terça-feira, 21 de novembro de 2017

As competências sociais dos alunos para o mundo actual

Imagem colhida aqui
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) publicou hoje mais um conjunto de dados ainda referentes à última passagem, em 2015, do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA). 

Esse conjunto de dados refere-se à "Resolução Colaborativa de Problemas" (RCP) que envolve capacidades/competências sociais consideradas "centrais para o futuro das crianças e jovens", por forma a responderem aos desafios do mundo atual, em concreto nos contextos de educação e de trabalho.

Nas palavras de OCDE (p.134 do relatório), a RCP implica "o envolvimento efectivo num processo onde duas ou mais pessoas procuram resolver um problema, partilhando entendimentos e dispendendo o esforço necessário para chegar a uma solução, pelo que convocam os seus conhecimentos e mobilizam as suas competências para alcançar a solução".

Foi a primeira vez que tais capacidades/competências foram medidas no âmbito deste programa, iniciado no ano 2000, mas, deste já, a OCDE recomenda aos diversos países que ajustem as suas políticas educativas de modo a darem prioridade ao desenvolvimento das mencionadas capacidades/competências.

Em relação ao nosso país, diz-se no comunicado do Governo (aqui):
"Portugal, com uma pontuação de 498 pontos, integra um grupo de oito países cujos resultados não diferem significativamente da média da OCDE (500 pontos). Embora os [nossos] alunos revelem dos índices mais elevados sobre o trabalho de equipa, os seus desempenhos na Resolução Colaborativa de Problemas são inferiores aos registados em Leitura, Matemática e Ciências."
De notar nesta formulação o paralelismo entre três áreas disciplinares e a metodologia designada por "Resolução Colaborativa de Problemas". Áreas disciplinares e metodologias são, na verdade, distintas.
"Para o desenvolvimento de competências sociais, o relatório destaca a valorização do trabalho em equipa, focando a importância das escolas promoverem de forma sistemática: atividades de comunicação, exposição e argumentação; realização de trabalho prático e experimental; prática de atividade física regular; equipas de trabalho diversas e multiculturais." 
Esta ênfase na metodologia obscurece o conteúdo académico que a escola deve proporcionar.
"As conclusões do relatório validam a aposta do Governo nas políticas educativas em curso: a necessidade de um Perfil do Aluno que valoriza a resolução de problemas, a autonomia e o relacionamento interpessoal como áreas a desenvolver; o investimento na Educação para a Cidadania; o envolvimento dos alunos fomentando a sua participação democrática, patente em medidas como a Voz dos Alunos ou o Orçamento Participativo das Escolas; o reforço do papel da escola fundamental junto das populações mais vulneráveis; a aposta na autonomia e flexibilidade enquanto oportunidade para implementação de metodologias de trabalho de projeto e de trabalho colaborativo entre alunos e entre os professores."
Percebe-se que a tutela forçou em muito os dados constantes do relatório: as implicações que retira para, como diz, "validar" as decisões que tem tomado, não podem deixar de levantar dúvidas a quem compara o relatório com essas decisões.
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O leitor pode aceder ao relatório da OCDE aqui, ao relatório do Instituto de Avaliação Educacional aqui e ao comunicado do Governo aqui.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O caso Lysenko como um paradigma de anticiência

Excerto do livro “A Ciência e os seus Inimigos” de Carlos Fiolhais e David Marçal (Gradiva, 2017), publicado sábado no Público:


As ciências biológicas sofreram na União Soviética, a partir de finais da década de 1920, um enorme desvio pseudocientífico, ao qual está associado o nome do agrónomo Trofim Lysenko. O «caso Lysenko» é de referencia obrigatória sempre que o tema é pseudociência. Tratou‑se de um exemplo paradigmático de manipulação política e ideológica, uma vez que a teoria defendida por ele negava a biologia da hereditariedade, assente nas leis do monge agostiniano checo Gregor Mendel (1822‑1884) e desenvolvida já no século XX com a descoberta das suas bases genéticas e com a ligação à teoria da evolução de Darwin. De acordo com Darwin, as características de cada espécie transmitem‑se às gerações seguintes, havendo apenas diferenças intergeracionais provocadas por pequenas mutações.
A acumulação ao longo de muito tempo de mutações conduz ao aparecimento de novas espécies. Algumas espécies, devido à sua boa adaptação ao ambiente, sobrevivem, ao passo que outras não o conseguem fazer. A extinção de espécies corresponde à interrupção de ramos da «árvore da vida», formados a partir de um tronco comum. Mas ao lado há ramos que vingam.

A genética foi‑se impondo no mundo científico na segunda metade do século XIX e principalmente no século XX. Encontrou defensores nas academias soviéticas, o mais importante dos quais foi o biólogo russo Nikolai Vavilov (1887‑1943), que dirigiu o Instituto de Botânica Aplicada e Novos Cultivos, de São Petersburgo. Entre os anos de 1920 e 1960, porém, esses trabalhos de investigação genética que, tal como noutras partes do mundo, procuravam conciliar o mendelismo com a ideia dos genes foram proibidos. Havia uma suspeição do darwinismo por ser considerada ciência burguesa e capitalista.

De facto, havia razões ideológicas para essa deriva anticientífica. A ideologia marxista‑leninista baseava-se no anúncio da chegada de um «homem novo», uma ideia com algumas semelhanças à do «homem novo» de Hitler. Ora, um tal tipo de pensamento tem um carácter lamarckiano, do nome do famoso biólogo francês Jean‑Baptiste de Lamarck (1744‑1829), que propôs uma teoria da evolução, que hoje sabemos estar errada, segunda a qual a adaptação ao ambiente seria bastante rápida: por exemplo, as girafas tinham pescoços grandes porque se esticavam para comer as folhas mais tenras no cimo das árvores mais altas e os seus filhos nasciam com os pescoços grandes. No início do século XX, os genes, na altura ainda não associados a componentes biológicos concretos, eram algo pouco empírico, pelo que a visão da evolução baseada na genética era considerada idealista, opondo‑se a uma visão dita materialista. No seu livro Materialismo e Empirocriticismo, publicado em 1909, Lenine defendia uma ideia estritamente materialista do mundo: os nossos pensamentos não passavam de simples cópias do mundo. Essa visão filosófica tornou‑se a base da ciência soviética. De facto, havia aqui uma grande confusão: a teoria de Lamarck é que era idealista e a de Darwin‑Mendel materialista.

