sejam tão inadequadas. / No entanto, qual asmático lutando por um pouco de ar, / assim o amante deve lutar pelas palavras. /” Isto é: apesar de uma possível inadequação, o manipulador de palavras (o amante, o poeta) não deve desistir de as usar para os seus fins. E sabe que só com elas – as palavras – se poderá salvar.
No entanto, as palavras não são utilizadas, manipuladas  por toda a gente, com o mesmo grau de empenho, de intensidade, de investimento. O poeta francês Charles Péguy observava, a este respeito, que “uma palavra não é a mesma num escritor e noutro escritor. Um arranca-a do ventre. Outro tira-a do bolso do seu sobretudo.”
A palavra, repito, com o seu volume, o seu sabor, a sua sonoridade singular tem, no poema, um valor essencial. Faz-nos hesitar, como já disse, entre o som e o sentido.
A palavra tem de distinguir-se, de maneira muito clara e forte, do silêncio. Se o não fizer, melhor será que nos remetamos ao silêncio : Eurípedes: “Fala, caso tenhas palavras mais fortes do que o silêncio ou, então, guarda silêncio.”
O poeta sabe muito bem que vive de palavras e que fenece da falta delas: não da falta de quaisquer palavras, mas da falta daquelas palavras especiais de que precisa para fazer poesia. Perguntaram um dia ao poeta irlandês, William Butler Yeates se ele se sentia bem. Respondeu: “Não muito bem. Hoje só consigo escrever prosa.” Queria com isso dizer que, nesse dia, só conseguia usar palavras, para o fim básico da comunicação e não, daquela maneira especial que faz com que as palavras de todos os dias não sejam as mesmas palavras de todos os dias. Na prosa de pura – e básica – comunicação, as palavras perdem aquele peso e sabor especial que têm na poesia ou na prosa literária. “A poesia está para a prosa como o dançar está para o andar”, disse o poeta inglês John Wain. Na poesia, as palavras são diferentes, soam diferente, funcionam de maneira diferente, percutem um som diferente. Os testemunhos disto chegam-nos de todo o lado. O poeta francês Léon-Paul Fargue, por exemplo, dizia-o desta maneira: “É preciso que cada palavra que cai seja o fruto bem maduro da suculência interior.”
Poderíamos continuar, interminavelmente, nesta sinalização da palavra, como constituinte fundamental (mas não único) do texto poético ou, simplesmente, do texto literário.
Seja como for, repito, teimosamente, com Claudel: “São as palavras de todos os dias e contudo não são as mesmas.” São as “insistentes” palavras do poema de Armando Silva Carvalho, que “parecem” desistir mas não podem desistir, porque têm de “avançar”, com todo o seu som, com toda a sua música encantatória, para construírem, ante nós, atónitos, o poema.

A biometria em sala de aula

Imagem encontrada aqui
Agradeço a um leitor Anónimo o comentário que fez ao meu texto Pedagogias alternativas à escala global pelo facto de nele apontar uma questão e facultar uma informação.

A questão, que eu também tenho colocado mas que não discuti no mencionado texto nem noutros que o precederam, é a seguinte: porque é que o conceito de "pedagogias alternativas" se espalha tão rapidamente pelo mundo e é acolhido, com tanto empenho, pelos mais diversos agentes educativos? Porque é que têm sido abertas tantas escolas baseadas nesse conceito e conseguem, ao que se diz, captar cada vez mais alunos? Porque é que muitos pais (em geral, pessoas informadas) as escolhem para os seus filhos e dizem o melhor delas?

Dada a complexidade desta questão deixo-a para outra ocasião. Detenho-me, pois, na informação que o leitor facultou: uso do reconhecimento facial, por via da tecnologia, para identificar o nível de atenção dos alunos.

Devo dizer que a minha surpresa foi igual às muitas que tive quando soube do uso de drones em sala de aula para vigiar os alunos em situação de exame, da instalação de câmaras de filmar nesse e noutros espaço interiores e exteriores para controlar os seus comportamentos, da colocação de chips em uniformes e mochilas para sua segurança, etc. (por exemplo, aqui e aqui).

Sempre que tomo conhecimento de um novo modo de vigilância em contexto escolar, mediado por meios tecnológicos, penso que ele é a derradeira fronteira. Fronteira que, pelo facto de nunca dever ter sido alcançada, acabará por cair pela força da razão.

Fácil é de se perceber que, até ao momento, me enganei sempre: as formas de vigilância consolidam-se e banalizam-se. A pouca discussão ética que se faz sobre o assunto fica retida algures em publicações inacessíveis, mas mesmo que estivesse acessível não colheria junto de ninguém, a começar pelas empresas de tecnologias e os seus engenheiros, passando pelos políticos e outros que decidem os rumos da educação formal, acabando nas próprias escolas, nos directores, professores e encarregados de educação.

Valores supremos como o da dignidade humana e alguns dos que a concretizam, como sejam a privacidade, são uma risada para os pragmáticos. E são os pragmáticos que levam a melhor.

Nesta questão da leitura da expressão facial dos alunos com recurso a meios tecnológicos é mesmo este modo de abordar os problemas que está em causa.

Na pesquisa que fiz sobressai o seguinte argumento: o professor deve perceber a variação da atenção e do interesse dos alunos ao longo da aula para reajustar procedimentos, que devem ser diferenciados. De acordo, é isso que, na verdade, se espera de um professor: detectado um aspecto crítico, espera-se que, na medida das suas possibilidades, em simultâneo, mantenha a turma a funcionar e responda a cada aluno.

Este argumento, que está certo, não justifica, no entanto, este meio biométrico. Nunca em circunstância alguma o pode justificar.

E isto porque o meio é invasivo do espaço do aluno, do seu corpo, do seu pensamento... abeira-se da sua alma, seja lá isso o que for. É um meio desumano porque não respeita a pessoa que o aluno é; mais, concorre para que ele não aprenda o que significa ser-se humano.

Enfim, é triste perceber que certos meios tecnológicos, podendo beneficiar a nossa vida, são usados precisamente para a desgraçar!

António Gião: os últimos anos de um meteorologista

Minha comunicação ontem no Encontro de História da Ciência no Ensino em Coimbra: 

António Gião (Reguengos de Monsaraz 1906 - Lisboa 1969) foi um meteorologista e físico teórico portu­guês do século com carreira feita em grande parte no estrangeiro. Após ter frequentado o 1.º ano na Universidade de Coimbra, foi para Es­trasburgo, onde se formou em Engenharia Geofísica e Física (Meteorologia) em 1927. Foi o primeiro português a publicar na Nature (uma carta em 1926, tinha ele 20 anos, so­bre nuvens).

Trabalhou nas Universidades de Bergen, Florença, Génova e Dublin, no Real Instituto Meteorológico da Bélgica, nos institutos Na­cional Meteorológico e Poincaré, de Paris. Atingiu notoriedade internacional, o que se revela na recepção de um convite para professor no MIT e de ouro para participar numa expedição internacional aérea ao pólo Norte em 1928.

Re­gressado a Portugal devido à guerra, passou a interessar‑se pela Física de Partículas e Cos­mologia. No início de 1946 enviou a Einstein, então em Prince­ton, uma carta endereçada de Reguengos de Monsaraz, onde propunha uma teoria das forças fundamentais. Na volta do correio, veio a resposta de Einstein, contendo alguns cál­culos, que exprimiam dificuldades técnicas da proposta de Gião, que replicou.

Em 1960, Gião foi nomeado, após convite, Professor Catedrático da Faculdade de Ciências de Lis­boa, onde teve problemas pedagógicos. Na década de 60, foi director do Centro de Cálculo Científico do Instituto Gulbenkian de Ciência, então emergente. Como di­rector desse Centro organizou em 1963 um encontro de Cosmologia em Lisboa, com a presença do alemão Pascual Jordan e do bri­tânico Hermann Bondi, um dos autores da teoria do estado estacionário.

Além de livros de referência em Me­teorologia, publicou mais de 150 artigos, quase sempre sozinho, muitos deles em revistas conceituadas como a Physical Review, a Comptes Rendus (apresentados por Louis de Broglie), o Journal de Physique, etc. Em Portugal, pu­blicou na Portugaliae Physica, revista da SPF cria­da em 1943 (um artigo sobre Meteorologia e outro sobre Teoria Quântica Relativista), na Portugaliae Mathematica e na Técnica (revista dos estudantes do IST).

Neste trabalho analisa-se em particular a produção científica de Gião nos seus últimos anos, publicada essencialmente nos Arquivos do Instituto Gulbenkian de Ciência, que dirigia.