No final da década de 1920, Lysenko defendeu que a solução para as dificuldades na produção de trigo na URSS, que se deviam a condições climatéricas desfavoráveis, estava na chamada «vernalização», um método que consiste na conservação das sementes de cereais em frio antes de as semear, para que depois germinem mais facilmente. Além da vernalização, Lysenko também preconizava a enxertia, que consiste na implantação de um ramo de uma planta de uma espécie sobre uma outra planta pertencente a uma espécie diferente. Com base num pensamento lamarckiano, Lysenko pensava que esses dois métodos conduziriam rapidamente a espécies mais resistentes a condições climáticas adversas. Haveria, segundo ele, transmissão hereditária de caracteres adquiridos. No início dos anos de 1930, Lysenko apresentou uma teoria alternativa à teoria cromossómica (os genes estão nos cromossomas, estruturas do núcleo celular conhecidas desde o final do século XIX), que foi buscar aos trabalhos do arboricultor russo Ivan Michurin (1855‑1935).

Essa sua teoria foi apoiada pela nomenklatura soviética, incluindo acima de todos o «Grande Líder», que a elevou ao estatuto de teoria oficial e única. Só havia um «pequeno» problema: a teoria é falsa, pelo que as plantações nela baseadas não vingavam, circunstância que levou à morte pela fome de faixas enormes da população.

A ideologia cega. Apesar do seu sucesso experimental (e do insucesso da teoria michurinista adoptada por Lysenko), a teoria cromossómica da hereditariedade foi considerada reaccionária e capitalista. Os geneticistas que se recusaram a aceitar os novos postulados oficiais sobre o funcionamento da hereditariedade foram afastados dos seus cargos, perseguidos e aprisionados, em processos sumários que nalguns casos faziam parte de purgas mais gerais. Viveu‑se uma verdadeira época de terror. Em pouco tempo, um grupo de investigadores que tinha colocado a Rússia na vanguarda das investigações genéticas mundiais ficou aniquilado. Vavilov foi um caso exemplar de banimento ideológico: devido a perseguição pessoal de Lysenko, então Presidente da Academia Lenine das Ciencias Agrícolas, foi condenado à morte em 1940, sentença depois comutada em prisão perpétua. Foi deportado para um campo de trabalho na Sibéria onde morreu pouco depois, em condições desumanas. Outros geneticistas conheceram a mesma sorte: ou, tal como Galileu, abjuravam da ciência alegadamente burguesa ou estavam liquidados, por muito respeitável que fosse o seu historial no Partido.

Em 1947 Lysenko escrevia a Estaline dizendo que o neodarwinismo ≪é uma ciência metafísica burguesa dos corpos vivos, da natureza viva, desenvolvida nos países capitalistas ocidentais não para fins agrícolas, mas para a eugenia reaccionária, o racismo e outros propósitos≫. Estaline respondeu‑lhe: «Penso que o princípio de Michurin é o único princípio científico. O futuro pertence a Michurin.≫ O ano de 1948 assinala o apogeu de Lysenko. Num discurso intitulado «Biologia Soviética» proferido perante a Academia Lenine de Ciências Agrícolas, em Moscovo, e no qual fez a apologia das suas ideias pseudocientíficas, Lysenko mencionou no final que o Comité Central do Partido Comunista as tinha examinado e expressamente aprovado. Para o biólogo Stephen Jay Gould (1941-2002), esta ≪constitui a passagem mais arrepiante de toda a literatura científica do século XX≫. Relatou o jornal Pravda, órgão do regime: «O anúncio do Presidente levou ao entusiasmo geral dos membros da sessão. De um só impulso todos os presentes se ergueram dos seus lugares e prestaram uma firme e prolongada ovação em honra do Comité Central do Partido Comunista e de Estaline, em honra do sábio líder e mestre do povo soviético, o grande cientista da sua época, o camarada Estaline...≫ A partir daí o michurinismo passou a ser linha oficial do Partido: negá‑lo ou sequer duvidar dele seria grave dissidência. A Academia escreveu pouco depois uma carta a Estaline reafirmando a boa doutrina, num tom que era o mesmo do discurso de Lysenko: «Continuando o trabalho de V. I. Lenine, o Camarada Estaline incorporou na biologia materialista progressista os ensinamentos do grande reformador da Natureza, I. V. Michurin, e, na presença de todo o mundo científico, guindou a posição michurinista da ciência a única posição correcta e progressista em todos os ramos da ciência biológica... Longa vida à ciência biológica michurinista virada ao futuro! Glória ao grande Estaline, Líder do Povo e corifeu da ciência progressista!≫

Lysenko, que ocupava na Academia Lenine o lugar de presidente que fora de Vavilov, recebeu duas vezes o prémio Estaline, a que se juntou a ordem de Lenine e a de «Herói da União Soviética». Chegou a ser vice‑presidente do Soviete Supremo. No entanto, como cientista era uma absoluta nulidade e nem sequer entendia o que era o método científico. A teoria que defendia nada tinha de científico. Os estragos internos do caso Lysenko foram incomensuráveis. Só em meados da década de 1960 é que a URSS abandonou definitivamente a doutrina de Lysenko e voltou à genética convencional.


OS NOVOS COLONIZADORES

Artigo de opinião de Guilherme Valente, saído na última edição do Expresso:

"O SOS Racismo  é como o SOS  Baleias, existe  para salvar o racismo".

Jean Baudrillard

"Nunca" houve tanto "racismo" e "racistas"  em Portugal. Tudo passou a ser "racismo". O racismo e os racistas crescem com o aumento do número de  activistas anti-racistas profissionais. "Racismo" que  alimenta o zelo e assegura  emprego. 

Como  observa Bruckner num livro iluminante,  o anti­‑racismo não pára de tornar racial qualquer forma de conflito ou divergência étnica, política,  social ou religiosa. "Recria  permanentemente a maldição que pretende combater. A sua genética parece ligada ao fracasso  do projecto comunista. A luta de raças é  um sucedâneo da luta de classes". Perdida uma crença, construiu-se  outra.

A  crítica,  a liberdade  de pensamento e de expressão  passam a ser   agressão pessoal.  Pobres  tribunais sobrecarregados com queixas idiotas, algumas hilariantes  se tivermos em conta o currículo  de alguns queixosos.

Há dias num   restaurante  sentei-me  ao lado de  uma senhora brasileira com voz estridente, que não se calava.  Mudei de mesa. Tive um comportamento racista, interroguei-me? A senhora era branca, facto que aliviou a minha preocupação! Por outro lado sou  feminista desde os tempos do Liceu. Radical  depois do nascimento da minha Filha.

Nāo, não tive um  comportamento racista. Tenho o direito de me afastar do que não gosto. De não  apreciar  toda a gente, de não  conviver com todos os comportamentos,  não simpatisar com todas as culturas. Considero mesmo algumas   deploráveis, noutras vejo manifestações repugnantes.

Como disse  S. Rudshie explicando o logro   do termo "islamofobia:"Tenho o direito de dizer que não gosto das vossas ideias e vós o direito de dizer o mesmo das minhas. Se crêem em Deus e eu não, tenho o direito de dizer que a vossa religião é absurda. Isto não tem nada a ver com racismo. A religião é uma crença, a cor da pele um facto. Temos o direito de não gostar do que cada um pensa, mas rejeitá-lo pelo que ele é a isso chama-se ódio".

O racismo é um ódio. Uma fusão de fragilidade identitária,  inquietação, medo e ódio.

Ódio atrai ódio. Luther King, Mandela, Gandhi, o  admirável Padre António Vieira, não  enfrentaram o racismo  e mudaram o mundo com o ódio, não odiaram os "brancos", Luther King   teve  a maioria ao seu lado. Amavam o seu país e as suas gentes,  por isso quiseram  torná-lo melhor. 

O islão radical  vai, aliás, mais longe na negação do outro, mata-o. Elimina o contraste insuportável.  A  "culpa" dele é  a do Ocidente:  liberdade religiosa, liberdade de pensamento, igualdade entre homens e mulheres.  O  objectivo é impedir que no  islão se transforme. Os primeiros a abater são os  liberais reformadores muçulmanos  combatentes por um islão iluminista.

Tratam-nos como renegados  convertidos à ideologia colonial. Foi assim, curiosamente, que o anti-racista Mamoud Da se  referiu  ao sociólogo Mithá Ribeiro, "Os miseráveis préstimos de um colonizado mental" ("A Fábula de um país sem  racismo com racistas", Público , 7/9).

No discurso do activismo  "anti-racista" transparece  frequentemente  a pulsão reptiliana  que está  no cerne  do verdadeiro racismo, nele se  pressupõe que só os brancos são colonialistas e racistas, mas o colonialismo e o racismo  não têm cor. Esse discurso  exerce nos grupos humanos mais expostos ao condicionamento  da cor da pele um efeito  perverso:  encerra-os no seu meio. Discrimina-os como deficientes condenados  à  dependência das instituições.  Situação que podendo ser compreensível gera anticorpos na sociedade. Distraindo  do que é importante  fazer-se  para tornar a discriminação cada vez mais residual.

Portugal não é um país racista. É um Estado e um país anti-racista. Os Portugueses não são racistas. Em Portugal o racismo é um crime e a escravatura há muito  que foi condenada e proscrita. Manifestações  racistas, conscientes ou inadvertidas, surgem em todas as sociedades e  tempos.
Vi com perplexidade e indignação  a notícia de que um grupo de neo-nazis impedira activistas anti-racistas de  contestarem  a estátua do Padre António Vieira. O mais chocante é terem sido neo-nazis (se o eram de facto) a fazer o protesto que cumpriria  a todos nós. E ao Governo proibi-la se o  seu propósito fosse vandalizar a estátua, como vi no facebook. O propósito dessa manifestação é, aliás,  tão ignorante  ou  estúpido que se impõe   procurar outras intenções para ela.

O seu líder terá sido o activista anti-racista profissional Mamoud Da, que no Público já sugerira ou afirmara  o "carácter estrutural racista da sociedade portuguesa" (art. cit.) podendo-se concluir que considera Portugal um país racista. Intervenções em que, explícita ou latente,  se revela  uma animosidade, quanto a mim mesmo um  ódio,   relativamente a Portugal e aos Portugueses.

Li que Mamoud Da não é cidadão português. Facto  absolutamente  irrelevante, pois são bem-vindos   todos os  que  queiram ajudar Portugal a melhorar e gostem de viver connosco.  Mas se for de facto africano   é humanamente irresistível perguntar:  não deveria estar a combater o que é bem mais dramático e pungente na sua Terra?

Não há raças. Quanto ao racismo de que é imperativo combater todas as manifestações e condições  leia-se a lição lapidar de Sobrinho Simões,  "Somos todos primos uns dos outros" **.  Na matéria em causa, a moral, a realidade e o direito coincidem. 

Guilherme Valente

* Pascal Bruckner, Um Racismo Imaginário - Islamofobia e Culpabilidade, Gradiva, Out. 2017.

**Portugueses, Quem Somos, de Onde Vimos, Para Onde Vamos, Gradiva, Nov.  2017.

domingo, 19 de novembro de 2017

A “nobre e exigente tarefa de ensinar”

César Rodrigues, investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20) da Universidade de Coimbra, escreveu, ao longo de um razoável período de tempo, crónicas para um jornal regional. Os temas, ainda que diversos, centravam-se sobretudo nas suas áreas de eleição: educação e desporto.