Contam-se 16 artigos, 11 dos quais sozinho, em francês e em inglês. Os assuntos (física estatística, meteorologia teórica, cosmologia defesa do estado estacionário, física-matemática, e física de partículas) reflectem a pluralidade dos seus interesses.

sábado, 27 de maio de 2017

O avô e os netos falam de Geologia

Informação chegada ao De Rerum Natura.


Pedagogias alternativas à escala global

Na sequência do texto Pedagogias alternativas.
"Nos últimos anos as escolas que oferecem pedagogias diferentes da tradicional estão-se afirmando, tanto em Espanha como no resto do mundo, graças à procura do desenvolvimento intelectual, emocional e espiritual dos menores. O que oferecem estas alternativas ao ensino clássico?"
Assim se inicia um artigo publicado recentemente na imprensa espanhola (aqui) que dá conta do rápido avanço das "pedagogias alternativas".

Ainda que pequeno, esse artigo, reproduz ideias que (mais uma vez), afirmando-se como novas, encaixam num modo recorrente de conceber a educação formal cuja sustentação não vai além do senso-comum.

Modo esse que se traduz em discursos confusos, repletos de imprecisões e contradições, sempre carregado de elementos ideológicos muito sedutores, como sejam a crítica à "pedagogia tradicional" ou a promessa optimista de todos se desenvolverem, em todas as suas dimensões, felizes e sem esforço. 

Comentá-lo é, pois, uma tarefa difícil, demorada e delicada. Limito-me a apontar alguns dos elementos que convoca e que já se encontram profundamente entranhados no pensamento social.

1) Para que o desenvolvimento dos alunos seja saudável e harmonioso é preciso atender às suas necessidades vitais e educativas, potenciando todas as suas capacidades, intelectuais, afectivas e emocionais. Entre essas capacidades destacam-se a criatividade, a independência, a responsabilidade.

2) O método tem de proporcionar uma formação completa aos alunos e a possibilidade de "aprenderem felizes, através da criação do seu mundo em vez de se adaptarem ao existente". Isto significa: a adequação ao mundo em que vivemos, a preponderância do trabalho cooperativo e de projectos, um "mínimo de restrição e um máximo de consciência". 

3) O professor não ensina, "desenvolve a responsabilidade e a capacidade física, psicológica e intelectual". Além disso, estabelece com os pais uma "grande compreensão e compromisso".

Nada de novo, portanto. A designação "alternativa", é sonante mas não se justifica.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Pedagogias alternativas


"Pedagogias alternativas" e "educação alternativa". Os termos existem e já devem existir há muito mas confesso que os desconhecia até momento recente, em que os vi associados a outras manifestações alternativas.

Procurei informação e percebi que também os termos polarizam investigação académica em universidades conceituadas, que é publicada em livros e em revistas com factor de impacto; entidades internacionais que insistem em exercer influência na educação escolar, incluem-nos nos seus textos. Não é, pois, algo "marginal" aos circuitos que conferem legitimidade científica ao que se faz. 

E é claro, há escolas alternativas, métodos alternativos, recursos alternativos... onde cabe tudo!

Confesso que me custa ver nomes como o de João de Deus, de Maria Montessori e de outros pedagogos com obra consolidada, ainda que compreensivelmente, situada, misturados com outros que me abstenho de referir.

E, claro, custa-me ver os seus conceitos e propostas pedagógicas serem retorcidos, a compor um discurso que em circunstância alguma subscreveriam.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

O lugar dos professores nos sistemas educativos

Vale a pena ler o editorial do jornal Faro de Vigo do dia 21 deste mês, cujo título é El profesor como eje de la enseñanza necesaria (aqui).

O que nele se diz em relação à situação dos professores e do ensino em Espanha poderia, em grande medida, ser transposto para Portugal. É estranho que um pouco por todo o mundo se tenha de dizer que os professores têm um lugar importante nos sistemas educativos.

Eis breves passagens:
A excelência educativa depende mais das qualidades das pessoas - a capacidade dos professores, a disposição dos alunos e a atitude dos pais - do que do dinheiro. Um aumento de recursos não garante melhorias (...). 
Os sucessivos governos têm abandonado os professores à sua sorte, preferem-nos disciplinados e sobrecarregados de burocracias de normas e de regulamentos do que motivados, ambiciosos e inovadores (...).
A educação é o mais importante que qualquer sociedade pode legar às gerações futuras (...).

quarta-feira, 24 de maio de 2017

OUTRA TESE ORIGINAL


A ideia de tese académica circunscrita a temas selectos, apresentada em papel, com uma determinada estrutura e redigida num certo tipo de escrita faz, definitivamente, parte da história da universidade.

As especificidades de novos públicos que a frequentam, a aproximação que procura fazer em relação à sociedade e a parceiros de relevo, as exigências que recaem sobre ela, nomeadamente de ordem económica e política, a necessidade de auto-financiamento, são alguns dos factores que têm contribuído para lhe mudar o rumo. E isso vê-se nas teses que produz e que agora são disponibilizadas online em acesso aberto. 

Em 2008 demos exemplos neste blogue disso mesmo - ver, por exemplo, o Mestrado em "Gestão e Manutenção de Campos de Golfe" (aqui) e a tese de doutoramento intitulada "A situação epistemológica da astrologia através da ambivalência fascinação/rejeição nas sociedades pós-modernas" (aqui).

Tem corrido no nosso país a notícia de uma tese de mestrado em "Gestão do Desposto" que apresenta diversas razões para nos surpreender (aqui) e que, ainda assim, foi bem bem sucedida. A equipa do Portugalex não deixou de lhe dedicar um sketch (aqui). 

Como noutras coisas não estamos sós. Tem sido notícia na imprensa internacional o caso de um álbum de música rap que foi apresentado como tese final de licenciatura em "Língua e Literatura Inglesa" e aprovado com summa cum laude minus, uns 18 valores na escala que usamos. E isto na prestigiada universidade americana de Harvard (ver, por exemplo, aqui).

“MATERIAIS E TECNOLOGIAS SUSTENTÁVEIS E AMIGAS DA SOCIEDADE”



No próximo dia 30 de Maio, terça-feira, pelas 18h00, realiza-se no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra intitulada Materiais e tecnologias sustentáveis e amigas da sociedade”. A palestrante será Elvira Fortunato, Professora do Departamento de Ciências dos Materiais da Universidade Nova de Lisboa. 



Elvira Fortunato tem-se distinguido pela invenção do transístor de papel. A sua investigação tem sido destacada por vários prémios internacionais. Por exemplo, Elvira Fortunato foi a primeira investigadora portuguesa a receber a medalha Blaise Pascal, da Academia Europeia de Ciências, em 2016.

Resumo da palestra:
Nos últimos 50 anos, observámos uma mudança drástica na nossa vida diária, uma vez que a sociedade nunca antes foi tão eficiente e interligada. Isso fornece um ambiente colaborativo que é essencial para o crescimento económico e progresso como são exemplo o: Silicon Valley para tecnologia da microeletrónica e Boston para a área da biotecnologia. Este desenvolvimento vertiginoso foi em parte ditado por uma regra empírica e impulsionada economicamente conhecida como a "lei de Moore". Na verdade, hoje um microprocessador tem mais de 7 mil milhões de transístores integrados numa área de aproximadamente 350 mm2. Esta inacreditável capacidade de integração com elevadas velocidades de processamento, capacidade de memória e múltiplas funcionalidades dá origem ao que chamamos hoje: eletrónica ubíqua. Apesar da importância da tecnologia do silício, existem aplicações em que é impossível, tecnicamente ou economicamente usá-lo. Displays ou mostradores são o exemplo mais notório, mais se quisermos que eles sejam flexíveis por exemplo.
Nesta palestra apresentaremos resultados sobre as novas tecnologias desenvolvidas no CENIMAT | i3N como eletrónica transparente e eletrónica de papel onde é possível ter o uso de materiais sustentáveis utilizados em aplicações disruptivas.

Esta palestra insere-se no ciclo "Ciência às Seis" coordenado por António Piedade.

Publico em geral
Entrada livre

Link para o evento no facebook

terça-feira, 23 de maio de 2017

UMA TESE ORIGINAL


A tese de mestrado em Gestão do Desporto de Fernando Madureira, líder dos superdragões, feita numa instituição politécnica do Norte (ISMAI), foi divulgada pela revista VISÂO: 

 O parágrafo mais importante do resumo, com as conclusões do estudo, é este:

 "Pela análise da investigação que efetuamos, podemos concluir que a venda de Merchandising na Bancada Sul do estádio, que é uma óptima forma de os adeptos conhecerem os produtos e vestirem-se à “Super Dragões” e o ajuste do preço dos bilhetes à procura é também um aspeto a poder ser aproveitado de forma a aumentar o número de adeptos."