Seleccionadas algumas dessas crónicas, pediu, para cada uma, comentário a alguém ligado ao assunto. O resultado foi um livro original, que acaba de ser publicado pela Lápis de Memórias, de Coimbra, com um título não menos original: 5295 – Política Sociedade Comunicação Educação Desporto.

César Rodrigues pediu-me comentário à crónica Abaixo os Professores? Não, são precisos!. Além de ter sido um gosto colaborar na obra, tive, mais uma vez, o pretexto de escrever o que é óbvio (mas que é preciso dizer-se): os professores são precisos.


          A “nobre e exigente tarefa de ensinar”

                   Eu gosto muito de ouvir.
                   Cantar a quem aprendeu
                   Se houvera quem me ensinara, 
                   Quem aprendia era eu!”
                   (Rama, cantiga popular alentejana) 
O texto de César Rodrigues intitulado “Abaixo os Professores? Não, são precisos!”, com o “i” e a “vírgula” em destaque, dá expressão a uma questão que, sendo antiquíssima, tem adquirido na contemporaneidade um redobrado fulgor: para que alguém aprenda o que a escola tem para ensinar é preciso ou não que haja quem o ensine? 
A resposta que encontramos nos discursos, mais claros ou mais nebulosos, das reformulações curriculares em curso por todo o mundo ocidental, Portugal incluído, tende a ser “não”: os professores não são precisos, pelo menos para desempenharem funções de ensino, sobretudo numa “relação pedagógica”, que implica o seu encontro com alunos em determinadas espaços-tempos, para, directamente, olhos nos olhos, os levarem a aprender o que, por não ser ensinado noutro contexto, é incumbência da escola. 
De facto, retoma-se a velha ideia, como se fosse acabada de inventar, de que o aluno é capaz de fazer essa aprendizagem sozinho ou com os seus pares e, mais, tem a vontade necessária para tal. Acresce que agora tem à sua disposição “toda” a informação de que precisa para tanto, e de modo imediato e agradável. Basta-lhe “clicar”. Expressões como auto-aprendizagem, auto-orientação, aprendizagem colaborativa, pesquisa autónoma, trabalho de projecto, interesses e necessidades dos alunos, novas tecnologias, estão entre as mais usadas num vocabulário que dá forma a “uma pedagogia em que o professor é totalmente eliminado, pelo menos na sua função tradicional de «mestre». 
É-lhe atribuído um novo papel (…) ainda mal definido”. Esta citação, de M. Lobrot, consta numa obra de 1966, mas, passado meio século, nada nela é estranho. Há que reconhecer alguma verdade no parágrafo acima: toda a gente, criança ou adulto, sem ou com recurso a tecnologias, é capaz de aprender sozinha ou com outros que se encontram no mesmo patamar. 
O que, em geral, escapa neste raciocínio é que o conhecimento escolar – por princípio, conhecimento “poderoso”, assim designado por M. Young (2014) por permitir a construção da inteligência –, dada a sua amplitude e sofisticação, resultado do progresso da humanidade, não está ao alcance do aluno se não houver alguém que, nas palavras de C. Maia (2011), tenha sido educado e, por isso mesmo, o possa educar. 
Precisa, pois, como diz G. Steiner (2014), de um “carteiro” que lhe entregue a carta que não sabe ainda ler, o ajude a lê-la e a responder-lhe, até aprender a fazê-lo. A suposta capacidade do aluno para “construir o seu próprio conhecimento” assenta, pois, em várias falácias, uma das quais é a de que a sua acção autónoma precede a aprendizagem e conduz a ela, isto quando é ela que decorre da aprendizagem, por sua vez potenciada pelo ensino. 
Afirmar a indispensabilidade da acção do professor não anula a acção do aluno (Damião, 2010), que, em resultado do trabalho didáctico, integra e torna significativo o novo conhecimento na sua rede de conhecimentos. Visto que as crianças e os jovens não se educam sozinhos nem uns aos outros, sobretudo se estão no mesmo nível em matéria de educação, como têm destacado múltiplos autores (por exemplo, J. Dewey, 1916; H. Arendt, 1957; Quintana Cabanas, 2005; Boavida, 2009), e que as aprendizagens são impossíveis de conseguir por “imersão”, não podem os sistemas educativos manter uma “narrativa” que sugira a dispensa ou secundarização dos seus professores nas tarefas de ensino que, de resto, são as que lhe conferem identidade. 
Por seu lado, os professores precisam de reassumir, por inteiro, essas tarefas com toda a responsabilidade que elas acarretam, posicionando-se contra a ingerência crescente das mais diversas entidades (entre as quais se destacam as empresariais, políticas e académicas), na sua esfera, procurando direccionar o seu pensamento em função de interesses marginais àqueles que devem conduzir a educação escolar (Martins, 2016), impondo, sob o disfarce de apoio ou ajuda, metodologias, recursos materiais, ou outros produtos-prontos-a-usar-de-modo-uniforme, concebidos por quem não tem saber nem legitimidade para tanto. 
É patenteado em letra de lei que aos professores cabe desempenhar a “nobre e exigente tarefa de ensinar” (Decreto-Lei n.º 79/2014, de 14 de Maio). “Nobre” é a palavra certa para qualificar o que faz quem ajuda a formar, em cada aluno, a consciência humana.

Referências:

* Arendt, H. (1957/2006). A crise na educação. In H. Arendt. A condição humana (pp.183-206). Lisboa: Relógio D’Água.

* Boavida, J. (2009). El deber de educar como condición de libertad. In J. A. Ibáñez-Martín (Ed.). Educación, conocimiento y justicia (pp.129-144). Madrid: Editorial Dykindon.

* Damião, M. H. (2010). A (in)dispensabilidade de ensinar. In F. Savater; R. Moreno Castillo; N. Crato & M.H. Damião. O valor de educar, o valor de instruir (pp. 76-94). Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos/Porto Editora.

* Dewey, J. (1916/1959). Democracia e educação: Introdução à filosofia da educação. São Paulo: Companhia Editora Nacional.

* Galian, C. & Louzano, P. (2014). Michael Young e o campo do currículo: da ênfase no “conhecimento dos poderosos” à defesa do “conhecimento poderoso”. Educação e Pesquisa, 40 (4), 1109-1124.

* Lobrot, M. (1966). A pedagogia institucional. Lisboa: Iniciativas editora.

* Maia, C. F. (2011). Poderosos com causa: ensinar, aprender, educar. Revista Portuguesa de Pedagogia, Extra-série, 295-305.

* Martins, E. (2016). Todos pela educação. Como os empresários estão determinando a política educacional no Brasil. Rio de Janeiro: Lamparina.

* Quintana Cabanas, J. M. (2005). «Crítica pedagógica de los sistemas educativos occidentales». Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação, 13 (46), 55-66.

* Steiner, G. (2014). George Steiner/António Lobo Antunes. Ler (Reportagem com tradução do francês de Joana Jacinto), 52.

 Maria Helena Damião

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

ÍRIS CIENTÍFICA 4 - NOVO LIVRO DE ANTÓNIO PIEDADE



Já está disponível o meu mais recente livro "Íris Científica 4", que será apresentado em várias escolas durante a Semana da Ciência e Tecnologia 2017.



Sobre ele, escreveu Teresa Mendes, estudante do Mestrado em Comunicação de Ciência da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, o seguinte texto que transcrevo agradecido:

"ALÉM NO ESPAÇO E AQUI NA TERRA – CRÓNICAS DE CIÊNCIA DE ANTÓNIO PIEDADE, VOL. 4.

O quarto livro da colecção Iris Científica de António Piedade é uma lufada de ar fresco no panorama da comunicação de ciência escrita nacional. Criado a partir da compilação de 33 crónicas de meia página, publicadas na imprensa regional portuguesa entre 2016 e 2017, inclui ainda alguns outros textos inéditos do escritor. Foi lançado numa edição de autor de 150 páginas, em Novembro de 2017.

A primeira pergunta que se apresenta ao potencial comprador, que folheia esse objecto fetiche a que chamamos livro, é: porquê uma edição de autor?

O autor.
António Piedade, bioquímico, é um caso raro de um comunicador de ciência em Portugal que se permite acumular funções de consultor científico e coordenador do  projecto ‘Ciência na Imprensa Regional’ do programa Ciência Viva, ser autor e editor de livros de divulgação científica e ainda colaborar no De Rerum Natura – sobre a Natureza das Coisas, um blog de cientistas e comunicadores de ciência e que inclui nomes como Carlos Fiolhais na Física, assim como filósofos, químicos, matemáticos, biólogos, arquitectos e pedagogos. Este é o seu sétimo livro de divulgação científica.

A capa.
Não se compra um livro pela capa, mas a fotografia de capa do Iris Científica-4 – ‘a verdadeira cor de uma secção do anel B de Saturno – é linda e não deixará indiferente os adeptos do Espaço, que é provavelmente o tema que mais inflama a imaginação dos consumidores de comunicação de ciência em Portugal, quiçá no mundo.

O índice.
As crónicas do livro Iris Científica-4 estão agrupadas em dois temas, ‘Além no Espaço’ e ‘Aqui na Terra’, mas poderiam não ter qualquer subdivisão. Este livro é o equivalente, em português e com temas da actualidade, do inesquecível livro L’avenir en Direct [1989, da Era Minitel pré-Internet] de Joel Rosnay, director do Museu de Ciência e Tecnologia de La Villette, em Paris, que compilou em texto as suas crónicas radiofónicas de um minuto que diariamente animavam, logo de manhã, o fastio dos engarrafamentos parisienses. Posto em livro, tal como Rosnay, António Piedade oferece àqueles que ainda disfrutam do prazer de uma leitura de mesinha de cabeceira, um cadeux diário antes de adormecer.

Cada crónica, de menos de 3 minutos ou 600 palavras, conforme a métrica que preferirmos usar, é, na sua maioria, mas não exclusivamente, enquadrada a partir de trabalhos recentes de investigação nacional, de investigadores de universidades de cima a baixo do nosso país, de todas as instituições de referencia, não esquecendo a Comunidade Céptica Portuguesa.

"Este projecto editorial, despretensioso, reúne textos de divulgação científica que nascem das crónicas que tenho publicado semanalmente na imprensa regional portuguesa de todo o país.’ diz António Piedade. ‘Das cerca de 50 crónicas que publico anualmente, selecciono aquelas que, na minha opinião, poderão ter mais interesse para reavivar a memória das descobertas da ciência. São crónicas sobre a actualidade de diversos territórios da ciência: astronomia, biologia, bioquímica, física, geologia, química, entre outras.’

Há frases neste livro com as quais o leitor não consegue deixar de se identificar e sorrir de prazer quase-adolescente: ‘Entretanto, viajemos pelo Espaço a cerca de 30 quilómetros por segundo!’ em Viajantes do Espaço; ‘A vida é fascinante!’ em Vida Sintética; ou ‘Se o Prémio Nobel fosse atribuído a modelos animais de laboratório, estas mosquinhas já teriam recebido vários!’, da crónica Drosophila e a ciência que com ela se faz.

Já para não falar do entusiástico ‘Viva a Ciência Viva!’ como termina a crónica 20 anos de Ciência Viva; ou a desconcertante ‘Nem tudo o que reluz é ouro’ e ‘quando a esmola é grande o pobre desconfia’, parafraseando a COMCEPT – Comunidade Céptica Portuguesa, na crónica Nem tudo o que parece ciência o é!.

Ficamos ainda a saber pela crónica A ciência em democracia que ‘Podemos dizer que há mais cientistas portugueses nestas últimas quatro décadas de democracia do que em todo o resto da história de Portugal’.