 Se não percebeu em português, tente perceber em inglês a última parte do abstract:

 "By analyzing the research we perform, we can conclude that the sale of Merchandising Bench South of the stadium, which is a great way for fans to know the products and dressed to the "Super Dragões" and the price adjustment of tickets will demand is also in one aspect can be exploited to increase the number of fans."

 No corpo da "tese", de três dezenas de páginas, onde se sucedem os erros de ortografia e pontuação, encontram-se verdadeiras "pérolas" como estas:

 "No futebol actual é necessário haver uma estruturação do público em geral e sobretudo haver uma estratégia entre o clube e uma claque de apoio."

 "A ideia é desenvolver todo um conjunto de pressupostos para que o apoio seja cabrangente a todo o Estádio do Dragão, Dragão Caixa e que os adeptos possam ser essa voz"

 "De acordo com a análise da literatura, verificamos que existem diferentes dimensões da qualidade relativamente aos diversos autores, bem como aos estudos por eles realizados. "

 "Como referem Camara et al. (1997), podemos entender mudança como um processo, que marca num sistema, uma diferença entre um instante e outro. "

 "Odiernamente, o mercado da compra online está cada vez mais seguro nas questões aliadas à venda, como corrobora Martins (cit. in Moreira, 2015) ao referir que um dos maiores receios de quem não está habituado a efetuar compras online, é o fator segurança. "

" Dentro deste conceito já é possível que um adepto possa comprar produtos alusivos à claque (Super Dragões) na página de Facebook. Podemos observer na figura 7 alguns dos produtos disponíveis e que por sua vez poderão ser comercializados. "

"A bilhética é um element crucial deste projecto. Aqui, uma boa estratégia fará com que todo o conceito seja empregue de forma eficaz e coerente junto dos adeptos do FC Porto. "

"Quando falamos de 'futebol', pensamos logo em dar às pessoas um canal na qual coloquem toda esperança e paixão em torno da equipa. Portanto, o futebol torna-se ainda mais importante, não
não só para os adeptos, mas para todo o público que venera o futebol. " .

Enfim, as conclusões:

" Com este trabalho podemos observer o quanto importante é inovar na qualidae dos serviços em geral e nos serviços desportivos em particular, nomeadamente no futeol. ó para os adeptos, mas para todo o público que venera o futebol. Realçou-se a importânciaccomo dinamizar a Bancada Sul do Estádio do Dragão e as consequentes estratégicas que poderão ser implementadas para um melhor aproveitamento e dinamização do espaço."

Parece que a nota final foi 17.  O que menos interessa é saber se a "tese" é de um superdragão, de um diabo vermelho ou de um juveleo. O que interessa aqui mais é o estado do ensino superior português, politécnico no caso.

ALIEN, COVENANT: O NOVO FILME DE RIDLEY SCOTT

As migrações podem ajudar Portugal?

Vídeo da Fundação Francisco Manuel dos Santos:




MIgrações e sustentabilidade demográfica

U

Um dos maiores problemas que Portugal tem é demográfico. Um estudo de João Peixoto (ISCTE) e colaboradores foi lançado ontem pela Fundação Francisco Manuel dos santos. O estudo já está disponível gratuitamente. Basta fazer download aqui. 

OBSERVADOR EM PAPEL


O jornal on-line Observador fez três anos (parabéns!) e resolveu publicar em papel uma selecção dos seus artigos. Um dos artigos escolhidos foi "Um cientista e um padre entram num bar", na p. 70, do
jornalista João Francisco Gomes, que parte de uma entrevista comigo e com o padre jesuíta, director do Observatóruio do Vaticano, Guy Consolgmano. O artigo pode também ser lido on-line, mas em papel é outra coisa.

Na figura o padre Georges Lemaître e Albert Einstein.