Da crónica inédita Breve pré-história da Ficção Científica fica na memória a frase ‘A ficção científica borbulhava a todo o vapor num espaço que a física moderna estava então a atomizar e relativizar e em que a telefonia sem fios permitia a comunicação à distância, através do ar, na concretização tecnológica do que antes teria sido pura magia (e bruxaria).

O livro Iris Científica-4, de António Piedade. embala-nos com histórias comprimidas, mas muito bem escritas, onde o rigor da ciência não atrapalha a arte do escritor.

É bom apressar-se se o quiser o comprar, pois o Íris Científica-1 esteve cerca de 10 anos no Plano Nacional de Leitura e saiu de lá por estar esgotado nas livrarias. A 1ª edição de 500 exemplares do Iris Científica-3 também já esgotou. 
Os dados sobre a visualização e/ou leitura destes artigos de ciência publicados em jornais online indicam que estes estão frequentemente entre os mais lidos, alguns com milhares de visualizações, o que mostra claramente o interesse dos leitores por assuntos relacionados com a ciência.

O livro Iris Científica-4, de António Piedade oferece-nos dois anos das mais relevantes histórias da ciência nacional e internacional onde o rigor da ciência não atrapalha a arte do escritor.

O que nos leva à pergunta original – porquê uma edição de autor?"


Encomendas: apiedade@ci.uc.pt

Índice



ALÉM NO ESPAÇO
Nasceu uma nova era na astronomia
Quatro novas “Terras”
FADO Galáctico
Portugueses descobrem ventos em Vénus
Sonda Cassini com final feliz
Viajantes do Espaço

AQUI NA TERRA
Ferro e vida
Os fósseis mais antigos da vida
Vida sintética
Como surgiram as nossas células?
A flor de há 140 milhões de anos
Drosophila e a ciência que com ela se faz
Infertilidade feminina
Do sexo no musgo aos neurónios nos animais
Como se gera um neurónio?
À descoberta de quem somos
Quando o tempo não passa!
Quando um gesto se repete sem querer
Onde se criam ou quebram os hábitos
Previsibilidade e acaso
Salvar os filhos primeiro
Mapa neuronal dos movimentos
O suporte social dos peixes
Resistência bacteriana a antibióticos e ao sistema imunitário
E o planeta aquece…
Subida do nível do mar
Dia de Darwin
Descoberto crânio de hominídeo em Portugal com 400 mil anos
Cultura ibérica influenciou a Europa há 5000 anos
Francisco Cambournac
Nem tudo o que parece ciência o é!
20 anos de Ciência Viva!
A ciência em democracia

Breve pré-história da Ficção Científica




"Sophia" ou a banalidade do sentido das palavras

Cada palavra é um pedaço do Universo. 
Um pedaço que faz falta ao Universo. 
Todas as palavras juntas formam o Universo. 
As palavras querem estar nos seus lugares!
José de Almada Negreiros

“O meu trabalho é ser mais sábia e ter mais compaixão”, disse "Sophia" a uma jornalista do Expresso (aqui) e no programa Tonight Show, de Jimmy Farrow, disse "o meu plano é dominar por completo a raça humana (aqui)

"Sophia", que todos sabem significar "sabedoria", foi o nome dado a um robot humanóide com direito a certidão de nascimento numa página wikipedia (aqui) e cidadã de pleno direito da Arábia Saudita (aqui). Diz-se que foi inspirada em Audrey Hepburn.

Viaja pelo mundo e é entrevistada pelas principais cadeias de televisão dos países por onde passa (entre os muitos exemplos: aquiaqui, aquiaqui). Os jornalistas comportam-se mais ou menos como se estivesse perante uma pessoa, as respostas fazem-nos sorrir ou rir como crianças face a um briquedo supreendente. Os comentadores, quando os há, restringem-se à vertente técnica e ao uso que os robots desse tipo podem ter, e que são muitos, o lucro é, portanto, garantido. Raramente a ética, a condição humana e outras coisas que só atrapalham vêm ao caso (ver uma excepção aqui),

Desconcertante é a palavra que me ocorre ao olhar para a informação que reuni sobre a máquina. Limitando-me às frases acima transcritas, da inteira responsabilidade de humanos, fico-me pelas questões mais óbvias: ser sábio é um trabalho? Ter compaixão é um trabalho? Pode qualquer pessoa, e ainda mais, uma máquina falar em "sabedoria" e, sobretudo, em "compaixão"? "Dominar a raça humana" será, para os programadores, que não se desviam da lógica, um acto de sabedoria, um acto de compaixão?

"Aprender para concretizar a promessa da educação"


"Os países em desenvolvimento estão longe das grandes metas da aprendizagem. Muitos não investem recursos financeiros suficientes e a maioria precisa de ser mais eficiente. Mas não é apenas uma questão de dinheiro; os países precisam também investir na capacidade das pessoas e instituições encarregadas de educar nossos filhos (...) A reforma da educação é urgente e requer persistência, bem como alinhamento político dos governos, média, empresários, professores, pais e estudantes. Todos têm que valorizar e exigir uma melhor aprendizagem."

Jaime Saavedra (ex-ministro da Educação do Perú, Diretor Sênior de Educação do Banco Mundial).

Foi recentemente publicado o World development report 2018: Learning to realize education's promise (acesso a partir daqui). Da responsabilidade do Banco Mundial, foi elaborado por uma vasta equipa coordenada por dois economistas.

Nele se afirma reiteradamente a existência de uma "crise de aprendizagem" à escala global: muitos milhões de alunos, sobretudo de países mais frágeis, não estão a ser educados "para terem sucesso na vida". Isso significa que, como adultos, as suas oportunidades laborais são menores e auferirão de salários mais baixos.

Ainda que podendo estar na escola vários anos, muitas crianças e jovens, sobretudo as mais desfavorecidas, saem sem conseguir ler e escrever bem como realizar operações matemáticas básicas. A escolarização não significa, portanto, aprendizagem.