Encontro Nacional de História da Ciência no Ensino

Vai-se realizar em breve em Coimbra. Apresentarei uma contribuição sobre os últimos anos do meteorologista português António Gião, professor da Faculdade de Ciências de Lisboa e director de uma secção científica da Fundação Gulbenkian :

https://www.uc.pt/fctuc/dquimica/2EHCE/PR/

segunda-feira, 22 de maio de 2017

LEV- LITERATURA EM VIAGENS: RESUMO DE UM FESTIVAL LITERÁRIO ONDE ESTIVE


http://www.dn.pt/artes/interior/um-festival-em-que-a-realidade-do-pais-quase-atrapalhou-8476316.html

100 ANOS DO PORTUGAL FUTURISTA


CONGRESSO INTERNACIONAL "100 Futurismo"

LISBOA // Fundação Calouste Gulbenkian
CALL PAPERS / INSCRIÇÕES
2ª FASE: Até 31 de julho de 2017

FADO GALÁCTICO

Crónica primeiramente publicada no Diário de Coimbra e outra imprensa regional.



O brilho das estrelas conta-nos a história do Universo.
Mas nem tudo o que brilha no céu nocturno, para além da Lua, são estrelas individuais como o nosso Sol. É possível detectar pelo menos o brilho de três galáxias a olho nu (sem telescópios): a galáxia de Andrómeda, a Grande Nuvem de Magalhães e a Pequena Nuvem de Magalhães. Só a primeira é visível em Portugal. As outras duas só são visíveis no hemisfério Sul. Contudo, hoje sabemos existirem muitos milhões de galáxias por esse Universo fora.
Mas nem sempre foi assim. No início do século XX, os astrónomos julgavam que a nossa galáxia, a Via Láctea, era a única no Universo. E os limites do Universo de então eram o da nossa galáxia. Mas os astrónomos conheciam “objectos” designados por nebulosas e nas primeiras décadas do século passado houve grande discussão sobre a sua natureza e se estariam ou não dentro da nossa galáxia.
Devemos ao astrónomo norte-americano Edwin Hubble (1889 – 1953) a identificação dessas nebulosas como galáxias existentes muito para além da Via Láctea e também a vertiginosa constatação de que estas se afastavam uma das outras a uma velocidade tanto maior quanto a maior a distância que as separavam.
Desde então, os avanços tecnológicos permitiram a construção de telescópios cada vez mais sensíveis e o número de galáxias conhecidas aumentou como nunca antes teria siso possível. E, quando foi possível colocar no espaço, fora da turbulência da atmosfera terrestre, telescópios como o que honra Edwin Hubble por ter o seu nome, o conhecimento sobre o campo profundo, negro a olho nu, do Universo, apresentou-nos miríades de galáxias.
Para o estudo das galáxias, para conhecer a sua evolução, é necessário analisar a luz que delas nos chega e isso é feito através de técnicas de espectroscopia avançada. A luz é proveniente principalmente das estrelas que compõem as galáxias, mas há também uma parte que resulta da ionização do gás interestelar que existe nas próprias galáxias. Distinguir a contribuição de cada uma das fontes não tem sido tarefa fácil e o recurso a programas informáticos (algoritmos) de análise de dados tem sido imprescindível.
Neste contexto, uma nova ferramenta informática acaba de ser apresentada num artigo recente aceite para publicação na revista científica Astronomy & Astrophysics. Este novo algoritmo foi desenvolvido pelos astrofísicos do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) Jean Michel Gomes e Polychronis Papaderos. FADO (acrónimo de Fitting Analysis using Differential evolution Optimization) foi o nome que estes cientistas atribuíram a esta nova técnica de análise, numa homenagem ao estilo desta música património imaterial da humanidade. “Cada galáxia tem um “fado” – uma narrativa da sua biografia, desde o nascimento das primeiras estrelas. Este destino está escrito no seu espectro eletromagnético, que contém os registos fósseis das múltiplas gerações de estrelas que se formaram, ao longo de milhares de milhões de anos, bem como do gás que essas estrelas ionizam com a sua radiação”, pode ler-se num comunicado do IA.
Uma das características inovadoras do FADO é o uso de algoritmos genéticos, que simulam a evolução de uma galáxia como se a de um organismo vivo se tratasse. O tratamento dos dados permite que se reproduza a emissão observada das estrelas e do gás na galáxia separando as duas contribuições da luz captada. Segundo o comunicado citado, “os modelos anteriores tinham grandes incertezas, em parte porque só tinham em conta a contribuição da luz emitida pelas estrelas. No entanto, a contribuição do gás ionizado pode somar até 50% de toda a luz da galáxia”.
É uma importante contribuição desta instituição científica portuguesa, o IA, para melhor compreendermos a formação e a evolução das galáxias.


António Piedade