Estabelecendo-se, no relatório, uma relação directa entre educação e riqueza, afirma-se que esta crise, acentua as diferenças sociais: é, nas palavras do presidente do Banco Mundial, de ordem "moral e económica":

O relatório apela, pois, aos poderes políticos para que assumam a "aprendizagem para todos" como prioridade nacional. Se isso acontecer, é certo que o problema será minimizado. Em sequência, apresenta três recomendações:
1) Avaliação da aprendizagem, com base em objectivos mensuráveis. Apenas metade dos países em desenvolvimento têm este procedimento que pode ajudar os professores a orientar os alunos, a melhorar a gestão dos sistemas educativos e a concentrar a atenção das sociedades na aprendizagem;
2) As escolas devem ser acolher, de modo igual, todas as crianças. É preciso assegurar as condições de desenvolvimento do cérebro, proporcionando-lhes uma alimentação equilibrada e estimulação precoce. É preciso também atrair professores excelentes e mantê-los motivadas bem como proporcionar-lhes uma formação adequada e facultar-lhes tecnologias que os ajudem a ensinar;
3) Mobilização todos os cidadãos. Envolver e aumentar a responsabilidade das partes interessadas, incluindo a comunidade empresarial, em todas as etapas da reforma da educação, desde a concepção à implementação. 
Há neste relatório tanto de verdade factual como de mistificação, discussão que fica para texto posterior.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

"Quinhentos anos de Utopia de Thomas More: das utopias no Renascimento ao utópico na actualidade"

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Entre Novembro de 2017 e Fevereiro de 2018 tem lugar na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra o Ciclo de Conferências "Percurso(s) nas Ciências da Educação: utopia, democracia, educação, formação".

A primeira conferência intitula-se "Quinhentos anos de Utopia de Thomas More: das utopias no Renascimento ao utópico na atualidade" e realiza-se no dia 18 de Novembro (próximo sábado), das 10h30 às 12h30, no Edifício III da FPCEUC (Palácio Sacadura Botte). É convidado o Professor Doutor João  Maria André (FLUC) (ver resumo no final)

Mais informação na página do facebook do GRUPOEDE [aqui] e na página do referido ciclo [aqui].

A entrada é livre, preferencialmente com inscrição através de formulário [aqui].


RESUMO DA 1.ª CONFERÊNCIA: Quinhentos anos de Utopia de Thomas More: das utopias no Renascimento ao utópico na atualidade João Maria André (FLUC) O objetivo desta conferência é fazer um percurso alargado pelo espírito utópico na cultura ocidental. Assim, começaremos por rastrear as diferentes linhagens do pensamento utópico, uma com raízes filosóficas e outra partindo do imaginário religioso, qualquer uma delas com disseminações diferentes na atualidade. Num segundo momento, centrar-nos-emos mais nas diversas utopias do Renascimento, com especial destaque para a Utopia de Thomas More, mas sem esquecer os textos de Campanella, Francis Bacon e Johann Valentin Andrea e e outros projetos que, sem terem a forma de utopia, não deixam de ostentar a marca do espírito utópico. Depois de um breve percurso pelo desenvolvimento da capacidade de imaginar mundos nos séculos XVIII e XIX, entraremos no século XX e em algumas tendências que restauram ou de forma negativa, como contra-utopias ou distopias, ou na forma positiva, como novas formas da polis humana, a tendência para dar lugar ao não-lugar dos nossos sonhos ou dos nossos pesadelos. Concluiremos este percurso com uma breve reflexão sobre a aparente erosão do espírito utópico na atualidade e sobre algumas formas em que ele parece ainda encontrar porto de abrigo (João Maria André).

Saiu o n.º 70 da revista Humanitas

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Acaba se sair o n.º 70 da revista Humanitas (2017) que se encontra disponível em acesso aberto (aqui).
A Humanitas é a mais antiga revista publicada em Portugal especializada em Estudos Clássicos Greco-Latinos e Renascentistas, mas aberta a contributos de áreas dialogantes (História, Arqueologia, Filosofia, Religião, Arte, Retórica, Receção dos Clássicos, entre outras). 
Tem mantido um ritmo de publicação anual regular, desde o ano da sua criação, em 1947, e é propriedade do Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. 
A revista publica dois volumes por ano e mantém permanentemente aberta a Chamada de Artigos e Recensões, através da plataforma Open Journal Systems (OJS).

DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA

Post de Galopim de Carvalho: 

Em 2002 a UNESCO instituiu o Dia Mundial da Filosofia, no propósito de promover a reflexão sobre os acontecimentos actuais, fomentar o pensamento crítico, criativo e independente, contribuindo assim para a promoção da tolerância e da paz. Desde então este dia é celebrado em todo o mundo na terceira quinta-feira do mês de Novembro, que este ano terá lugar amanhã, dia 16.

 Tudo o que aqui se pretende promover está contemplado no teórico e ilusório propósito oficial da nossa escolaridade obrigatória, agora de 12 anos. Basta ler os textos de alguns dos responsáveis pelo nosso ensino para verificar que assim é. Mas a verdade é que continuamos a ser um povo em que ainda são muitos os desinteressados pelos valores da ciência e da cultura, alienados pelo “jogo da bola” e em que muitos militantes e a maioria dos simpatizantes dos partidos políticos desconhecem os fundamentos das respectivas ideologias.

 A Revolução de Abril, escancarou não só as portas, como os portões e as janelas, ao conhecimento nos mais variados temas das culturas científica, humanística e artística. Mas vivemos 43 anos, praticamente, de costas voltadas para estes valores, entretidos com futebol, lutas entre os aparelhos partidários, e três televisões, duas delas, privadas, essencialmente vocacionadas no lucro (o que não choca, como empresas que são e garantem trabalho a muita gente) e uma, pública, paga por todos nós, que “dá ao povo aquilo de que o povo gosta” e que, assim, não sai da incultura em que cresceu, vive e vai despedir-se deste mundo, sem ter aproveitado o prazer de saber e com isso ter participado numa sociedade melhor.

 Não obstante os belos propósitos, que eu diria falhos de convicção, de responsáveis pelo ensino como, por exemplo o que diz que a escolaridade obrigatória estabelece que um aluno, no final dos respectivos 12 anos, esteja “munido de múltiplas literacias que lhe permitam analisar e questionar criticamente a realidade, avaliar e selecionar a informação, formular hipóteses e tomar decisões fundamentadas no seu dia a dia”, a verdade é que (só falo da experiência que tive) são muitos os rapazes e as raparigas, que pouco ou nada leram, que chegam à universidade falhos de todas as culturas, sem saberem escrever português.

Os teóricos que aconselham os governos pretendem (ilusoriamente e estou em crer que sem convicção) que o jovem, cumprida a escolaridade obrigatória, “seja livre, autónomo, responsável e consciente de si próprio e do mundo que o rodeia”, mas basta ver a elevada percentagem de abstenções nos actos eleitorais, para constatar a falência deste nobre propósito.

Os programas oficiais estabelecem que, nas diferentes áreas de competências, os alunos aprendam a “colaborar em diferentes contextos comunicativos, de forma adequada e segura, utilizando diferentes tipos de ferramentas (analógicas e digitais), com base nas regras de conduta próprias de cada ambiente”. Um belo e elevado propósito que não teve e continua a não ter realidade visível na média dos nossos cidadãos e cidadãs. O que salta à vista nos dias que correm e nesta geração de adolescentes, que teve e tem o privilégio de fruir da condição de estudante, é o uso obsessivo dos telemóveis, onde quer que estejam e seja a que horas forem.

 É, pois, preciso e urgente olhar para esta realidade do nosso ensino. É preciso e urgente que o Ministério da Educação chame a si gente realmente capaz de proceder à necessária e profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino, a começar nos programas, passando pelo negócio dos livros e outros manuais adoptados e, a terminar, na conveniente formação e necessária dignificação dos professores e em tudo mais que lhes diga respeito, como seja, por exemplo, a libertação de todas as tarefas alheias à sua real missão de ensinar.

 António Galopim de Carvalho

NOVO LIVRO DE CARLOS FIOLHAIS E DAVID MARÇAL: A CIÊNCIA E OS SEUS INIMIGOS

Está no prelo o novo livro de dois autores deste blogue, o terceiro que assinamos juntos, e que deverá chegar às livrarias muito em breve.



A ciência tem poderosos inimigos. Desde logo o autoritarismo e a ignorância, que muitas vezes andam de braço dado. As ditaduras dão-se mal com a ciência, pois para a ciência tem razão quem tem provas e não quem manda mais. Donald Trump não será um ditador, embora tenha tiques ditatoriais. É simplesmente um ignorante que desvaloriza o conhecimento científico para impor a sua agenda unilateral e egoísta. Há muitas outras pessoas que tiram partido das suas posições para promoverem visões obscurantistas: os fundamentalistas religiosos que negam a ciência; os políticos que aprovam leis para terapias alternativas; os jornalistas que põem em pé de igualdade a verdade e a mentira; os vendilhões, que mascaram a sua banha de cobra com um embrulho a imitar ciência. E até alguns cientistas tresmalhados.

A ciência tem-nos permitido viver cada vez mais e melhor. Mas enfrenta hoje sérios adversários, que põem em causa a nossa segurança e o nosso bem-estar. Impõe-se por isso a defesa da ciência, que é também a defesa da democracia. A ciência precisa da liberdade de pensamento que é marca das democracias. Mas as democracias também precisam da razão da ciência para assegurarem prosperidade e bem-estar. A defesa da ciência é também a defesa da sociedade livre e aberta.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

CARLOS FIOLHAIS É O VENCEDOR DO GRANDE PRÉMIO CIÊNCIA VIVA MONTEPIO 2017

Carlos Fiolhais é o vencedor do Grande Prémio Ciência Viva Montepio 2017, uma distinção merecidíssima! Na categoria media ganham, muito justamente, duas jornalistas, a Teresa Firmino e a Filomena Naves. E o prémio na educação vai para a professora Isabel P. Martins. Parabéns a todos!

Entrega de Prémios: 24 de Novembro, às 16.00 na Galeria da Biodiversidade - Centro Ciência Viva,  situada na Casa Andresen, Porto.

RAQUEL GONÇALVES-MAIA SOBRE PONTES ENTRE CIÊNCIAS E ARTES

A

A química Raquel Gonçalves-Maia apresentou no Rómulo três livros de uma assentada: biografias de Pauling, Lewis e Bernal, três grandes químicos do século XX. E falou da questão das "duas culturas".

XAVIER VIEGAS SOBRE O INCÊNDIO DE PEDRÓGÂO GRANDE

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Ciência no século XXI: oportunidades e ameaças - conferência com Sir Martin Rees, astrofísico e astrónomo Real, no Porto




Sir Martin Rees: "Ciência no século XXI: oportunidades e ameaças"

17 de Novembro
18h00 - 19h30

Universidade do Porto - Galeria da Biodiversidade

Todos temos sido confrontados com rápidas e crescentes evoluções no campo da saúde, da agricultura, dos transportes, de energia, que assentam na ciência e tecnologia. Mas que papel vai desempenhar a ciência no futuro? Quais são as principais oportunidades e perigos da ciência. E que escolhas políticas devem ser agora feitas? Que relações são necessárias entre ciência e sociedade? Terão os cidadãos capacidade de entender a ciência? E terão os cientistas aptidão para no-las explicar?

Sir Martin Rees, astrofísico e astrónomo Real (autor do livro Para o Infinito - Horizontes da Ciência recentemente publicado pela Gradiva no âmbito da colecção Ciência Aberta), conversa com portugueses sobre este tópico e apresentará, também nesta conferência, uma nova tradução portuguesa do seu livro.

Mais informações sobre a conferência aqui.

Para adquirir o livro de Martins Rees publicado pela Gradiva clique aqui.

Minha entrevista à Antena 1 sobre a ciência em Portugal

https://www.rtp.pt/noticias/cultura/jovens-investigadores-enfrentam-situacoes-precarias_a1039190